É o all-in, estúpido

Por Arieh Medina (*)

Durante a campanha de Clinton à presidência em 1992, James Carville teria escrito num quadro branco na sede da campanha um alerta à sua equipe de que o que mais importava, naquela eleição, era “a economia, estúpido”. A frase ganhou fama, como que afirmando a verdade da tese reducionista de que a economia sempre vai ser o único elemento decisivo para a escolha do voto. Sem entrar nesse debate, o mérito de Carville está em reconhecer que, entre os fatores de cada problema, sempre há um principal, o que explica o todo, ainda que não explique tudo.

Em debate na GloboNews, Guga Chacra comentou que a nova ofensiva imperialista de Trump não teria objetivo estratégico, uma vez que nenhum dos “argumentos” de Trump, como a falsa alegação de que o Irã estaria perto de construir armas nucleares, teve comprovação e que a Casa Branca não disse bem aonde quer chegar.

Nada pode ser mais equivocado do que subestimar um inimigo da humanidade tão poderoso quanto Trump. A fala de Chacra peca por não analisar os interesses de Trump na arena política, o cenário em que ele se encontra e o resultado pretendido.

O principal interesse de Trump, sem dúvidas, é perpetuar-se na presidência da República. Ele repete isso a todo momento. Juridicamente, contudo, Trump não pode se reeleger, por proibição da 22ª emenda à constituição dos EUA.

Trump tem de viabilizar esse objetivo numa cena política em que a saída institucional é estreita: não fosse o impedimento jurídico, a baixa popularidade e a reprovação de suas ações belicistas tornam provável sua derrota nas eleições de meio de mandato (midterms), a serem realizadas em novembro. Até agora, há chances consideráveis de os democratas – até agora, excessivamente comportados em relação a Trump – assumirem o controle do parlamento e impichar o parça de Epste1n.

E, diante disso, Trump parece vislumbrar algumas saídas.

Internamente, roubar as eleições de meio termo – o que é difícil de executar, porque desata conflitos sociais mais incontroláveis para ele. Pense nas falas sobre colocar agentes do ICE e da guarda nacional para patrulhar locais de votação[1], impedindo eleitores de votar a partir de perfilamento racial. Tais ações, localizadas e francamente racializadas, podem desencadear levantes populares, como o Black Lives Matter, a forte onda de mobilização que foi decisiva na derrota de Trump em 2020.

Outra saída é algo que ele, de mansinho, já começou a naturalizar em suas aparições, aliás, cada vez mais bizarras, vide o anúncio dos ataques ao Irã, quando ele apareceu, de madrugada, à imagem e semelhança do Lord Sith de Guerra nas Estrelas, com a sombra formada pela aba do boné “USA” branco sobre seus olhos. Segundo ele, as eleições não poderiam ocorrer se o país estivesse em guerra[2], tal como o Ocidente naturalizou no caso de Zelensky.

Ao assumir que a guerra pode durar indefinidamente, Trump faz o seguinte cálculo: para alcançar seu objetivo estratégico de permanecer vivo e em liberdade, enriquecendo-se privadamente a partir do Estado[3] e tendo relativo comando sobre o aparelho estatal, sua melhor opção é a guerra contra o Irã, uma decisão que está de acordo com a estratégia da classe dominante dos EUA[4] e, por isso, não causou mais que notas de repúdio por parte de lideranças democratas.

Ele sabe que só pode apostar tudo nessa decisão de alto custo e risco, mas deve avaliar que a vitória significa conquistar hegemonia no Oriente Médio, prejudicando fortemente a China (o inimigo estratégico dos EUA), assim o validando como ditador competente e destemido, e que o prolongamento da guerra servirá, no mínimo, para desestabilizar o sistema político interno, de repente, inclusive, com a imposição de um estado de emergência que lhe permita concentrar poderes e consolidar-se, ainda que com muito rechaço popular, como ditador feroz e intempestivo.

Em todas as hipóteses, como no poker, Trump sabe que não restam a ele outras partidas para gastar suas fichas. É all-in.

Diante dessa ameaça, não pode haver dúvida de que será preciso, mais do que nunca, constituir comitês, atividades, mobilizações e um movimento mundial de permanente denúncia dos crimes imperialistas, a exemplo do que foi criado durante a Jornada Nacional de Formação da Articulação de Esquerda, no último sábado (28/02/2026), com a campanha já iniciada de arrecadação de materiais e recursos para o povo cubano.

(*) Arieh Medina é mestre em D. Penal e Criminologia (USP). Atuo em causas criminais, trabalhistas, administrativas e populares. Estudo como a classe dominante manipula o Estado para manter seus privilégios.


[1] Trump has no ‘formal plans’ to deploy ICE at polling sites, White House says | Reuters

[2] https://www.c-span.org/clip/white-house-event/president-trump-quips-about-canceling-2028-elections-if-us-is-at-war/5170008#:~:text=Elections%20If%20U.S.-,Is%20At%20War,Copy%20Embed%20Code

[3] Trump já ganhou um avião de U$ 400 mi do Catar, já lucrou milhões com seu esquema de criptomoedas, que garante acesso a ele e, influenciando em suas decisões por meio de vantagens indevidas, constitui um possível esquemão de corrupção. Vide: Opinion | How Trump Has Used the Presidency to Make at Least $1.4 Billion – The New York Times

[4] What It Will Take to Change the Regime in Iran | Foreign Affairs. Vide artigo escrito por membro do think tank atlantista Foundation for Defense of Democracies (https://ngoreport.org/foundation-for-defense-of-democracies/?utm_source=copilot.com), que defende que os EUA devem “go big”, ou seja, “ir com tudo desde o início e evitar se meter em algo como um escalar gradual da crise que tornam as guerras em quimeras”. https://ngoreport.org/foundation-for-defense-of-democracies/?utm_source=copilot.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *