Por Gabriel Cavalcante (*)

No núcleo primordial dos primeiros ensaios que fazem parte da trajetória intelectual de Marx está a sua tese formulada para a obtenção do título de doutor em filosofia. No texto se observa o embate na filosofia grega entre Epicuro e Demócrito. Em que pese ainda pairar sobre o Marx, ainda jovem, as influências do hegelianismo, essa obra inicia-se com algumas declarações potentes que merecem análise. A primeira, pela boca de Prometeu, de que “ímpio não é aquele nega os deuses da multidão, mas aquele que atribui aos deuses as opiniões da multidão”; a segunda, também por Prometeu, em resposta a Hermes: “fica certo disso: eu não trocaria minha condição de infortúnio pela tua servidão. Melhor servir a esta rocha do que ser fiel servo do pai Zeus”.
As duas declarações reinterpretadas por Marx em suas primeiras elaborações trazem consigo uma reflexão fundamental: a crítica a inversões que podem ser realizadas para justificar o poder estabelecido. Não é, então, o ateu o problemático, mas quem transforma os deuses em reflexos das crenças sociais. Há que se compreender a necessidade de se fazer a crítica à consciência invertida, que projeta no poder imagens que não correspondem à realidade. Por outro lado, Prometeu comparece como aquele que desafia os deuses, dá fogo aos humanos rebelando-os e sofre punição por isso, portanto rejeita qualquer autoridade transcendental. Prefere sofrer livre, do que servir ao poder.
Por entre as curtas linhas temporais que atravessam a conjuntura pesada que hoje se apresenta, há que se repor dialeticamente o sentido dessas reflexões. Em razão de que a estrutura global de dominação representada pelo imperialismo, que tem como nação os Estados Unidos da América, configura-se como o poder maior do ponto de vista planetário que subjuga, ao mesmo tempo, todos os povos do planeta e suas respectivas classes trabalhadoras. Ímpio, em nossos tempos, não seriam aqueles que se negam criticamente a se submeter aos desígnios imperiais da casta Epstein, mas aqueles que justificam com suas crenças a destruição e a morte causada pelo imperialismo.
É importante traçar um paralelo com a vida presente. Pois há aqueles que escolhem ser sócios menores dentro do sistema global de dominação por oligopólios globais, tal qual a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, que interpretou destacada cena de vassalagem ao comandante-em-chefe das agressões bélicas ao Irã, o Presidente Donald Trump, ao ser lembrada que seu país fora derrotado na segunda guerra mundial, com o extermínio de centenas de milhares através das bombas de Hiroshisma e Nagazaki. Há ainda aqueles presidentes na América Latina que se propõem a incorporar-se a um denominado “escudo das Américas” contra sua própria classe trabalhadora, de joelhos perante os poderes globais, com direito a canetinhas de presente. A diferença entre a primeira e os últimos, é que a primeira se senta à mesa na repartição mundial do butim, enquanto os últimos deitam e rolam contentes esperando que lhes sejam jogados algum dos restos.
No polo inverso, a classe trabalhadora cubana fez a opção resoluta há quase 70 anos de tomar para si o destino de sua nação, mesmo que isso lhe custasse acesso aos circuitos mundiais de produção de mercadorias. Essa escolha é refeita conscientemente, cotidianamente, palmo a palmo, pela sociedade cubana até os dias de hoje, quando nenhuma gota de petróleo entra na ilha e seu sistema energético entra em colapso. Tal como, mesmo que conduzido por formas de organização social distintas, a linha geral da classe trabalhadora iraniana e do comando político do Estado do Irã, que decide enfrentar a máquina de guerra norte-americana e o Estado sionista de Israel.
Ao final, o que deve ser depurado é a falsa disjuntiva de Prometeu em que a escolha representa “ou sofrer em liberdade ou servir em dominação”. Haverá um tempo em que Zeus estará morto e somente sobrará dele uma breve lembrança de um passado pré-histórico, pois toda e qualquer formação social tem seu fim e tudo o que é sólido desmancha-se no ar. Nesse tempo, não haverá senhores nem impérios, e todas e todos serão livres, em que pese as bombas e os massacres do tempo presente.
(*) Gabriel Cavalcante, militante petista e da Articulação de Esquerda na Bahia.

Respostas de 2
Parabéns pela excelente análise Camarada “Gabo”, todavia faltou uma convocação primordial, só evitaremos que componentes da Classe Trabalhadora reproduzam apenas a prática de Prometeu, ou seja, Enriquecendo Capitalistas e ficando cada vez mais pobres diante Deles.
E que só Investindo em Formação Política Continuada, para Conquistarmos uma Sociedade Socialista, eliminaremos os males do Capitalismo.
Abraços Revolucionários e Solidários, João Rocha Sobrinho.
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