
Feira de Santana cresceu. Cresceu entre avenidas, condomínios, galpões industriais, loteamentos, acúmulo de lixo, rios degradados e periferias empurradas para longe dos direitos básicos. Cresceu como centro econômico regional, entroncamento logístico e polo comercial. Mas esse crescimento não significou distribuição justa da riqueza, do território, da água, da infraestrutura e da qualidade de vida.
O modelo de desenvolvimento imposto à cidade subordinou o planejamento urbano, ambiental e social aos interesses do capital imobiliário, industrial e financeiro. A cidade passou a ser tratada como mercadoria. O solo urbano transformou-se em ativo especulativo. Áreas verdes desapareceram sob o avanço da expansão desordenada. Riachos, lagoas e nascentes foram soterrados pela lógica do lucro imediato. Enquanto isso, a classe trabalhadora convive diariamente com enchentes, ausência de saneamento, descarte irregular de resíduos, calor extremo, insegurança hídrica e precarização das condições de vida.
A crise ambiental instalada em Feira de Santana não é resultado de fatalidades naturais nem apenas consequência abstrata das transformações globais do capitalismo. Ela também expressa a ausência histórica de políticas públicas municipais capazes de enfrentar o crescimento desordenado da cidade, garantir planejamento urbano, preservar os recursos ambientais e assegurar condições dignas de vida para a classe trabalhadora. A precariedade da infraestrutura urbana, a fragilidade da fiscalização ambiental, a ausência de políticas estruturantes para saneamento, resíduos sólidos e preservação territorial aprofundam problemas que atingem diariamente milhares de trabalhadores e trabalhadoras.
O avanço do capital imobiliário reorganiza a cidade conforme os interesses da especulação, deslocando a classe trabalhadora para áreas sem infraestrutura adequada e aprofundando a segregação socioespacial. Ao mesmo tempo, os impactos ambientais recaem de forma desigual sobre os setores mais precarizados da cidade, especialmente sobre a população negra, periférica e sobre as mulheres trabalhadoras, que frequentemente assumem, de maneira invisibilizada, o peso cotidiano da reprodução da vida em territórios marcados pela ausência de políticas públicas, pela precariedade urbana e pela degradação ambiental. O racismo ambiental e as desigualdades de gênero aparecem, assim, não como fenômenos isolados, mas como dimensões estruturais da própria organização do espaço urbano.
A política de saneamento permanece marcada pela desigualdade. Enquanto setores privilegiados concentram investimentos, inúmeras comunidades convivem com esgoto a céu aberto, drenagem insuficiente, precariedade no abastecimento de água e ausência de políticas adequadas de manejo dos resíduos sólidos. O lixo acumulado nas ruas, canais e terrenos abandonados tornou-se também expressão visível das desigualdades urbanas e ambientais da cidade.
No campo, o avanço desorganizado da expansão urbana sobre as áreas rurais produz degradação ambiental, pressão sobre nascentes, descaracterização de territórios historicamente construídos e impactos profundos sobre as formas de vida ligadas ao meio rural. A ausência de planejamento territorial amplia conflitos ambientais e compromete o equilíbrio entre cidade e campo.
A dinâmica industrial de Feira de Santana não pode ser analisada separadamente das transformações urbanas e ambientais produzidas pelo capitalismo contemporâneo. Inserida em uma lógica de crescimento econômico voltada prioritariamente para a circulação de mercadorias e para a acumulação privada, a atividade industrial reorganiza territórios, pressiona a infraestrutura urbana e produz impactos ambientais que recaem, sobretudo, sobre a classe trabalhadora. Comunidades inteiras convivem com degradação ambiental, contaminação, precarização territorial e adoecimento, enquanto os custos sociais e ambientais do desenvolvimento econômico permanecem distribuídos de forma profundamente desigual.
A crise climática já altera o cotidiano da cidade. Ondas de calor, impermeabilização do solo, escassez hídrica, destruição de áreas verdes e precarização das condições urbanas revelam que os impactos ambientais não pertencem a um futuro distante. Eles atravessam o presente de Feira de Santana e atingem principalmente os setores da classe trabalhadora historicamente afastados do acesso pleno aos direitos urbanos e ambientais.
Diante desse cenário, a questão ambiental não pode ser tratada como tema secundário ou isolado. Ela atravessa o debate sobre moradia, mobilidade, saúde pública, educação, trabalho, planejamento urbano e democracia. A disputa pelo território é também uma disputa pelos rumos da cidade e pelas condições de existência da classe trabalhadora.
A construção de uma política socioambiental para Feira de Santana exige participação popular, fortalecimento dos espaços coletivos de decisão e enfrentamento às formas de desenvolvimento que aprofundam desigualdades e degradam a vida.
O futuro da cidade dependerá da capacidade de organização social, formulação política e construção coletiva de alternativas que coloquem a vida, o território e os direitos da classe trabalhadora acima dos interesses do lucro.
Setorial Municipal de Meio Ambiente
Partido dos Trabalhadores (PT)
Feira de Santana (BA)
2026
