Por Fausto Antonio (*)
Epigrafia da Autoestereotipação
O sujeito colonizado passa a ver a si mesmo através das lentes deformantes do colonizador para se sentir “autêntico”. A manifestação, desta forma, deforma e impede a consciência da opressão, que acaba naturalizada. A validação histórica mostra que Cabo Verde possui uma complexidade identitária fruto de resistências, do pan-africanismo, do projeto libertário de Amílcar Cabral e de uma crioulização linguística e social que deve ser valorizada em prol da autodeterminação do país. Reduzir a africanidade negra a um figurino de filme brancocêntrico da década de 1930 é, em última análise, um apagamento da sofisticação cultural de Cabo Verde e de todo o continente africano.

Concepções e comandos euro-estadunidenses
O filme Tarzan dos Macacos teve sua primeira produção no início do século XX. O título oferece um indício incontestável do desprezo ao espaço geográfico africano, ao seu território e ao seu povo, destacando a relação do herói branco exclusivamente com os animais; africanos e africanas não são sequer um detalhe na trama. Eles são subtraídos do território invadido pelo herói branco ou subapresentados. Produções como Daktari, Jim das Selvas, King Kong e Indiana Jones consolidam a realidade cinematográfica ocidental, na qual africanos são tribalizados e reduzidos a meros coadjuvantes de protagonistas brancos.
Nesta filmografia, os corpos negros apenas circulam sem vida própria, desprovidos de um “devir” que gere ações e protagonismo. As narrativas são integralmente concebidas e comandadas pela branquitude euro-estadunidense.
Negros na reprodução de estimas racistas
Para estabelecer um viés comparativo com as manifestações de rua no Brasil, nota-se a persistência da “Nega Maluca”. Essa peça do racismo brasileiro é encontrada, por exemplo, na cidade de São Francisco do Conde (BA), ocupando espaços no Mercado Cultural e no site oficial da Prefeitura. O fato de a cidade ser constituída quase exclusivamente por negros e possuir um prefeito negro não impede a reprodução do estigma racista .
Da mesma forma, no Carnaval de Fortaleza, contrariando os movimentos negros e o antirracismo, os maracatus — com raras exceções — exibem o “negrume”: uma tinta preta artificial utilizada para cobrir o rosto, como se fosse socialmente produtivo simular a negrura real dos cidadãos locais. Tais exemplos buscam enfrentar o debate de raiz em espaços de maioria negra que ainda reproduzem, acriticamente, visões impostas pelo projeto colonial, imperialista e racista.
Espaços cinematográficos e carnavalescos racializados
A filmografia ocidental projeta estereótipos que se estendem aos espaços festivos. O domínio geopolítico exercido pela OTAN, que assegura a exploração dos países africanos, é acompanhado pela imposição de valores imagéticos que asfixiam a identidade negro-africana. Filmes e telenovelas que exotizam, erotizam e animalizam o negro não são o foco principal deste artigo, mas servem de introdução para compreender como a estereotipia invade o Carnaval.
Mesmo manifestações constituídas numericamente por negros acabam reproduzindo modelos exógenos concebidos para reduzir corpos à subalternidade, subtraindo a dimensão política e estrutural da própria festa e da sociedade que a conforma.
O Caso dos Mandingas em Mindelo
Em Cabo Verde, o foco recai sobre os Mandingas em Mindelo. O cortejo baseia-se na pintura dos corpos com uma substância preta composta por carvão vegetal e vaselina , recurso tecnicamente dispensável diante da negrura da própria população. Contudo, essa negrura é frequentemente recusada em Mindelo por força do branqueamento e de uma identidade de “mulatização”, derivada de uma interpretação equivocada da crioulização. Nesse limite, o enegrecimento artificial tenta tornar os manifestantes “mais africanos e negros” em uma associação restrita ao evento de rua.
Além da substância preta, utilizam-se adereços de uma África concebida pelo olhar do colonizador: tangas e lanças que remetem a um congelamento tempo-oespacial e a uma estética tribal ideologicamente imaginada pelos europeus. Critico aqui a performance e os operadores que a articulam, pois servem ao domínio e à exploração dos africanos sob a hegemonia euro-estadunidense.
A Reprodução do Olhar Colonial
A manifestação dos Mandingas apresenta um enquadramento caricato que oculta a identidade real do negro cabo-verdiano. Há a reprodução do “Olhar Colonial”, vinculada às leituras impostas pela escravização e pela ordem imperialista. Faz-se necessária uma nova produção, com direção genuinamente africana e diaspórica, para redefinir tal manifestação.
Essa prática reforça o fenômeno do “Orientalismo” (aplicado ao contexto africano), teorizado por Edward Said. O Ocidente criou uma “África imaginária” e selvagem para justificar a “missão civilizadora” que, na verdade, foi (é) opressora. Quando grupos em Cabo Verde adotam essa estética, ocorre o paradoxo da apropriação do estigma.
Entre a Resistência e a Autoestereotipação
O que deveria ser uma celebração da africanidade acaba reforçando a imagem do “selvagem” consolidada por Hollywood. Prevalece a invisibilidade da identidade real; a especificidade histórica e intelectual do povo cabo-verdiano é camuflada por uma fantasia genérica.
Embora alguns antropólogos interpretem os Mandingas como uma forma de resistência, um grito de “somos africanos” em uma elite que buscava o embranquecimento , o problema reside no fato de esse grito utilizar o vocabulário visual do opressor. É a autoestereotipação: o sujeito colonizado vê a si mesmo através das lentes deformantes do colonizador para tentar sentir-se “autêntico”.
A manifestação impede a consciência da opressão ao naturalizá-la. A validação histórica mostra que Cabo Verde possui uma complexidade identitária fruto de resistências, do pan-africanismo, do projeto libertário de Amílcar Cabral e de uma crioulização linguística e social que deve ser valorizada em prol da autodeterminação do país. Reduzir a africanidade negra a um figurino de filme brancocêntrico da década de 1930 é, em última análise, um apagamento da sofisticação cultural de Cabo Verde e de todo o continente africano.
(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo, professor Associado da Unilab-BA e autor de Pé di Polon (2025), romance-épico da africanidade cabo-verdiana.
