O supremo aprendiz

Epigrafia do ziguezague aprendizado 

O preto velho, num ziguezague, toda quarta-feira ia a Santo Amaro da Purificação. Saía de casa, da tal Joia do Recôncavo, com roupa normal, mas em Santo Amaro fazia aparição com terno, gravata e sapato de bico fino preto. Sempre discreto, mas na régua e compasso formal das lojas, transitava pela praça e carregava, com zelo, uma pasta preta meio desproporcional.

Por Fausto Antonio (*)

Antes dos prováveis cochichos, como era espirituoso e de encruza, e antes que outras línguas o fizessem, o próprio preto-velho se denominou, pelo uso da pasta preta de arquiteto, “supremo aprendiz.'” A alcunha fora dada externamente pelo tamanho da pasta; já a relação com o conteúdo da pasta do preto velho é propriedade das leituras e dos leitores.   

Preto velho faz voltas; às vezes, sinuosas e sem sair do lugar. Contam , não sei com que devida ou indevida precisão , se é verdade ou fruto de se alongar, com a criação verbal, um conto que fora antes apenas um ponto.

Sei das voltas; sou também preto velho. A história é daquelas folhas viradas pelo enigma , páginas viradas pelo dito e pelo repetido cachimbar das resenhas baianas. O preto velho a que me refiro morava na “Joia do Recôncavo”. Quem se interessa pela minúcia dos fatos, com certeza, buscará a cidade no mapa. A cidade figura na cartografia do improvável e do dito-escrito elevado à categoria de fábula. É o que posso dizer, nada mais.

O preto velho, num ziguezague, toda quarta-feira ia a Santo Amaro da Purificação. Saía de casa, da tal Joia do Recôncavo, com roupa normal, mas em Santo Amaro fazia aparição com terno, gravata e sapato de bico fino preto. Sempre discreto, mas na régua e compasso formal das lojas, transitava pela praça e carregava, com zelo, uma pasta preta meio desproporcional.

Antes dos prováveis cochichos,  como era espirituoso e de encruza , e antes que outras línguas o fizessem, o próprio preto velho se denominou, pelo uso da pasta preta de arquiteto, “supremo aprendiz’.” A alcunha fora dada externamente pelo tamanho da pasta; já a relação com o conteúdo da pasta do preto velho é propriedade das leituras e dos leitores. Passaram-se os anos e, mesmo sem a mala desproporcional, ele se reconhece , talvez seja também reconhecido , e se afirma como “supremo aprendiz”. Encerro aqui o que me é permitido dizer dele. No entanto, carrego dele o que ficou como um valor eterno, imperecível. No ziguezague dos pretos, vestes são vestes, como pedra é pedra, e têm camadas sucessivas. A narrativa faz o mesmo itinerário de passagem pelo temporário e se fixa, fixada pelo supremo aprendizado.

No espelho, os dois pretos velhos são múltiplos, visto que outros se viam neles e aprenderam com eles. Antes, eles eram o próprio ensino e o aprendizado se refazendo pelas vestes, num conjunto.

Agora acessamos a história do preto velho que aprendeu com o supremo preto velho, ou supremo aprendiz. Pois bem, levamos o que tem real valor; com a morte deixamos, não totalmente, aquelas vestes que se fizeram veículos, princípios. Em parte, alguns princípios ficam; a personalidade vira pó, no entanto, o que realmente somos segue a senda do “supremo aprendiz”.

Antes de morrer é preciso deixar as vestes externas; doei, ainda com o vigor de preto velho, as casas para os filhos e os netos. Uma das casas, que é deles, no entanto, me acolhe com as dádivas do pai que sabe que vai, uma hora, embora.

Da janela da casa dos filhos, tive três, engordo os olhos passeando pela paisagem. Ela revira, ao sair do imóvel cartão-postal, no espaço de ontem e hoje, como prenúncio do futuro. O tempo abre a boca, engole o véu do que há em movimento e me oferta o passado, o presente e, neles conjugado, o futuro. Estou além, pois a paisagem foi subtraída pelos olhos internos que enxergam o escuro, e não tão somente o que a vista alcança.

De onde olho, uma sala ampla, à esquerda há uma escada; à direita, passo os olhos por uma extensa biblioteca. Mas espicho o olho para recolher, naquela pasta desproporcional, o que a terra levará; mas, na mesma mala, sobem e descem aquilo que ficará no epíteto repetido insistentemente pelo preto velho. Na alquimia da epígrafe da epígrafe, sou o supremo aprendiz.

(*) Fausto  Antonio é  escritor, poeta, dramaturgo  e  professor  Associado  da Unilab -Bahia.

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