Por Acson Barbosa Araújo (*)

Na noite de 4 de outubro, acompanhando a apuração voto a voto, tive a sensação de estar lendo menos um resultado eleitoral e mais uma árvore genealógica.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro foi a candidata mais votada ao Senado, em seu primeiro mandato eletivo. Em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro, que fez carreira de vereador no Rio de Janeiro, transferiu o domicílio eleitoral e voltou senador. Jair Renan e Renato, irmão do patriarca, chegam à Câmara dos Deputados. Eduardo não concorreu: vive nos Estados Unidos e está inelegível depois de condenado pelo STF por coação no curso do processo do golpe.
E no topo da árvore, Flávio disputa a Presidência. Seu nome foi anunciado pelo pai numa carta de Natal, escrita de um leito de hospital, por um ex-presidente condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Não é um partido. Não é sequer um movimento. É uma casa, no sentido antigo da palavra: uma linhagem que se reparte pelo território como quem reparte herança.
As capitanias voltaram
O Brasil, é bom lembrar, nasceu loteado. A partir de 1534, a Coroa portuguesa dividiu a colônia em capitanias hereditárias: faixas de terra entregues a donatários, que as governavam como coisa sua e as transmitiam aos herdeiros. A terra era pública no papel e privada na prática.
Nossos melhores intérpretes passaram o século XX tentando explicar por que essa marca não se apagou. Raymundo Faoro, em Os donos do poder, chamou-a de patrimonialismo: o Estado apropriado por um estamento que o trata como propriedade. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, descreveu o funcionário patrimonial, para quem a gestão pública é assunto de seu interesse particular. Victor Nunes Leal, em Coronelismo, enxada e voto, mostrou o compromisso entre o poder público e os chefes locais, que entregavam votos em troca de favores e de mando.
Nada disso é novo, portanto. O que é novo é o embrulho. A capitania de 2026 se apresenta como rebeldia contra o “sistema”, quando é a forma mais antiga do sistema brasileiro: o sobrenome no lugar da instituição.
O que os antigos já sabiam
Aristóteles, no livro III da Política, não separava os governos entre esquerda e direita. Separava-os entre os que governam para o bem comum e os que governam em proveito próprio. A monarquia que serve à cidade é realeza; a que serve ao próprio governante é tirania. O critério não é a ideologia. É a quem o poder serve.
E ele foi além. No livro V, descreveu como a tirania se conserva: semeando desconfiança entre os cidadãos, rebaixando-os e mantendo-os impotentes, para que não confiem uns nos outros o bastante para agir em conjunto. Qualquer semelhança com uma máquina política que vive de inimigos internos não é coincidência. É método.
Políbio, o historiador grego que explicou aos gregos a ascensão de Roma, completou o quadro. No livro VI das suas Histórias, ao descrever o ciclo dos regimes, mostrou que a realeza degenera não com o fundador, mas com os herdeiros: os descendentes, que recebem o poder por sucessão, passam a julgar que ele lhes é devido e a usá-lo para os próprios apetites. A dinastia não é o desvio da tirania. É a sua estrada.
A própria palavra já diz quase tudo. República vem do latim res publica: res é a coisa, o assunto, o bem; publica é o que pertence ao povo, palavra aparentada com populus. Os romanos tinham outra expressão para o que pertencia a uma casa: res familiaris, o patrimônio da família, aquilo que o pai deixava aos filhos. Toda dinastia é uma tentativa de transformar a res publica em res familiaris.
A lição incômoda de Maquiavel
Maquiavel costuma ser citado como conselheiro de príncipes. Pois é justamente o seu conselho que deveria nos assustar. Logo no segundo capítulo de O Príncipe, ele observa que os principados hereditários são muito mais fáceis de conservar que os novos. Basta não alterar a ordem herdada dos antepassados: os súditos se acostumam ao príncipe natural, e o costume faz o resto.
Esse é o risco real. Não são quatro anos de governo. É o hábito. É uma geração de brasileiros aprendendo a achar normal que o poder passe do pai para os filhos, dos filhos para a esposa, da esposa para o irmão.
Roma conheceu esse caminho. Augusto nunca aboliu formalmente a República: manteve o Senado, as magistraturas, as eleições. Apenas fez com que, por trás de todas as formas, o poder pertencesse a uma casa. As instituições continuaram de pé, como cenário.
Nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, o mesmo Maquiavel oferece o antídoto. As repúblicas vivem mais e têm boa fortuna por mais tempo que os principados porque podem recorrer à diversidade dos seus cidadãos. Uma família só tem a si mesma. Um povo tem milhões de caminhos.
A direita que segurou a mão do clã
Era de esperar que a própria direita democrática percebesse o perigo. Em julho, Ronaldo Caiado chegou a voltar seus ataques contra Flávio e a criticar a reunião dele com embaixadores para pôr em dúvida a urna eletrônica. Parecia haver ali um conservador disposto a defender as instituições que diz prezar.
Durou três meses. Dois dias depois do primeiro turno, Caiado apareceu de mãos dadas com Flávio. Zema e Augusto Cury seguiram pelo mesmo caminho. O PSD preferiu a neutralidade, como quem lava as mãos.
É aqui que a pergunta precisa ser feita sem rodeios, inclusive ao eleitor conservador honesto: o que há de conservador em entregar a República a uma família? Conservar é proteger instituições que duram mais que as pessoas. A dinastia faz o contrário: deixa as instituições durarem enquanto servirem a uma pessoa.
Por isso a linha que importa neste segundo turno não é a que separa esquerda e direita. É a que separa república e dinastia. Quem se considera democrata, de qualquer campo, está sendo chamado a escolher de que lado dessa linha fica. Parte da direita já escolheu. O eleitor ainda não.
Domingo, 25
Sou do Recôncavo Baiano, terra onde o povo aprendeu cedo o que significa viver sob o mando de poucas famílias. Os engenhos tinham dono, e o dono tinha herdeiro. A história da nossa gente é, em boa parte, a história da luta para que a terra, o trabalho e o voto deixassem de ter sobrenome.
O PT tem erros, e nós, petistas, sabemos disso melhor que ninguém. Mas nenhum dos nossos erros consiste em tratar o Brasil como herança. Lula não tem um filho esperando a vez no Planalto. Tem um partido, com milhões de filiados, que discute, briga, erra e se corrige em público. É barulhento. É imperfeito. É república.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença cabe numa conversa: com o vizinho, com o colega de trabalho, com o tio que votou em Caiado e talvez nunca tenha pensado nisso como uma questão de família.
No domingo, não se escolhe só um presidente. Escolhe-se se a coisa pública continua sendo do povo ou se passa a ter dono. Res publica não tem sobrenome. E, se depender da gente, vai continuar sem ter.
(*) Acson é filósofo, doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra e militante do PT.
