Por Valter Pomar (*)

Espantoso o texto que a professora Maria Hermínia Tavares acaba de publicar acerca de Cuba.
O texto está na edição de 26 de fevereiro do jornal Folha de S. Paulo e pode ser lido aqui: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2026/02/a-agonia-de-cuba-socialista.shtml
Assim como a professora Maria Hermínia Tavares, gosto muito de Leonardo Padura, não apenas de O homem que amava os cachorros, mas de todos seus outros romances. Mas gostar de romances não implica confundir ficção com a realidade, muito menos extrair da literatura uma diretriz política.
Por exemplo, não concordo que a imensa contribuição de Cuba para o mundo, especialmente para a América Latina e Caribe, possa ser expressa nos termos utilizados por Maria Hermínia: “lento desmoronar das promessas”, “amargo cotidiano na ilha”, “casa decrépita”, “reiterada penúria”.
Mas neste fevereiro de 2026, estou de acordo que a situação de Cuba pode ser expressa com o termo “agonizante”. Mas quem agoniza? Maria Hermínia, embora cite as “privações dos habitantes de carne e osso”, prefere destacar que “o sistema socialista cubano agoniza”.
Discordo dessa abordagem. Quem “agoniza” são milhões de pessoas, milhões de seres humanos, a quem temos a obrigação de ser solidários, por exemplo tomando medidas para superar o embargo petrolífero imposto por Trump.
Acontece que boa parte do texto de Maria Hermínia é dedicado a tentar provar que “seria um equívoco atribuir o desastre presente à medida decretada pelo truculento presidente americano, ou mesmo ao bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem ao regime castrista desde 1962”.
Ou seja: um bloqueio que dura 60 anos, bloqueio imposto pela principal nação do mundo contra uma ilha de 10 milhões de habitantes, teria efeitos “secundários”.
Pior ainda é o argumento segundo o qual seria um “equívoco atribuir o desastre presente” ao bloqueio petrolífero.
Pergunto: que país do mundo “presente” sobreviveria se fosse cortada, sem perspectivas de retorno, mais da metade da sua capacidade de gerar energia elétrica?
Raciocínios deste tipo, mesmo que venham acompanhados de ilustre pedigree acadêmico, são qualquer coisa menos ciência. Seu objetivo é dizer que os problemas de Cuba só desaparecerão depois que o “regime” for derrubado.
Lembro que reconhecer a imensa responsabilidade do bloqueio em geral e de Trump em particular não implica em concordar com o modelo socialista cubano, nem tampouco implica estar de acordo com as reformas implementadas desde o “período especial”.
Mas não tem base na realidade histórica dizer que “o embargo, o colapso da Venezuela e os choques econômicos globais” são “fatores secundários”, ainda que poderosos.
Evidentemente não concordo com a opinião da professora Maria Hermínia acerca da China e do Vietnã.
Mas para nós latino-americanos, especialmente para os que defendemos os direitos humanos, a questão “presente” não diz respeito ao regime político e social vigente em Cuba.
A questão presente e imediata é a seguinte: vamos assistir calados e inertes a destruição da vida de dez milhões de seres humanos?
A Trump isso pouco importa: um de seus objetivos é forçar uma mudança de regime e transformar Cuba num investimento turístico e imobiliário.
Mas para nós pessoas normais, inclusive para os que divergem do socialismo cubano, a vida deve importar e vir em primeiro lugar.
Nesse sentido, é lamentável que a professora termine seu texto dizendo que “na agonizante Cuba, que já retrocedeu até nos ganhos reais em saúde e educação, o que sobra do socialismo real é o aparato repressor que sustenta o governo de partido único”.
Este tipo de raciocínio, lamento constatar, está alinhado com a lógica da mudança de regime, revelando ademais total desatenção para o direito internacional, a soberania nacional e os direitos humanos.
A professora poderia, pelo menos, ter rogado pela vida da população cubana. Para meu espanto, a prioridade foi outra.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da Fundação Perseu Abramo
Segue abaixo o texto criticado.
Maria Hermínia Tavares
Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)A agonia de Cuba socialista
É equívoco atribuir o desastre ao desumano embargo de Donald Trump
Na ilha só resta o aparato repressor que sustenta o governo
No magnífico romance “O Homem que Amava os Cachorros”, de 2009, o escritor cubano Leonardo Padura traça um grande afresco do fracasso do socialismo real, por meio das histórias entrelaçadas de três personagens: Leon Trótski, dirigente da Revolução de 1917, forçado ao exílio pela implacável perseguição de Josef Stálin; o espanhol Ramon Mercader, militante comunista que penetra no refúgio do líder revolucionário russo no México para assassiná-lo; e o escritor cubano Ivan Cárdenas, personagem de ficção, que nos conta a história dos dois primeiros.
Trótski e Mercader vivem tragédias épicas: o primeiro, líder de massas, é atropelado pela degradação da Revolução Russa das promessas igualitárias em sangrenta máquina totalitária; o outro, revolucionário comunista, se transforma em assassino a serviço de Moscou após o esmagamento da república espanhola pelos fascistas de Francisco Franco.
Cárdenas, o narrador, tem um destino menos heroico: o fracasso de seu projeto de se tornar escritor, tragado pelo lento desmoronar das promessas da Revolução Cubana e pelo amargo cotidiano na ilha de Fidel Castro. No final, morre soterrado quando vem abaixo o teto de sua casa decrépita —como são, de verdade, as casas da maioria dos cubanos forçados à reiterada penúria.
O destino de Ivan Cárdenas, personagem de romance, vem à mente a cada descrição do dia a dia de privações enfrentadas pelos habitantes de carne e osso da ilha caribenha nos dias que correm. O sistema socialista cubano agoniza, sob impacto do desumano embargo imposto por Donald Trump, que cortou o acesso do país ao petróleo importado. Mas seria um equívoco atribuir o desastre presente à medida decretada pelo truculento presidente americano, ou mesmo ao bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem ao regime castrista desde 1962.
O fracasso econômico de Cuba se deve em larga medida ao desenho e à administração do modelo socialista; e à maneira como, desde os anos 1990, reformas para flexibilizá-lo foram concebidas e implementadas.
Assim, o cientista político Carmelo Mesa-Lago, da Universidade de Pittsburgh, especialista em assuntos cubanos, rejeita as explicações antagônicas segundo as quais tudo se deveria ou ao “embargo” ou ao “comunismo”. Para ele, a adoção de um modelo ineficiente —baseado no controle estatal da atividade econômica— e reformas mal desenhadas são a causa central do desastre. Mas o embargo, o colapso da Venezuela e os choques econômicos globais são poderosos fatores secundários.
De fato, experiências de reformar o socialismo real só foram bem-sucedidas quando significaram transitar para formas peculiares de economias de mercado, sob forte coordenação estatal —que de socialismo pouco têm—, como ocorreu no Vietnã e na China. O que nunca se mostrou possível foi avançar em reformas políticas que garantissem o pluralismo e o respeito às liberdades fundamentais, muito menos a democracia representativa.
Na agonizante Cuba, que já retrocedeu até nos ganhos reais em saúde e educação, o que sobra do socialismo real é o aparato repressor que sustenta o governo de partido único.
