Por Pedro Prola (*)

Tentar apaziguar a fúria imperialista dos EUA perante os ataques a nossos vizinhos, achando que isso nos salvaria de ser “a próxima vítima”, foi, temos que assumir a autocrítica, um erro estratégico da política externa brasileira. Essa receita foi defendida pelo tucanato do Itamaraty, incluindo absurdos como não contrariar os EUA no apoio ao golpe parlamentar de Dina Boluarte no Peru, deixar avançar a farsa do “cadê as atas?” na Venezuela, contemporizar com as medidas de repressão violenta que Rodrigo Paz está preparando contra os protestos populares na Bolívia, e dar um muito insuficiente e contido apoio humanitário perante a tentativa de matar o povo cubano de fome e sem luz. Vários dos nossos aliados regionais foram sendo enfraquecidos, desmoralizados ou neutralizados nos últimos anos. Hoje estamos perante um ataque sem precedentes à soberania brasileira e diminuídos em nossas alianças.
A declaração de que os EUA consideram que o Brasil abriga organizações terroristas coloca o país na mira da “guerra ao terror”, permitindo o uso potencial de todo o aparato ao dispor do Governo Trump. Alguns exemplos de ações possíveis são os seguintes: sabotagem industrial ou sanções econômicas contra empresas brasileiras, utilização de meios militares e de inteligência contra o Brasil, operações de guerra secreta em território brasileiro, operações psicológicas, ações de desestabilização política e mecanismos de exceção como prisões, sequestros e tortura. As sugestões que vêm do tucanato de “não dar pretextos” para uma intervenção dos EUA ou de tentar mostrar para Trump como o Brasil está combatendo o crime organizado revelam a mais completa falta de noção. O leite está derramado: a interferência sobre o Brasil está declarada. O terrorismo é mero pretexto. Entramos no território da arbitrariedade e do teste brutal à soberania brasileira. Devemos manter a porta do diálogo aberta, não deixar de negociar, tentar evitar o pior. Mas não podemos ter ilusões.
Se uma empresa influente junto da Casa Branca avaliar que está sendo prejudicada por uma concorrente brasileira, poderá pressionar Trump a decretar sanções ou a limitar o acesso ao crédito e ao sistema de transações em dólar, invocando que essa concorrente tem ligações ao “terrorismo”. Qualquer negociação bilateral sobre o petróleo ou os minerais raros brasileiros poderá estar sujeita aos instrumentos coercitivos dos EUA, que podem alegar que os recursos do petróleo brasileiro financiam o “terrorismo”. Qualquer cidadão brasileiro que o Governo dos EUA considere estar associado ao PCC ou CV (não importa se é verdade ou mentira) poderá ser sequestrado ou morto. E não tenhamos dúvidas: o Governo dos EUA vai tentar interferir nas eleições de outubro, procurando garantir a mudança de poder no Brasil para um Governo alinhado tanto à ideologia de extrema-direita como aos interesses de confrontar a China e extrair recursos brasileiros baratos. Afinal de contas, mais do que Cuba, Colômbia ou Venezuela, o Brasil é o prêmio máximo na América Latina — algo que deveríamos ter entendido mais cedo.
Agora é necessário defender o Brasil. O país tem um extraordinário potencial estratégico, incluindo geografia, demografia e riquezas naturais. Mas esse potencial está subaproveitado e desvalorizado, desde sempre, pelo colonialismo e por elites que sempre aceitaram a posição de potência subordinada, que sempre extraíram riquezas e exploraram o povo brasileiro em nome de potências externas. É urgente investir na Segurança, na Defesa e na Inteligência, sem cortar nos programas sociais. Definir uma estratégia para a soberania brasileira em todos os âmbitos, capacitar e modernizar o Exército, criar mecanismos que permitam estimular a economia e compensar empresas caso sejam sancionadas, garantir a segurança das infraestruturas físicas e digitais, e reforçar a proteção pessoal do presidente da República e dos representantes do Estado Brasileiro são prioridades que exigem investimentos significativos. Para isso, o aperto de cinto criado pelo Arcabouço Fiscal precisa ser desapertado.
É possível mobilizar recursos e organizar o Brasil para se proteger das ameaças externas. Acima de tudo, isso exige determinação política e definição de uma estratégia para garantir efetivamente a soberania do país. Mas essa estratégia implica defender também a soberania dos outros países da América Latina e avançar na integração regional, não aceitando mais as interferências externas que temos assistido contra governos populares na região. Diante do risco de uma ação militar contra Cuba, o Governo brasileiro deve adotar um posicionamento contundente e consequente, sabendo que o desfecho desse conflito terá implicações diretas sobre a confiança que o Governo Trump terá (ou não) para lançar uma escalada de ingerências sobre o Brasil. Que este desafio terrível que enfrentamos sirva para mobilizar em defesa do projeto popular do presidente Lula, consolidar as conquistas históricas que estão sendo alcançadas e estimular as transformações necessárias.
(*) Pedro Prola é jurista. Vive em Portugal. Coordenador do Núcleo do PT Lisboa

Uma resposta
Em um cenário global e regional crescentemente fustigado por ondas de radicalismo extremista e discursos de cunho fascistoide — que fraturam o tecido social, criminalizam a solidariedade e promovem o isolamento —, a reinvenção da diplomacia latino-americana torna-se uma urgência histórica. Diante da ameaça da barbárie que tenta minar as instituições democráticas e precarizar ainda mais as condições de vida, a união estratégica e fraterna entre Brasil e Paraguai ergue-se não apenas como uma alternativa geopolítica, mas como um imperativo de sobrevivência e dignidade para as classes trabalhadoras de ambas as nações.
Historicamente, as relações entre brasileiros e paraguaios foram marcadas tanto por conflitos profundos quanto por uma intensa interdependência econômica e humana. Hoje, para além da monumentalidade de Itaipu, a verdadeira força dessa aliança reside no cotidiano dos trabalhadores e trabalhadoras que movem as engrenagens da fronteira. Defender a união entre os dois países significa, primordialmente, salvaguardar os direitos dessa força de trabalho transfronteiriça contra a exploração e a violência política. Significa construir um ambiente de estabilidade que permita o desenvolvimento de parcerias econômicas e *business* sustentáveis — que gerem emprego, inovação e riqueza distributiva, blindando a região contra o colapso institucional.
No entanto, uma integração puramente econômica é insuficiente se desprovida de alma e identidade. Como bem cantava o grupo porto-riquenho Calle 13 em sua icônica canção *Latinoamérica*: *”Aquí se comparte, lo mío es tuyo / Este pueblo no se ahoga con marullos / Y si el derrumbe viene, yo lo reconstruyo”*. Essa herança de resiliência e partilha evoca a necessidade de uma resposta artística e social aos inimigos da América Latina. É nesse horizonte que a criação de um grande Festival Cultural Brasil-Paraguai se justifica. A cultura é a antítese do fascismo; onde o extremismo planta o medo ao diferente e a censura, o festival artístico colhe a empatia, a memória e a celebração da nossa ancestralidade mista, guarani e ibérica.
Esse festival cultural funcionaria como um fórum vivo de resistência e diálogo. Ao unir a polca paraguaia ao samba, o chamamé ao sertanejo, e a literatura em espanhol, português e guarani, as duas nações reafirmam que a identidade latino-americana é inegociável e imune ao ódio divisivo. Mais do que entretenimento, a arte e a cultura popular tornam-se ferramentas diplomáticas de primeira ordem, capazes de consolidar uma consciência de classe e de bloco que rejeita o autoritarismo.
Em suma, a resposta para as crises que nos cercam não está no fechamento de fronteiras ou no alinhamento com ideologias desumanizantes, mas no fortalecimento radical da democracia e da cooperação mútua. Brasil e Paraguai têm a oportunidade histórica de liderar um movimento de conciliação, prosperidade e firmeza democrática na América do Sul.
Afinal, como lembra a poesia do Calle 13, somos um povo que caminha junto e, diante de qualquer desabamento promovido pela barbárie, temos a força necessária para reconstruir o nosso futuro.