Presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, Ualid Rabah quer ser voz pela soberania do país na Câmara Federal

Conhecido principalmente por presidir a FEPAL (Federação Árabe Palestina do Brasil) e ser a primeira voz no país a denunciar o genocídio de Israel contra o povo palestino em 2023, Ualid Rabah quer colocar agora sua projeção e sua militância a serviço de uma nova trincheira, a Câmara dos Deputados. Ele é pré-candidato a deputado federal pelo PT do Paraná, ao qual está filiado desde 2008.
Para contar a história de Ualid, é preciso ao menos retroceder a seus antecedentes imediatos. O pai, Hussein Ali Mohd Rabah, nascido na Palestina em 1921, chegou ao Porto de Santos em 1960, depois de 30 dias de uma viagem durante a qual ele e os demais passageiros muçulmanos comeram, basicamente, pão, algumas verduras e, eventualmente, sardinha. A restrição se deu pelo receio de que tudo o mais que estava disponível pudesse conter gordura de porco, animal considerado impuro pelo Alcorão e de consumo condenado.
“Meu pai não veio para cá para ficar. Ele veio para ganhar um dinheiro, voltar e levar uma vida um pouco melhor. Ele veio também porque a vida lá para ele não estava boa pelos efeitos do esfacelamento da sociedade, do tecido social e econômico palestino. Mas havia outra razão que eu só soube em 2017, conversando com um contemporâneo do meu pai, um pouco mais jovem. Meu pai pretendia ter continuado a estudar, mas ele acabou estudando só até o quarto ano primário. Para continuar estudando, teria que ir para uma cidade maior e isso implicaria em despesas, e as famílias camponesas, como a dele, não tinham essas possibilidades. E meu pai [já órfão] era dos irmãos mais novos, ele não tinha um poder decisório sobre o que fazer ou deixar de fazer. Isso teria criado nele um certo desgosto”.
Na Palestina, Hussein e sua esposa 16 anos mais jovem, Farha Husein Ali Mohammad Rabah, viveram uma pesada perda: a morte da primogênita do casal, Nazira, vítima de uma doença gastrointestinal, ainda bebê de um ano. A fatalidade se deu em sua ausência: Hussein estava em Jericó, no Vale do (Rio) Jordão, retirando sal do Mar Morto, que depois seria comercializado, com alguma frequência trocado por arroz ou outros cereais. Isso foi pouco antes de Hussein partir para o Brasil.
No Brasil, Hussein se instalou em Canoas (RS), onde foi mascate, principalmente de confecções, carregando a pé malas pesadas por toda a cidade e região. Logo se uniria a um conterrâneo em Toledo, cidade do oeste do Paraná onde uma colonizadora gaúcha, Maripá, abria novas glebas, e com quem montou um pequeno comércio na rodoviária da cidade. Foi difícil fazer algum dinheiro.
Como a espera de Farha na Palestina já se fazia longa, o pai dela havia lhe dado a opção de se separar de Hussein e se casar com outro na Palestina, mas ela escolheu esperar. Foi somente em 1965 que o marido enviou a ela a passagem para que finalmente viajasse ao Brasil, onde chegou a 12 de dezembro, no aeroporto do Rio de Janeiro e teve as primeiras surpresas: chuva no verão e casas de madeira, que jamais havia visto (na Palestina são de pedra). O segundo filho do casal, Ualid, nasceria em Toledo em 11 dezembro do ano seguinte.
A essa altura, o pai, com outro sócio, era pioneiro local no ramo do comércio de calçados. A família foi aumentado. Ualid ganhou um irmão (Jomah, falecido durante a pandemia da COVID-19) e duas irmãs, Ruayda, desde 1999 vivendo na Palestina, e Haula. “A gente teve uma infância marcada pelo comércio do meu pai, pela presença de uma comunidade árabe pequena, metade dela de palestinos, metade de libaneses, que tinha uma vida comunitária muito intensa. Lembro do Ramadã, que era um período em que a gente comia extraordinariamente bem, que meu pai comprava refrigerante, comprava frutas que não existiam [em outras ocasiões], uva, essas coisas. No Natal, por ser uma festa que todo mundo [cristão] comemorava, também meu pai era muito generoso. Ele era um comerciante pobre, não era exatamente um sujeito de vastos recursos. Para você ter uma ideia, nós nunca tivemos telefone e meu pai nunca teve carro. E nós nunca tínhamos ido à praia.”
Na casa grande e simples de madeira onde moravam, o idioma corrente era o árabe. Ualid aprendia português basicamente da babá da família. “Eu aprendi a falar árabe primeiro. E certas palavras [em português] eu falava com exatamente os mesmos vícios que minha família falava. Eu lembro, como se fosse hoje, eu não falava ‘socorro’, eu falava ‘seucorro’, porque era como meu pai e minha mãe falavam. E lembro também da distinção que havia, muito preconceituosa, de nós como turcos. Nós detestávamos que nos chamassem de turco, porque nós não éramos turcos”.
As crianças estudaram em escola pública, e a mãe, mesmo analfabeta, ajudava Ualid guiando a mão do filho nas tarefas com o caderno de caligrafia. Gesto que o faz chorar ao recordar. Mais tarde, ela se alfabetizaria em português pelo sistema Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização).
Além do idioma, a culinária também era essencialmente árabe na casa de Ualid. “Lembro do meu pai comprando cabrito para engordar e matar durante o período das festas. Ele matava e tirava o couro. Daí minha mãe limpava e aproveitava tudo o mais. Eu lembro que a gente era ficcionado por comer aquilo que hoje em dia não se come: as tripas recheadas, a buchada, o bucho recheado, daí ele era cozido primeiro, com o recheio misturado na panela, depois era colocado no forno para ficar crocante. Tudo isso que é uma culinária apresentada como tradicional no Nordeste, que é uma culinária moura, a gente tinha dentro da nossa casa”.
Ualid conta que sua casa também era muito frequentada. “Eu achava até meio incomum isso em relação a outras [famílias]. Todos os nossos amigos frequentavam a nossa casa, nossos amigos, crianças de escola. E todos eles lembram até hoje da comida farta que eles comiam lá. E depois alguns deles se tornam jovens, adolescentes e adultos mesmo, amigos nossos, e continuam frequentando a nossa casa, já com a gente fora e tal”.

Militância
Hussein, embora tivesse estudado até o quarto ano primário (árabe, na Palestina), não escrevia nem lia em português, então era Ualid quem o ajudava com as notas fiscais ao final do expediente na loja, onde trabalhava desde os oito anos de idade. Foi atrás do balcão da loja que Ualid e o irmão começaram a ler gibis, que escondiam dentro dos livros didáticos para evitar a reprovação do pai, que ficava bravo quando os filhos estavam distraídos com a leitura e não viam o cliente entrar.
Aos poucos, as leituras foram se sofisticando. “Eu começo a ler sobre os movimentos de libertação nacional. Tenho contato com a coleção Primeiros Passos, aqueles livretinhos. Começo a ler aquilo tudo e começo a me interessar por ler jornais e prestar atenção em algumas coisas. Meu pai tinha um aparelho de rádio de ondas curtas, e daí eu começo já a ter uma noção anti-imperialista mais acabada. Começo a ficar simpático à União Soviética. E aí eu conheço o pessoal do Partido Comunista, lá por 84, quando eu estou com 16 para 17 anos. Daí coincide que eu ingresso no Partido Comunista ainda na ilegalidade, movimentos secundaristas e, ao mesmo tempo, passo a ter contato com o movimento palestino. Eu não tenho vergonha de dizer isso, mas um ódio terrível aos Estados Unidos e ao imperialismo acaba sendo o indutor disso tudo. E, claro, do que se falava em casa é que leva a isso também”.
Ualid se refere a tudo que o pai relatava sobre a Palestina. “Meu pai não era um sujeito de leitura sofisticada, como todos os camponeses. Ele contava de uma forma mais simplória, não simplificada, porque simplificar significa ter um pouco de abstração para fazer isso. Ele contava sem necessariamente as datações precisas, sem os processos e as designações precisas, sem um léxico sofisticado para isso, sem um repertório histórico sofisticado para isso. Isso a gente foi aprendendo depois. Mas a formação que nós tivemos em casa era uma coisa muito curiosa. Todos os dias, e nisso eu não estou errando em nenhum milímetro, rigorosamente, todos os dias, todos os dias se falava da Palestina na minha casa. Todos. Só tem uma outra coisa que acontecia todos os dias. Meu pai, em algum momento, contava para nós os sonhos que ele teve. E, todos os dias, alguma coisa que ele sonhou da Palestina”.
Esse período definiria a militância e a trajetória de Ualid. “Eu diria que eu devo muito a esse período e ele que marca tudo, porque eu não teria tido formação se não fosse esse conjunto de elementos, porque havia outros palestinos e seus filhos e filhas, mas tem que ter gatilhos. Só o patriotismo sincero dos velhos, camponeses normalmente, não molda, não leva a consequências maiores. Uma coisa é ter indignação, outra coisa é entender politicamente. É a política que torna a indignação útil.”
Em 1984, Ualid termina o segundo grau, um curso básico noturno em agropecuária no colégio Presidente Castelo Branco. Ingressa por vestibular no curso de Economia da FACITOL (Faculdade de Ciências Humanas Arnaldo Busatto), uma fundação municipal em Toledo, e passa a trabalhar durante o dia no setor de compensação do antigo Bamerindus. “Era um trabalho brutal. Começava cedo e terminava por volta de sete da noite. E eu, ainda por cima, era o encarregado de levar o malote para o Banco do Brasil, para depois ir fazer a compensação de todos aqueles cheques, documentos etc. E isso me fazia chegar todos os dias atrasado na faculdade. E daí eu fui falar com o chefe de serviço, que era um carrasco, e ele responde: ‘O trabalho ou a faculdade’. Eu e mais dois colegas já estávamos marcados por termos participado de uma reunião [do sindicato] dos bancários, que na época era de Cascavel. Então já havia uma certa marcação. Eu falei: ‘Olha, então faz o seguinte, me demita’. Fiz o acerto no banco e dei todo o dinheiro para o meu pai”. Com a o apoio da família, matriculou-se no curso técnico de Psicultura de manhã e normalmente tinha aulas práticas à tarde. “Quando eu não tinha [aula], eu trabalhava com o meu pai e à noite eu ia para a faculdade de Economia”.
Maringá
Mas novas amizades levariam Ualid a outro rumo universitário. Em meados de 1985, Ualid já participa do primeiro Encontro da Juventude Árabe-Palestina do Brasil, em Foz do Iguaçu. “Lá eu conheço muitas pessoas interessantes. Dentre essas pessoas, eu conheço duas pessoas de família libanesa, Salua e Sabah, nunca esqueço e sempre vou ser grato o resto da vida a elas. Filhas do seu Kassim, que era um nasserista de primeira categoria, uma das melhores pessoas de comunidade árabe que eu conheci na minha vida, em Maringá. Em abril de 86, eu participo de um outro Encontro de Juventude e de um congresso da FEPAL, na época era COPAL, Confederação, em Canoas, justamente onde meu pai começou a vida dele no Brasil. E daí eu conheço também Ibrahim Bechara e o irmão dele, Jorge Bechara, eles de família libanesa cristã. Ibrahim fazia engenharia química na UEM [Universidade Estadual do Maringá] e presidia o DCE e o Jorge fazia um outro curso, não me recordo agora, e eles são de Capão Bonito, no interior de São Paulo”.
Essas relações começaram a influenciá-lo no sentido de dar novo rumo à sua trajetória acadêmica. Foram as amigas Salua e Sabah que incentivaram Ualid a prestar vestibular para Direito na UEM e até mesmo providenciaram sua inscrição para a prova. Ingressou na faculdade em meados de 1986 e passou a morar em Maringá. “Chego lá como recomendado do Partido Comunista dentro da UEM, que é um quadro que sai de Toledo, e daí eu já me integro direto ao movimento estudantil. E sigo como militante do Movimento Nacional Palestino”.
Para se sustentar, Ualid consegue um trabalho na construção civil. “Era apontador de obras da prefeitura do campus, como celetista, depois trabalhei em construtora e escritório”. Mas a militância partidária o faria deixar o emprego para que passasse a ser um quadro profissionalizado (como dirigente, era secretário de Agitação e Propaganda). “E tenho uma experiência muito interessante, porque eu fico na sede do PCB, eu trabalho com a arrecadação financeira das contribuições do PCB, e com isso eu acabo tendo contato com um monte de gente interessante, gente que ficou exilada, gente que foi presa e torturada, gente que foi para a União Soviética estudar etc. Todo tipo de pessoas. Eu devo muito a isso também. Isso me colocou em contato com a nata e poucas pessoas teriam essa possibilidade. Isso também me qualifica para estar no andar de cima. E daí, mesmo garoto, participo de articulações que só professores universitários participam. Mesmo nos primeiros anos que eu estou ali, eu já estou nesse andar”.

Jornalismo
Em 1989, Ualid passa a escrever artigos de opinião para um jornal de Maringá, o Diário do Norte do Paraná, então, segundo ele, o periódico de maior circulação no interior do estado. “Aí, um sujeito chamado Roberto Pardal, que era editor, gostava de alguns artigos que de vez em quando eu mandava e me convidou para ser jornalista. E, na época, você podia ser jornalista provisionado enquanto demonstrasse que não havia profissionais disponíveis e a faculdade mais próxima ficasse a pelo menos 100 quilômetros”.
Logo veio a campanha presidencial e Ualid foi destacado para cobrir a visita do candidato Leonel Brizola a Maringá. “Isso para mim foi uma coisa fantástica. Eu era um garotão, nunca tinha trabalhado em redação e o cara já me dava essas tarefas. Brizola concedeu a entrevista no aeroporto da cidade, na própria pista. Lembro que ele deu um cacete na [Rede] Globo, na presença da equipe da sua repetidora em Maringá, a TV Cultura — claro que os profissionais não têm nada que ver com os Marinho, mas…”.
Mas a demissão viria ainda durante a campanha eleitoral. “No segundo turno, Roberto Pardal se recusou a fabricar um novo clichê para a capa para beneficiar [o candidato] Fernando Collor, por pressão de empresários da cidade, e foi demitido, assim como as pessoas mais próximas. Eu era reconhecido como de esquerda, ou seja, aquela parte da redação ‘insubmissa’, digamos, e que traria dificuldades no alinhamento total à candidatura presidencial do Collor”.
A trajetória de jornalista, no entanto, estava apenas começando. “Um belo dia, eu estou no terminal de ônibus e encontro um sujeito chamado Douglas Fernandes, que era editor do jornal concorrente. Daí esse cara me convida para trabalhar. Isso já no início dos anos 90. E daí eu trabalho nesse jornal (O Jornal), depois troca de dono, daí se torna o Jornal do Povo”. Ualid atuaria ainda no jornalismo como pauteiro/produtor em algumas TVs. Depois, mais experiente, voltou a trabalhar no Diário como repórter especial. “Então, em 11 dos 15 anos que morei em Maringá, trabalhei como jornalista”.
Ualid também assessorou campanhas eleitorais e mandatos do PDT. “Assessorei o Joel Coimbra, meu amigo até hoje, em Maringá. Foi promotor de justiça, foi deputado estadual etc. Também assessorei, durante um curto período, o Ricardo Maia, descendente de gregos por parte do pai. O irmão mais velho (Georges) dele era do antigo PCB comigo. Por isso a ligação com a família. O Joel não era da ala lernista [de apoio a Jaime Lerner] e o Ricardo Maia acabava sendo. E daí esse PDT se racha. E o que aconteceu em Maringá? Foi montada uma ampla aliança progressista em que o Joel era o candidato a prefeito, era um sujeito, digamos assim, civilizado. E nesse processo se formam amizades também, porque não é só de política, especialmente nos interiores. E aí eu faço a parte de comunicação da campanha em 92. No começo, nós não tínhamos sequer fax, então eu levava as matérias impressas e eu ia de jornal em jornal entregar o release da campanha do dia. Era um sacrifício”.
Ualid também teve uma empresa de comunicação: a Centralcom, a primeira em Maringá para atendimento de comunicação empresarial para além da mera propaganda. Depois, com Antônio Carlos Moretti, montou uma editora em Sarandi. “Que editou um jornal chamado Correio Metropolitano, um semanário, e que prestava serviços para terceiros. E esse jornal chegou a ser considerado pela mídia pública do governo do estado, na época o governador era o Lerner — embora detestasse a gente, nunca designou verba pública para a gente, pelo contrário, sabotava para a gente não se dar bem —, chegou a ser considerado na boca miúda pela qualidade que ele tinha etc. Mas era muito difícil tocar, daí, no final de 2000, eu fechei o jornal.”
Os pais
Em 1997, Ualid foi pela primeira vez à Palestina. E por um motivo trágico. O pai havia voltado pela primeira vez a seu país de origem após 37 anos no Brasil. Adoeceu em seguida, falecendo 37 dias após seu retorno à terra natal. “Minha mãe não pôde ir junto [à Palestina], porque a documentação dela deu rolo e tal, naturalização dela não tinha saído, aí ele vai sozinho, ele adoece e falece em seguida lá e a gente não pôde sepultá-lo, velá-lo, daí é o exílio do exílio do exílio do exílio. A sensação do exílio é a sensação mais dura, mais desumana que um ser humano pode ter. Por isso os nossos exilados, nós sendo legatários deles aqui, é uma responsabilidade muito grande, muito grande”. A mãe de Ualid faleceu em Toledo, no ano passado, aos 88 anos.
Curitiba
O amor e o trabalho levaram Ualid a Curitiba a partir de 2001. Ali já morava sua então namorada, hoje esposa, Cassiana Pizzaia, jornalista e escritora. Na cidade, Ualid passou a trabalhar como chefe de gabinete de Ricardo Maia na Assembleia Legislativa, cujo irmão, George, era seu camarada no PCB. “Eu vim para cá em 5 de março de 2001, e trabalhei como chefe de gabinete durante 11 meses. Eu que redigia os projetos de lei e eu que produzia as justificativas”. Trabalhando num desses projetos, Ualid constatou que os cursos que mais costumavam dar status e renda a seus formandos eram os que menos tinham egressos das escolas públicas. “100% das vagas nos cursos de medicina, por exemplo, eram ocupadas por brancos, ricos, de escola particular”.
Antirracismo
Outra experiência que Ualid destaca de sua jornada foi integrar o Conselho Nacional de Igualdade Racial, que passou a existir com a instalação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no primeiro governo Lula, a partir de 2003. “Os árabes têm um assento que é preenchido primeiramente pelo Emir Mourad, que foi da direção da FEPAL e atualmente é secretário-geral da COPLAC, que é a Confederação Palestina Latino-Americana e do Caribe, e depois é ocupada, na sequência, pelo Alayyan (Taher Aladdin), ex-presidente da FEPAL. Depois eu sou o penúltimo (Fátima Ali, atualmente vice-presidenta da FEPAL, é a última – a FEPAL é impedida de integrar o CNPIR no início do governo Bolsonaro e posteriormente excluída de sua composição pela gestão ministerial de Anielle Franco) a assumir [a partir de 2010]. E fico lá oito anos. Daí, no governo Bolsonaro, todas as políticas civilizadoras, entre elas a de Promoção da Igualdade Racial, são sabotadas pela [então ministra] Damares [Alves], que assume essa função com o ministério repaginado”.
A participação no Conselho foi também sumamente importante na formação militante de Ualid. “Destaco o aprofundamento das minhas relações com o movimento negro, especialmente, mas também o contato com os ciganos e com os indígenas, que eu não tinha, e entender melhor essa agenda, de como o racismo é uma maldição, e como o racismo é uma construção demoníaca de subalternização, de assalto à renda e à riqueza, e o quanto há um ódio a pretos e pobres. Não que eu não tivesse noção disso, mas ali deu para perceber e o quanto havia de dificuldade de, no próprio progressismo, se lidar com isso. Isso, para mim, foi um dos aprendizados mais tardios que me acrescentaram. Eu devo muito a esse período, devo uma gratidão muito grande a esse período e especialmente ao movimento negro”.
FEPAL
Em seguida, a partir de 2019, Ualid assume a presidência da FEPAL. Ele faz um retrospecto: “Em 2015, a gente teve uma reunião da direção da FEPAL em Porto Alegre. Na época, era presidente ainda o Alayyan e eu era secretário de Relações Institucionais. Era uma reunião ampliada, tinha convidados, e nessa reunião nós decidimos começar a revitalizar, restaurar, recuperar o movimento palestino no Brasil. E pensando também nele na América Latina. Esse processo foi de 2015 a 2017 e culminaria com o Congresso em 2018. Em novembro de 2017, inclusive, fizemos uma formação para a juventude. Eu participei da organização dessa formação. Daí, em 2018, tem um processo eleitoral, muito tumulto, prisão do Lula, aquele processo anterior também de destruição do mandato da [presidenta] Dilma [Rousseff] e sua deposição ilegal. Enfim, isso atrapalhou a nossa vida também. E a palestinofobia, e a islamofobia, e a arabofobia tomam um contorno novo. E a gente começa a raciocinar isso. Aí não é possível realizar o Congresso em 2018”.
O Congresso é finalmente marcado para o último final de semana de abril de 2019, já com Jair Bolsonaro instalado na Presidência da República. “Detalhe: muita gente, bem-intencionada, em virtude da virulência antipalestina do governo Bolsonaro e daqueles locutores todos barbáricos e de dar inveja a Israel, nos aconselharam a adiar o Congresso devido ao ambiente hostil. Nós dissemos: ‘Não, nós vamos realizar o Congresso’”.
O desafio da comissão organizadora, que Ualid presidia, era encontrar um lugar adequado. “Precisava ter um bom auditório, de bom tamanho, inclusive para fazer uma boa abertura e a gente estava quebrado (financeiramente). Aliás, estamos ainda, mas, na época, estávamos mais. Aí a gente encontrou o hotel ideal, fechamos o contrato, o Hotel Embaixador, em Porto Alegre. Na primeira reunião que a gente faz presencial da comissão de organização, nas instalações do Hotel Embaixador, a gente descobre que foi naquele hotel que aconteceu o primeiro Congresso da FEPAL, em 80. Isso foi espantoso para nós. Então era o décimo Congresso, 40 anos – porque o Movimento Palestino nasce organizado com a perspectiva de FEPAL, em Brasília, numa reunião de lideranças em 1979 – exatamente na capital e no hotel que aconteceu o primeiro Congresso. Foi muita coincidência”.
Apesar de todo o ambiente político adverso, o Congresso foi um êxito. “E para a nossa surpresa, felicidade, enfim, júbilo, foi o maior Congresso da nossa história. Praticamente o dobro de delegados que o Congresso anterior, que já tinha sido o maior. Reuniu 136, quase 140 delegados e observadores. Foi muita coisa. A nossa chapa teve quase 40% de mulheres, a vice-presidência, ocupada por uma mulher ineditamente, a Fátima Ali, integrante do movimento palestino, ela é anterior a mim uns dois, três anos no movimento. Nossa chapa foi eleita por unanimidade. Foi uma festa fantástica. E daí a gente inicia o processo de reconstrução da FEPAL. Já tinha iniciado, mas aí já com a nova direção, o Congresso já era resultado disso”.
Genocídio
Mesmo antes de ser eleito para presidir a FEPAL, Ualid já havia sido sondado para se candidatar a deputado federal pelo PT nas eleições de 2018. “Na época, devido a um problema de saúde em família, eu nem cogito mais discutir isso. E aí acontece o Congresso em 2019, nós somos eleitos e a gente retoma a reconstrução da FEPAL. E aí uma nova política de comunicação, tecnicamente falando, uma nova forma de repertório etc. E a FEPAL vai ganhando notoriedade. Em 2021, durante esse processo, eu sou novamente convidado, já, dessa vez, por um grupo um pouco maior, para ser novamente candidato a deputado federal. Imaginando, inclusive, a onda Lula que estava ali. Dessa vez, eu examino isso com os nossos irmãos do movimento palestino. E chegamos à conclusão de que havia dois bens. Um bem maior, inaugurado há mais tempo, que já estava em construção, que era a reconstrução do movimento palestino no Brasil e na América Latina, em que nós estávamos implicados como espinha dorsal; e a hipótese de ser candidato, que era bastante nobre etc., mas que não era o bem maior em mãos. Aí optamos pela linha conservadora de manter aquele trabalho, que não poderia prejudicar o outro. E tocamos. E veio 2023, o genocídio. Demonstrou-se que nós estávamos certos (pelo quanto a FEPAL estava pronta para o desafio de reagir ao genocídio no Brasil)”.
Na avaliação de Ualid, a FEPAL chega ultrapreparada a esse momento histórico. “E nós, basicamente, ditamos o discurso em todo o Ocidente de como se deve falar na questão palestina e do genocídio. Fomos os primeiros a utilizar a palavra genocídio já no dia 7 de outubro [de 2023]. E dissemos que havia um novo tipo de propaganda de guerra nunca vista antes e que o genocídio seria televisionado. E o mundo todo começa a falar de genocídio televisionado. Só que nós falamos genocídio televisionado de outra maneira, com outro objetivo. Que esse genocídio seria televisionado pelas elites para convencer a humanidade de que era preciso exterminar um grupo humano. Acabou tomando uma outra conotação. Pouca gente sabe disso. Mas a conotação inicial não era aquela que ganhou a notoriedade e ficou fixada”.
Pré-candidatura
Atualmente, além de presidir a FEPAL, Ualid se dedica ao ramo de consultoria revisional para recuperação de ativos financeiros e consultoria para aposentados e pensionistas. “Essa é a minha atividade [profissional]. Há quem pense que sou advogado, mas nunca advoguei. Apenas cursei direito, mas apenas quase concluí o curso”.
Em 2025, novamente sendo sondado para uma pré-candidatura à Câmara Federal, Ualid foi amadurecendo a possibilidade. Fez consultas à família. Ele e Cassiana são pais de Gabriel e Sofia, ambos universitários. “Até com eles eu troquei uma ideia, porque acho isso justo, e conversei com os meus melhores amigos que militaram politicamente. Essa foi a minha última tarefa comigo mesmo, digamos assim. Eu me comprometi de fazer isso, evidentemente, mas era um compromisso comigo mesmo, para sentir a veia; a veia foi boa, aí eu tomei a decisão final de ser pré-candidato”. Bateu o martelo em final de novembro, aceitando o desafio.
Anti-imperialista
Os planos para um eventual mandato na Câmara Federal estão baseados principalmente na premissa da defesa da soberania e projeção do Brasil no mundo. “Eu acho que tem campo para essa discussão com o Brasil sendo um player global nessa ideia de tornar o mundo multilateral, enfrentar o imperialismo e o colonialismo. Quem sabe nós sermos os grandes protagonistas de um novo processo civilizatório a partir desses trópicos, quem sabe construir a primeira potência não imperialista da história, isso tudo ancorado às necessidades para isso. Então uma política econômica que vise a soberania, uma política de defesa nacional, consequentemente, e a reforma inclusive do Exército, das Forças Armadas brasileiras, de modo geral, com vistas a isso”.
Nesse sentido, Ualid defende também debelar a política de juros. “Na minha opinião, [a atual política de juros] é uma forma de desnacionalizar e dessoberanizar o Brasil, razão pela qual é preciso republicizar o Banco Central, é preciso tornar a lei de responsabilidade fiscal, de irresponsabilidade que ela é, de verdadeiramente responsabilidade de colocar os juros nessa responsabilidade fiscal. É preciso reduzir os juros, é preciso elevar a renda básica do povo brasileiro e sua participação na riqueza. Não existe projeto nacional e patriótico que não inclua o povo, as pessoas, num ambiente de prosperidade econômica e social. É preciso resgatar a capacidade de inovação e capacidade científica e tecnológica do Brasil, é preciso resgatar a nossa indústria de infraestrutura e indústria de elementos básicos da economia. Por exemplo, nós tínhamos uma empresa, uma indústria de trator, a CBT (Companhia Brasileira de Tratores), não temos mais, uma agricultura que é ultra-eficiente, claro, com seus defeitos, nós tínhamos uma indústria de colhedeiras (eram chamadas de trilhadeiras) na época nacional, não temos mais, e veja a agricultura que nós temos; nós temos talvez, no Sul Global, a maior participação na logística do modal rodoviário e não temos uma indústria de caminhões, mas nós tivemos a FNM, Fábrica Nacional de Motores. Não temos sequer uma indústria (nacional) de pneus!”.
O pré-candidato também tem por preocupação a questão da soberania digital. “Nós tínhamos os primeiros buscadores do mundo e um dos mais eficientes, o Cadê, que tinha outros quatro ou cinco com ele, o Cadê, anterior ao Google, foi comprado pelo Yahoo e nós não temos soberania nisso; nós tínhamos uma indústria de computadores com indução pública muito eficiente para o seu momento e que ainda tinha problemas de gargalo a resolver, mas que seria resolvido, quando a Coreia do Sul era ninguém nessa fila do pão, olha onde a Coreia do Sul está, olha onde os entreguistas nos colocaram. Isso tudo é discussão a ter, conquistar uma integração aqui no subcontinente mais eficiente, que leve em consideração a segurança do continente, inclusive antiterrorista, que leve em consideração o desenvolvimento do continente até mesmo da discussão das políticas de igualdade para todo o continente, uma indústria de defesa comum no continente, e salvaguardar o Brasil da sua condição privilegiada de ser o segundo país mais importante do Ocidente ainda secundado pelos Estados Unidos, o único país do BRICS que está no Ocidente, o único país no Ocidente que pode desafiar os Estados Unidos, e um país sem o qual os BRICS ficam aleijados, o Brasil pode protagonizar um grande processo civilizatório a partir desses trópicos”.
Ualid afirma que há muitos outros temas a discutir. “Preocupa muito, por exemplo, a fragilização das políticas de igualdade racial, nós temos que reverter esse processo, temos que aprofundar as políticas para as mulheres para que elas se tornem protagonistas e players econômicos, sociais e políticos e talvez passar a exigir não apenas a participação mínima das mulheres nos pleitos, como a participação mínima das mulheres nos preenchimentos dos cargos públicos eletivos ou não, porque isso é importante, isso é metade do PIB. Eu sempre falo, para a Palestina, quando você coloca todas as mulheres, você tem metade da força de libertação, metade do PIB, metade da força guerreira, metade de tudo, então, se você exclui as mulheres, evidentemente que você prejudica a si mesmo. E finalmente um combate às políticas de ódio, de intolerância, especialmente a islamofobia, que foi a primeira porta de reinstauração das políticas de ódio, intolerância e de racismo no Brasil. Pouca gente notou isso, mas, na época, nós denunciamos isso, salvo melhor juízo, até mesmo com nota pública. Eu acho que é isso, são desafios, eu me sinto muito preparado para isso, muito tranquilo”.
O Paraná tem hoje uma bancada na Câmara majoritariamente conservadora, de direita. Mas Ualid confia na conquista do eleitorado resgatando mentes e corações. “Um pensamento progressista que foge dos marcos da esquerda stricto sensu, que é um pensamento patriótico, desenvolvimentista, um pensamento clássico de país grande etc. A gente precisa resgatar isso tudo. Isso tudo é um processo civilizatório. Quando a gente abdica disso, a gente joga no ninho da direita e no colo da direita toda essa gente boa, gente de bem de verdade. Gente que tem preconceitos. Sim, o ser humano é um almoxarifado de preconceitos. Então a gente tem que gerir isso e varrer para dentro pelos consensos”.
Ficha
Ualid Rabah
Ualid Hussein Ali Mohd Rabah
Pré-candidato a deputado federal pelo PT-PR.
Nascimento
11 de dezembro de 1966 (59 anos)
Toledo (PR).
Cargo atual
Presidente da FEPAL (Federação Árabe Palestina no Brasil).
Empresário.
Trajetória
Comerciário desde os 8 anos (na loja do pai).
Bancário.
Apontador de obras.
Dirigente partidário.
Jornalista.
Assessor de imprensa.
Chefe de gabinete.
Empresário.
Ualid Rabh nas redes
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instagram.com/ualidrabah
