Por Fausto Antonio (*)
Epigrafia da luta contra o racismo e o capitalismo
A luta dos movimentos negros não possui eficácia se estiver distante do viés anticapitalista e do antirracismo estrutural. A orientação da política que conta com o apoio da Fundação Palmares é liberal; ela tornará as entidades negras prisioneiras dos editais de fomento e paralisará o ativismo radical. Estamos diante de uma fragmentação que empurra o movimento negro para o campo da prestação de serviços, atuando sob o comando de recursos que tornam as organizações reféns do Estado burguês. No estado de São Paulo, entidades e artistas negros, capturados pelo edital neoliberal, ficarão paralisados e distantes daquilo que determina sua existência histórica: a luta intransigente e radical contra o racismo.

Às vésperas do 13 de maio de 2026, “Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo”, chama a atenção, negativamente, a proposta assinada politicamente pela “Marcha da Consciência Negra” e pela “Fundação Palmares”. É igualmente objeto de alerta o fato de a proposta ser dirigida exclusivamente ao estado de São Paulo , salvo engano de que o projeto seja extensivo ao território nacional. No estado de São Paulo, os índices de violência policial contra negros, marcados por várias chacinas no transcurso do atual governo, exigem, para responder ao genocídio da juventude negra, outro tipo de formulação política e de intervenção antirracismo.
Abaixo, segue o texto apresentado pelo “projeto”:
“O Cadastro Universal de Entidades NEGRAS é uma iniciativa da Marcha da Consciência Negra e da Fundação Cultural Palmares com o objetivo de identificar entidades, organizações, associações, profissionais e artistas negros que tenham como pilar fundamental o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial no estado de São Paulo, para fomento de atividades através de editais e outras fontes.
Todas as Associações, Coletivos, Cooperativas, Fóruns, Fundações, Institutos, Sindicatos, ONGs, OSs, OSCIPs; Artistas e Produtores Culturais; Prestadores de Serviços e Profissionais liberais, com ou sem CNPJ.”
A proposta de cadastro de entidades negras e antirracismo é equivocada e paralisante. Trata-se de uma política de acomodação, com explícita orientação liberal e “onguista”. No atual contexto paulista, brasileiro e internacional, ela deveria ser formulada de outro modo. A “Marcha da Consciência Negra” deveria convocar as entidades para a transformação radical da sociedade racista. Afinal, qual a real utilidade de um setor do movimento negro sistematizar um projeto de adesão ao modelo neoliberal e racista?
Desde o golpe imperialista , burguês, branco e racista de 2016, que derrubou a presidenta Dilma, carecemos de congressos e outros meios para organizar, mobilizar e ativar uma política antirracismo que promova um salto organizativo e a unidade do movimento negro nacional. Esta política deve ter consistência para enfrentar o racismo como sustentáculo do capitalismo.
O foco central deve ser a luta transformadora das estruturas racistas-capitalistas que, simultaneamente, impulsione o combate à violência policial — esta última entendida como parte integrante e complementar da violência racista estrutural e sistêmica. O projeto atual de registro, porém, propõe uma submissão à lógica do “Cadastro Universal”. O cerne da questão reside no conflito entre uma política de gestão e fomento (estatal/institucional) versus uma política de ruptura e mobilização (revolucionária/estrutural).
A luta dos movimentos negros não possui eficácia se estiver distante do viés anticapitalista e do antirracismo estrutural. A orientação da política que conta com o apoio da Fundação Palmares é liberal; ela tornará as entidades negras prisioneiras dos editais de fomento e paralisará o ativismo radical. Estamos diante de uma fragmentação que empurra o movimento negro para o campo da prestação de serviços, atuando sob o comando de recursos que tornam as organizações reféns do Estado burguês. No estado de São Paulo, entidades e artistas negros, capturados pelo edital neoliberal, ficarão paralisados e distantes daquilo que determina sua existência histórica: a luta intransigente e radical contra o racismo.
A dependência de editais é um meio para acomodar e neutralizar o ímpeto político necessário para transformar radicalmente as estruturas vigentes. Afinal, não existe combate ao racismo sem o combate ao capitalismo, que se ergue, no Brasil, sobre a superexploração, a violência e a exclusão do povo negro.
(*) Fausto é escritor, poeta, dramaturgo e Professor Associado da Unilab – Bahia.
Referências
https://form.jotform.com/marchaconsciencianegra/master-forms-movimento-negro

Respostas de 3
Penso que este artigo pincela a desilusão que sentimos ao assistir os rumos por onde estão caminhando as organizações que que entendemos que constituem aquilo que denominamos de”Movimento Negro”. Percebemos que a muito os valores capitalistas pulverizaram nossa luta e nossos ideais antirracistas. A retomada da luta por uma sociedade hegemônica em seus ideais igualitários deverá ser construída pelas vias de um novo percurso, a ser descoberto, através do nosso anseio utópico e politico por um mundo onde todos, indiscriminadamente, possam ser “felizes”
A convocação da marcha seria o ideal. Todavia, o movimento que busca a conscientização antirracista e ainda mais radical, tem-se perdido nas letras e páginas… tenho observado em alguns territórios, ao menos os próximos, e a lupa não foi ainda suficiente. Há diversas formas de ampliar a luta antirracista e antimprialista, mas precisamos primeiro nos encontrar, estabelecer bases e ampliar a partir do lugar estratégico que cada um(a) atua.
Plena concordância com o artigo que, revela de certo o projeto de coopitação dos movimentos sociais costurado pela extrema direita há anos. E quer se consolidar no governo Lula para num futuro breve paralisar os movimentos que lutam pela Igualdade racial