Por Pedro Pomar (*)

Às vezes é preciso reafirmar o óbvio ululante: a eleição no estado de São Paulo é estratégica para o Partido dos Trabalhadores, por uma série de motivos — sendo o principal o fato de possuir a maior população, com mais de 46 milhões de pessoas, e o maior eleitorado do país, mais de 34 milhões de eleitoras e eleitores. Portanto São Paulo reúne, sozinho, mais de um quinto do eleitorado brasileiro: 21% de 158,7 milhões de eleitoras e eleitores.
São dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), que também informa outro número importantíssimo para nós do PT: as mulheres constituem a maior parte do eleitorado paulista. São 18,1 milhões de eleitoras (53%) e 15,9 milhões de eleitores (47%).
Portanto, do ponto de vista demográfico, não pode haver a menor dúvida quanto à centralidade de São Paulo nesta eleição. Mas há outros fatores a levar em conta. É neste estado que se encontram as bases materiais e políticas de uma grande parcela da classe dominante brasileira, com destaque para o capital financeiro (“Faria Lima”) e setores do “agronegócio”, do capital imobiliário e da mídia oligárquica.
São Paulo foi um dos principais berços do neoliberalismo e do PSDB, que o governou por 28 anos consecutivos (de 1995 a 2022), de onde veio o apelido de “Tucanistão”. O atual governador, Tarcísio de Freitas, bolsonarista filiado ao Republicanos, vem governando com o auxílio das antigas bases sociais do PSDB e de um leque de partidos, na Assembleia Legislativa, que vai do “Centrão” à extrema-direita.
Seu antecessor, João Doria, havia acelerado a reforma neoliberal do estado, extinguindo órgãos públicos, ampliando concessões e cortando direitos do funcionalismo. Tarcísio foi além e avançou nas privatizações e no desmantelamento dos serviços públicos.
Tarcísio vendeu a Sabesp, concedeu à empresa privada Trivia três linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), extinguiu a Fundação para o Remédio Popular (FURP), cedeu à big tech Google o principal prédio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ameaçou demolir parte do Instituto Adolfo Lutz, tentou alienar 35 estações experimentais dos institutos de pesquisa agrícola e incluiu o Memorial da América Latina no programa de “parcerias” com o setor privado. Deu aval a grandes projetos de especulação imobiliária, como a transferência do governo estadual para a região central da cidade e a “Nova Raposo”.
Uma de suas maiores “obras” é a destruição da rede estadual de ensino, com a participação “inesquecível” do empresário Renato Feder, que ele colocou à frente da Secretaria da Educação. A dupla Tarcísio-Feder alterou a Constituição estadual para reduzir as verbas vinculadas da educação, de 30% para 25% da receita de impostos; implantou a plataformização do ensino, precarizando a formação estudantil; privatizou a gestão escolar da rede pública; perseguiu professoras e professores; e deu início a um bizarro programa de “escolas cívico-militares”.
Na segurança pública, o governador neofascista procurou se mostrar um grande linha-dura. A Polícia Militar voltou a matar como nunca: a letalidade policial cresceu 90% na gestão de Tarcísio, tendo como alvos preferencias jovens negros e pobres. As “operações” Escudo e Verão, na Baixada Santista, foram uma matança a céu aberto, envolvendo tortura e assassinato de 84 moradores de comunidades populares. Ainda na segurança pública, o governo Tarcísio deu a São Paulo um novo recorde em feminicídios em 2025, com 270 casos (contra 246 no ano anterior), mostrando total descaso pela questão.
Ao agir como autoridade linha-dura e, ainda, como “gestor campeão neoliberal”, além de se conectar com as bases sociais da extrema-direita o governador paulista buscou se mostrar para a turma do dinheiro como o candidato mais confiável para disputar a Presidência contra Lula. E de fato Tarcísio parecia haver conquistado o apoio da “Faria Lima” e de outros grupos oligárquicos, mas não quis se chocar com o golpista preso Jair Bolsonaro, que preferiu a candidatura do filho Flávio. Por isso preferiu se candidatar a um novo mandato como governador de São Paulo.
Não existe a menor dúvida quanto ao fato de que Fernando Haddad é um candidato 100% superior a Tarcísio, seja por sua integridade, por seus valores pessoais, ou por suas realizações como prefeito de São Paulo e como ministro da Educação e da Fazenda. Mais ainda: não pode existir dúvida quanto ao fato de que Haddad é um candidato que reúne amplas condições políticas de derrotar o candidato neofascista e sagrar-se governador, levando o PT a uma vitória inédita.
Claro que a campanha será difícil — o governador neofascista conta com o apoio ostensivo ou disfarçado da mídia e de magnatas como André Esteves (do BTG Pactual) e outros que lucraram com as privatizações. Mas ela está apenas se iniciando. Vale a pena acreditar e lutar! Nós do PT devemos essa vitória ao povo paulista.
Haddad chegou ao segundo turno em 2022, contra esse mesmo adversário, mas perdeu por erros que desta vez podem ser evitados. Nesse sentido, é preciso conversar com a população, buscar o povo pobre das periferias, dialogar com as mulheres, com a juventude negra, com os povos indígenas e quilombolas, com os moradores de regiões esquecidas como o Vale do Ribeira e o Pontal do Paranapanema.
É preciso propor a reestatização da Sabesp, pois a sua venda se revelou um enorme desastre para quem precisa dela, bem como anunciar a reversão da concessão das linhas da CPTM, pelo mesmo motivo. É preciso apontar medidas para combater os feminicídios e interromper o genocídio da juventude negra e periférica. Assegurar dignidade e respeito à educação pública estadual.
O que está em jogo em São Paulo é muito mais que um bom resultado para Lula na disputa presidencial, que lhe garanta uma vitória mais confortável. O que se decidirá aqui é se vamos ou não derrotar o principal candidato das oligarquias a presidente em 2030, é se Lula terá ou não condições de governar e de implantar um programa que atenda às reivindicações das bases sociais do PT, é se vamos ou não derrotar o coração do projeto neoliberal.
(*) Pedro Pomar é jornalista.

Uma resposta
Excelente quadro apresentado, é exatamente isso, o jogo começou e os inimigos não dormem, bora derrotar o grande representante das oligarquias e do coração neoliberal.