Favre, Clara Ant e o processo judicial contra Cid Benjamin

Por Valter Pomar (*)

Em texto anterior, informei que Clara Ant está processando Cid Benjamin.

A informação está aqui: Valter Pomar: Israel e a confusão entre nós

Hoje recebi um texto em defesa de Clara Ant.

A defesa está aqui: Luis Favre – Em defesa de Clara Ant LF 03/08/2026 Cid… | Facebook

O autor da defesa, Luis Favre, é um personagem das antigas.

Sobre ele, escrevi em maio de 2025 o seguinte: Valter Pomar: Favre: passando o pano no imperialismo europeu

Acerca de Clara Ant, Favre diz entre outras coisas o seguinte: “Não estamos diante de uma crítica às posições políticas de dois dirigentes históricos do PT. São acusações factuais de extrema gravidade. A primeira lhes atribui a representação clandestina de um Estado estrangeiro. A segunda os apresenta como integrantes ou colaboradores do serviço de inteligência israelense. Quem faz acusações dessa natureza tem a obrigação de demonstrá-las. Cadê as provas?”

Entendo perfeitamente a linha de defesa de Favre. É provável que ele próprio já tenha recebido acusações semelhantes.

Mas, a bem da verdade, ele atribui a Cid algo que Cid não disse. Ou que, pelo menos, Cid não escreveu na postagem que deu origem a polêmica judicial.

A postagem de Cid está aqui: Cid Benjamin – A advogada do ativista Tiago Ávila – que… | Facebook

Nesta postagem, que até o momento em que escrevi este texto segue disponível na conta de Cid no Face, está dito que “Clara Ant e Jaques Wagner, representantes extra-oficiais de Israel, talvez possam dar alguma explicação a respeito”.

Ao menos para mim o que Cid escreveu é uma crítica política

Pergunto: Favre nunca teria ouvido algo semelhante ser dito acerca de dirigentes de partidos comunistas, no que toca a relações mantidas com a URSS, China ou Cuba? 

Quantas pessoas de esquerda não fizeram “acusações” similares acerca da relação, por exemplo, de José Dirceu com Cuba?

Sendo assim, não faz sentido cobrar de Cid que apresente provas da suposta “representação clandestina de um Estado estrangeiro”. Isto porque a crítica de Cid não diz respeito à nada “clandestino”, diz respeito a como ele enxerga as posições políticas públicas de Clara Ant. 

Cid não a acusou de ser uma “agente estrangeira infiltrada no governo brasileiro”. 

Por isso não faz o menor sentido Favre lançar mão de argumentos do tipo “conhecido estereótipo antissemita”, nem tampouco do “velho preconceito da dupla lealdade”. 

A divergência de Cid com Clara Ant é política. Diz respeito, por exemplo, a como caracterizar a CONIB. Nesse sentido, o raciocínio de Favre sobre o recurso à Justiça contém um equívoco de fundo.

Diz Favre: “Se Clara permanece em silêncio, estaria admitindo a culpa. Se responde, estaria protegendo o lobby israelense. Se procura a Justiça, estaria revelando a “face autoritária do sionismo” e tentando calar os defensores da Palestina. É um raciocínio circular no qual qualquer reação da pessoa caluniada se transforma em prova contra ela. Recorrer à Justiça quando se considera vítima de calúnia e ofensa é um direito. A Justiça decidirá se a ação tem fundamento. O que não se pode exigir é que alguém acusado de trabalhar para um serviço secreto estrangeiro permaneça calado para preservar a liberdade de seus acusadores de continuar mentindo”.

Repito: até onde li e sei, Cid não fez esta acusação. Logo, ao entrar na justiça, Clara – na minha opinião – não está usando a justiça para se defender de críticas injustas e ilegais, mas sim recorrendo ao lawfare contra quem fez uma crítica política.

Para não dizer que não falei de flores, concordo com Favre quando ele diz que “a solidariedade ao povo palestino e o combate ao antissemitismo são indissociáveis. Não existe contradição entre denunciar o massacre em Gaza, defender um Estado palestino e combater a perseguição aos judeus. Criticar Netanyahu não é atacar os judeus. Combater o antissemitismo não é apoiar Netanyahu”.

Mas discordo de Favre quando ele afirma que “a campanha contra Clara procura destruir justamente essa distinção. Mistura deliberadamente Israel, seu governo, o sionismo, as organizações judaicas e os judeus brasileiros, transformando tudo numa única entidade suspeita”.

Primeiro, não existe “campanha contra Clara”. O que se pode dizer que começa a existir é uma campanha em defesa de Cid Benjamin, que está sendo processado. Neste caso concreto, Clara não é a vítima.

Segundo, não há como diferenciar o “governo de Israel” e o “sionismo”. E, a preços de hoje, tampouco vejo como diferenciar o Estado de Israel e o sionismo. Como já demonstrei em outros textos, o governo Netanyahu não é um ponto fora da curva. O problema é a dominação colonial e esta é realizada pelo Estado de Israel, não por um governo. E a doutrina que fundamenta isso é o sionismo. 

Terceiro, já foi dito que a maior campanha contra um “judeu brasileiro” tem como alvo Breno Altman, defensor da Palestina. E parte dessa campanha é feita pelo sionismo recorrendo ao lawfare. Como perguntar não ofende, pergunto: Favre e Clara Ant se posicionaram a respeito? Denunciaram esta campanha? Prestaram solidariedade? 

Quarto e principalmente, quem mistura deliberadamente sionismo com todo o resto são os sionistas, que tratam qualquer crítica contra o sionismo, contra o Estado de Israel e contra o governo de Bibi como se fossem manifestações de antisemitismo.

Acho que Favre sabe disso tudo. Prova disso é que ele termina seu texto republicando um artigo de outubro de 2024, artigo escrito por ele e Clara Ant, intitulado “Netanyahu é um vitorioso da morte e um negacionista da paz”. Ou seja, ele termina seu texto fazendo uma defesa política, não jurídica.

Favre acha que as posições políticas defendidas por Clara nesse texto “contradizem a personagem inventada pelos acusadores”. Não sei quem são os “acusadores” a que Favre se refere, nem sei se Cid conhece esse texto de 2024.

Mas eu conheço. E sobre ele escrevi, também em 2024, um comentário.

Meu comentário está aqui: Valter Pomar: Gaza: comentários sobre o texto de Clara Ant

A leitura evidencia algumas das divergências políticas existentes entre a posição defendida por Clara e as posições defendidas por muitos dos que criticam o Estado sionista de Israel. 

Mas, voltando ao texto de Favre, um efeito colateral interessante de seu texto é destacar que a infiltração estrangeira e a colaboração com o Mossad são práticas criminosas. 

Trata-se de uma lembrança sempre útil, especialmente neste momento, em que Estados Unidos, Israel e Argentina estão abertamente em campanha contra o governo Lula e contra o PT.

(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA

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