20 anos de resistência. ¡Uh, ah! ¡Chávez no se vá!

20 anos de resistência. ¡Uh, ah! ¡Chávez no se vá!

20 anos de resistência. ¡Uh, ah! ¡Chávez no se vá!

Por Lucas Rafael Chianello (*)

Eu tinha 16 anos.

Conexão?

Somente aos finais de semana, depois das 14h do sábado, para pagar um pulso só.

O jeito era assistir o Jornal Nacional trocando o sinal.

Até que William Bonner noticia que o presidente venezuelano Hugo Chávez frustrou um golpe de Estado.

Depois da reportagem e trechos de entrevistas dos oposicionistas, uma breve nota em que Chávez teria dito que sofreu uma tentativa de golpe de Estado porque contrariava os interesses dos Estados Unidos para a Venezuela.

Eu olho para meu pai, meu pai olha para mim e então dizemos um pro outro algo que ensaiado não teria ficado tão bom:

“Temos de defender esse cara.”

Tempos depois, num domingo, sozinho em casa, já com TV por assinatura, meu tio me telefona:

“Coloca na TV Senado. Está passando um documentário sobre o golpe contra o Hugo Chávez.”

Era A Revolução Não Será Televisionada, hoje facilmente encontrado naquilo que Paulo Henrique Amorim chamava de “algum ponto da web.”

Este que vos escreve exibiu o documentário numa das Oficinas da Cidadania realizadas mensalmente aos sábados na Cia Bella de Artes, no Manhattan, em Poços de Caldas (MG), após baixar de um servidor qualquer na véspera e gravar num DVD para disponibilizá-lo publicamente, numa época em que não se tinha tantas opções de acesso a conteúdos como hoje.

Tenente-coronel do Exército Venezuelano, Chávez sofreu uma tentativa de golpe
econômico-midiático liderada pelos principais detentores do poder aquisitivo e dos sinais televisivos do país.

Uma mudança no comando da PDVSA, a petrolífera estatal, instiga a oposição a convocar incessantemente marchas opositoras ao Palácio Presidencial de Miraflores para pressionar Chávez a renunciar.

Nessa cruzada comunicacional, Chávez se encastelou aos domingos no Alô Presidente, na TV estatal, único meio de contraponto às enxurradas de cadeias de rádio, jornal impresso e TV que dia sim, outro também, nunca cessaram em pedir sua cabeça.

Então, desata-se um confronto entre manifestantes pró e contra Chávez nos arredores do Palácio Presidencial de Miraflores, propositadamente provocado pela oposição, para criar clima de insustentabilidade política.

Na noite do dia 11 de abril de 2002, Chávez se entrega sem assinar sua renúncia e é levado para um local não sabido onde fica incomunicável e chega a perder a noção do tempo, até que depois, quando num programa de televisão um dos participantes agradece as principais cadeias televisivas do país pela consumação do golpe que nomeia o sindicalista patronal Pedro Carmona Estanga presidente do país. Em meio à destituição sumária dos poderes e instituições republicanas, o povo pobre das periferias se enfurece, toma as ruas de Caracas e junto com frações militares leais a Chávez cercam o Palácio e pedem sua volta.

Golpistas começam a fugir e Diosdado Cabello, vice-presidente, desempenha um papel fundamental nesse processo: é juramentado para restabelecer a ordem constitucional então vigente e garantir a volta de Chávez à presidência.

Horas depois, o alto comando do Exército anuncia estar com a via constitucional e então, finalmente, no dia 13 de abril de 2002, é anunciado que Chávez seria trasladado de volta a Miraflores, onde chega já nas primeiras horas do dia 14 de abril.

Ao abraçar um camarada de luta já dentro de Miraflores, Chávez diz:

“O povo fez história.”

Se para Ho Chi Minh “A tempestade serve para se ver a firmeza do pinheiro e do cipreste”, tempestades não faltaram nos testes vitais da Revolução Bolivariana, que sobreviveu a todos eles.

20 anos depois da tentativa do golpe oligárquico-midiático, ela segue firme e mostra para a América Latina a inexistência de opções, a não ser a prioridade da estratégia de poder sobre a estratégia de governos limitados às institucionalidades que aderem e terminam por elas engessados sem resistência popular.

O povo venezuelano bradará eternamente “¡Uh, ah! ¡Chávez no se vá!”

(*) Lucas Rafael Chianello é advogado, jornalista e membro da direção estadual da Articulação de Esquerda de Minas Gerais.

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