
Acessar atendimento é difícil Junto com a questão da conciliação escola-trabalho e vida familiar, Helena Abramo destaca a questão do acesso à saúde como outro desafio para a juventude brasileira. A pesquisa Jovens e Saúde: Revelações da Pandemia no Brasil[1], realizada pela Fiocruz e parceiros dentro de seu programa Agenda Jovem, mostra que a faixa etária dos 20 aos 29 anos é a que menos acessa os serviços de saúde. “Porque há uma ideia de que o jovem não tem problema de saúde, porque está no auge de seu vigor, de sua força física. Mas ele não acessa os serviços porque não consegue, porque o centro de saúde só funciona até as 17 horas, enfim, tem uma série impedimentos, porque a vida dos jovens tem uma sobrecarga de atividades. Cadê tempo para ir? A maior parte dos jovens trabalha, e a maior parte dos jovens trabalha muito, tem uma jornada grande, de alta intensidade e péssimas condições. E isso, evidentemente, afeta todas as outras partes da vida. Eu acho que esse é o tema, um dos principais temas do momento”, afirma Helena, que colaborou com o estudo.
A socióloga também argumenta que não há programas de saúde para os jovens. “Quais são os direitos da saúde específicos? Tem o programa da mulher, do acompanhamento da mulher grávida, ou do adolescente com problema, se você não está em nenhuma dessas categorias, você não entra no sistema de saúde”. Helena destaca que a questão da saúde entre os jovens eclodiu antes da pandemia. “E eclodiu principalmente na dimensão da saúde mental”.
É justamente nesse aspecto que Ana Flávia, secretaria estadual da Juventude do PT no RN, chama a atenção para os jovens que atuam em call centers ou servem a plataformas digitais. “Estão adquirindo doenças como ansiedade, burnout, sofrendo de perda auditiva. Isso quando você fala de um trabalho que está, digamos, regularizado, tem uma carteira assinada, né? porque você vê uma grande parte da juventude que está no trabalho informal, tendo que fazer bico [estando mais vulneráveis quando adoecem]”.
Segundo Helena, muitas pesquisas abordaram a questão do isolamento na pandemia, ou a questão do sofrimento que as redes provocam, o bullying. “E tudo isso é verdade, tudo isso está presente, mas a gente já chamava atenção do sentimento do problema de saúde, de saúde ambiental, produzido por esse excesso de atividades, por esse excesso de responsabilidades, porque a gente falou de saúde, trabalho e educação, mas tem que lembrar também o papel que os jovens cumprem na família. Mesmo antes de sair de casa ter sua própria família, participa dos cuidados com os outros, do trabalho em casa não remunerado, invisível, principalmente as meninas com os irmãos menores, com as pessoas doentes”.
O compromisso dos jovens com a família ficou evidente na pandemia. “Como eles eram os menos vulneráveis à COVID-19, e os mais vulneráveis eram os idosos, os jovens assumem praticamente todo o papel de sair de casa, de fazer as compras, e não pararam de trabalhar, e não pararam de pegar ônibus lotado, foram eles que continuaram em circulação, então a gente vê um agravamento da saúde, não em função apenas do isolamento, como as teses da psicologia e da psicanálise reforçavam, mas em função de um acúmulo de atividades e de responsabilidade, de autocobrança”.
Diante desse cenário, não surpreende na pesquisa da Fiocruz o fato de que as duas ações prioritárias, apontadas pelos respondentes para instituições públicas e privadas ajudarem os jovens a lidar com os efeitos da pandemia na saúde, terem sido: o acesso a serviços de atendimento e acompanhamento psicológico especializado para jovens em serviços de saúde pública (48%) e acompanhamento psicológico nas escolas (37%).
Helena avalia os jovens das classes profissionais que chegam à universidade também são acometidos de problemas de saúde mental. “Porque a cobrança de estar, de ser o primeiro da família a entrar na universidade, ter entrado na universidade é um esforço gigante, agora eu tenho que desempenhar na medida da autoexpectativa, da expectativa do entorno e da família e tudo mais, e de uma cultura que está aqui, que cobra da juventude, aquilo que os partidos de esquerda cobram também, que é potência, energia, além de tudo, você tem que ser alegre, você tem que ser muito alegre, trazer vida para as coisas”, reflete Helena.
A socióloga avalia que, do ponto de vista da esquerda, “o jovem é aquela coisa, ele é fodido, mas ele é resiliente, a potência da juventude das favelas, que inventa, que faz, que encontra saída para si e para a comunidade, quer dizer, a valorização que a esquerda faz dessa capacidade de resiliência e protagonismo, e potência da juventude, vira uma cobrança muitas vezes insustentável, insuportável. E adoece.”
E o PT?
Helena afirma que o PT “acaba reforçando propostas, narrativas, ideias, que não estão contribuindo para uma resolução na garantia dos direitos dos jovens. A gente não tem que ficar pensando na produtividade dos jovens, como o Banco Mundial. A ideia que se tem é que o jovem não pode perder um ano de escola, e que se não se formar aos 17 anos no ensino médio já está defasado. É um problema para o país, porque vai afetar a produtividade do país. Se o cara se formou, terminou o ensino médio aos 18 ou 19, porque teve que parar um semestre para ajudar a avó que ficou doente, ou porque ele teve um problema de violência ali, mas ele voltou e fez, qual é o problema de ele terminar a escola aos 19 anos? Não é o direito dele que está sendo afetado. Você tem que garantir que ele termine, que ele possa voltar, de qualquer jeito, seja como for. Porque a medida, a métrica não pode ser a produtividade do país, tem que ser o direito dele à educação.”
[1] Pesquisa disponível para download aqui: https://fiocruz.br/documento/2022/10/jovens-e-saude-revelacoes-da-pandemia-no-brasil
