Por Marcos Jakoby (*)

Lula fez um discurso de mais de uma hora na convenção nacional do PT, ocorrida no último domingo, dia 2 de agosto. Dá tempo de falar de muita coisa. E de fato, o presidente discursou acerca de inúmeros assuntos. Vários inclusive relacionados à sua trajetória, do PT e da esquerda: a sua origem, antes de se tornar liderança do Partido, a redemocratização, a campanha de 1989, o Foro de São Paulo, a sua trajetória sindical, a fundação e o início do PT, os companheiros/as que já se foram, entre outros assuntos. A meu ver, Lula tem uma preocupação legítima de criar uma memória de como ele e os nossos governos conduzidos por ele serão lembrados. Porém, há um risco, o momento exige que falemos mais de futuro do que de passado.
O presidente também afirmou da importância e do orgulho com que devemos defender o governo, citou o Pé-de-Meia, o BNDES, a legislação de combate à violência contra as mulheres, a reforma tributária e a isenção no imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais.
Na parte final de seu discurso, dedicou-se a falar do porvir. Mencionou que num próximo governo teremos “que ser mais ousados”, que cuidamos do que é considerado o “básico” e que agora trata-se de “dar um salto de qualidade”. Então listou cinco “compromissos”: 1/ “resolver” o problema da educação; 2/ desenvolver políticas públicas para a população idosa; 3/ investimentos na defesa nacional; 4/ terras raras como uma riqueza à serviço do nosso desenvolvimento; e 5/ transição energética.
Quando falou em educação, Lula mencionou que para atingir as metas do Plano Nacional de Educação, “a gente não vai poder ficar chorando atrás da miséria do que sobra do orçamento”. De fato, para resolvermos problemas estruturais do país – inclusive aqueles que restringem o nosso desenvolvimento -, e efetivarmos os compromissos acima, precisaremos ampliar em muito o investimento público.
Entretanto, isso envolve, entre outras coisas, superarmos os limites do Novo Arcabouço Fiscal e as estratosféricas taxas de juros em nosso país. E vai na contramão de declarações do atual ministro da Fazenda, que fala em apertar os limites do NAF, conter os gastos e até alterar os pisos constitucionais da saúde e da educação; e também vai no sentido diametralmente oposto da política conduzida pelo Banco Central, cujo presidente foi indicado pelo nosso governo.
O discurso do presidente deu apenas algumas pinceladas do programa que defenderemos para o próximo período. Está evidente, que precisamos delineá-lo melhor. No ato do dia 16 de agosto, no estádio Vila Euclides, será a oportunidade de apresentarmos o programa. Há, contudo, uma fragilidade coletiva nossa, que tem a ver com opções políticas adotadas pelo comando de campanha e de parte da direção do Partido: o fato da militância e da nossa base social ainda não ter clareza de qual será o programa. E algo ainda mais profundo, de que a sua construção careceu de participação e de um amplo debate público. O faremos já em plena campanha.
E essa é uma dimensão fundamental. Pesquisas revelam que há mais eleitores dispostos a votar em Lula em 2026, comparado a 2022, porém, paradoxalmente, o fazem com menor ânimo, o que inclusive aumenta as chances de abstenção eleitoral. Para superarmos esse descompasso, precisamos falar mais do que nunca de futuro, com muito mais “ousada”; precisamos apontar concretamente quais serão as grandes transformações que queremos construir em nosso país. E tão importante: como as faremos.
Enfim, para criarmos um ambiente de mobilização, necessário para vencermos as eleições e o fazermos em melhores condições políticas para um próximo governo, será fundamental que o “salto de qualidade” e o “Lula porreta” mencionados no final do discurso convertam-se efetivamente em linha de campanha e de programa. E como bem alerta o presidente, nada está ganho.
(*) Marcos Jakoby é professor e membro do diretório estadual do PT/RS
