Christian Lynch e o que deve ser deixado para trás

Christian Lynch e o que deve ser deixado para trás

Christian Lynch e o que deve ser deixado para trás

Christian Lynch e o que deve ser deixado para trás

Por Marcos Jakoby (*)

Circula nas redes sociais texto que é um compilado de posts de  Christian Lynch, cientista político, jurista e historiador, publicado em sua conta no twitter ( https://twitter.com/CECLynch/status/1510949403976155139), no qual ele faz uma defesa das alianças da esquerda com setores da direita e afirma que “ressentimentos ou purismos devem ser deixados para trás”.

Segundo Lynch, “não estamos mais em 2002”. Ele tem razão. A crise social e econômica é muito maior do que aquela encontrada em 2002, bem como a polarização política. O cenário internacional é de profunda instabilidade e caracterizada por uma crise econômica que se arrasta desde 2008. Portanto, as condições e a margem para retirarmos o país da crise são mais estreitas e exigem medidas mais profundas, que mexam com a renda e a riqueza das classes dominantes para viabilizar uma forte política de investimento e de políticas públicas, coisa que o conjunto da direita e da classe dominante se opõe.

O autor diz que “o candidato não é o Serra, é Bolsonaro”, que o “Partido da oposição não é PSDB, é o centrão anabolizado + militares” e que a “a ideologia adversária não é liberal, é fascista e reacionária”. E que “derrotado, o adversário [bolsonaro] não passará a faixa sorrindo e com tapinhas nas costas. Vai contestar os resultados eleitorais e estimular a guerra civil.”

Curioso que Lynch tenha falado de Serra e não tenha falado de Aécio. Talvez porque Aécio também “não passou a faixa sorrindo e com tapinha nas costas” quando perdeu as eleições em 2014. Aliás, é muito revelador que o golpe de 2016 suma do horizontes dessas análises e seja tratado indiretamente como “ressentimento”. Quem deu o golpe contra a Dilma e a democracia foi exatamente a direita tradicional, “liberal”, que “contestou o resultado das eleições” e “abriu uma guerra” contra o PT, a esquerda e a classe trabalhadora, exatamente o que o autor sugere que Bolsonaro  poderá fazer.

Também causa estranhamento que tanta gente esqueça os vínculos entre a “ideologia liberal”, “fascista” e “reacionária”. O bolsonarismo foi cevado, entre outros meios, nas manifestações coxinhas pelo impeachment, liderado pelas forças “liberais”, que recebiam muito bem os grupos de extrema direita, racistas, homofóbicos e pró-ditadura militar. Ao contrário do que Lynch sugere, isso não é “ressentimento”, é compreendermos que o bolsonarismo é um instrumento das classes dominantes e da direita para combater a esquerda e aplicar o programa (neo)liberal.

O oligopólio da mídia e o liberalismo cultivam dia após dia o autoritarismo, o culto à violência, a discriminação contra o povo pobre e a juventude das periferias, o antipetismo, a demonização da esfera política, entre outros traços, que fazem parte de um ambiente cultural e ideológico fértil ao neofascismo. É só lembrarmos das horas de programação diárias dedicadas aos programas policialescos, onde a tônica é a criminalização dos direitos humanos. E o lavajatismo, tão defendido pelos ideólogos liberais, não é justamente caracterizado por traços “reacionários e fascistas”?

Sem mencionar a implementação de medidas neoliberais, que jogam milhões de trabalhadores no desemprego, na miséria, na violência, no desespero e na ausência de perspectivas, e que conta com o apoio engajado desses aparatos de comunicação.

A afirmação de que a “oposição não é PSDB, é o centrão anabolizado + militares” oculta a tentativa de passar pano nos tucanos e reabilitá-los como  possíveis aliados. Foi o governo Temer, composto inclusive por tucanos,  que “anabolizou” o governo federal com militares. Ignora, por outro lado, que os tucanos apoiaram Bolsonaro e que as suas bancadas votam sistematicamente com governo Bolsonaro no Congresso Nacional até os dias de hoje e se opuseram a um pedido de impeachment de Bolsonaro. Por que o “centrão” seria “oposição” a nós e os tucanos não?

E a que custo faremos alianças com setores da direita neoliberal? Abrindo mão de polarizar com determinadas políticas econômicas e sociais implementadas pelo governo Bolsonaro e que contaram com o seu apoio? Abrindo mão de lutar pela revogação completa das reformas neoliberais implementadas desde 2016?

Qual é o recado que damos ao povo depois de passarmos vários anos combatendo forças que lideraram o golpe e agora nos aliarmos a elas? Por acaso, imagina-se que o eleitorado não perceba essas contradições? Vamos, em nome dessas alianças, fazer quais concessões?  Deixar de apontar parte das medidas de transformação social, econômica, política e cultural que dão força ao nosso projeto e que mobilizam importantes energias da sociedade brasileira?

Para certos segmentos médios “progressistas”, talvez baste derrotar o “neofascismo”. Mas para amplas parcelas da classe trabalhadora e dos setores populares é necessário superar a miséria, a fome, o desemprego, o desalento, a ausência de serviços públicos, o acesso a bens básicos à sobrevivência, que dão conteúdo à luta democrática. E para isso, é fundamental deixar para trás o neoliberalismo, do qual o PSDB e a “direita liberal” são fiadores, sob pena, inclusive, de não conseguirmos fazer um governo de transformações e de superação da crise.

(*) Marcos Jakoby é professor e militante do PT

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SEGUE TEXTO CRITICADO:

“1. Não estamos em 2002.

2. Quem eletriza as massas lá fora não são Clinton e Yeltsin. São Trump e Putin.

3, O candidato não é o Serra, é Bolsonaro.

4. Partido da oposição não é PSDB, é o centrão anabolizado + militares.

5. A ideologia adversária não é liberal, é fascista e reacionária.

6. O “órgão de propaganda” adversário não é o Estadão ou PIG, é o gabinete do ódio e suas milhares de ramificações do plano micro.

7. O adversário não quer liberalizar a Constituição. Quer sabotá-la e destruí-la

8. Derrotado, o adversário não passará a faixa sorrindo e com tapinhas nas costas. Vai contestar os resultados eleitorais e estimular a guerra civil.

9. Vencedor, o adversário vai terminar de comprar tudo que no país ainda for cooptável e mudar as leis para reprimir os críticos.

Conclusão: o último bonde da democracia está passando. Métodos que pressupõem normalidade não funcionam em tempo de exceção.

Ressentimentos ou purismos devem ser deixados para trás. A eleição será a mais importante da história da República e toda ajuda para salvá-la é bem-vinda.

(do Twitter de Christian Lynch, cientista político, jurista e historiador)”

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