Por Silvio Queiroz (*)

Os conflitos armados em andamento, no Oriente Médio e na Ucrânia, ilustram as fraturas expostas de uma ordem internacional em plena remodelagem. À primeira vista, trata-se da substituição do mundo bipolar que emergiu do pós-2ª Guerra, nos marcos da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a hoje extinta União Soviética. Uma análise mais profunda, no entanto, indica que é um arranjo global mais antigo que dá os sinais definitivos de esgotamento: o que está ruindo é o sistema internacional desenhado pelas potências coloniais vencedoras da 1ª Guerra (1914-1918), que terminou com a dissolução de três impérios formados ao longo de alguns séculos, dois deles com raízes na Idade Média.
A configuração política que vemos nos atlas de hoje em dia retrata, nas duas regiões atualmente conflagradas, um número expressivo de países criados ou reconhecidos como tal no pós-1ª Guerra. Reino Unido e França, como potências vencedoras, iniciaram, sob mandato da recém-fundada — e efêmera — Liga das Nações, o desmembramento dos impérios turco-otomano e austro-húngaro, derrotados no campo de batalha, ao lado do então jovem império alemão. A Rússia czarista, embora integrasse a aliança vitoriosa, sucumbiu à Revolução Bolchevique de 1917 e passou por uma evolução distinta, embora concomitante e enlaçada.
A eclosão da 2ª Guerra, em 1939, naquilo que muitos historiadores caracterizam como uma espécie de “segundo tempo” do conflito anterior, interrompeu alguns dos movimentos iniciais no desenho do novo mapa-múndi. Mas ele seguiu a partir de 1945, já então sob a égide das Nações Unidas e da hegemonia compartilhada entre EUA e URSS. Não por acaso, foi nesse novo contexto que se completou, praticamente, a descolonização da África, favorecida em grande parte pelo declínio político das metrópoles europeias, em especial Reino Unido e França.
Foi a ONU que selou o reconhecimento de uma parte considerável dos países que integram hoje o Oriente Médio, com destaque para a controversa fundação de Israel. Mas é no jogo de alianças costurado para e durante a 1ª Guerra que se encontram os fundamentos da nova ordem regional, inclusive o estabelecimento do Estado judeu em parte do que era até então o protetorado britânico da Palestina.
O desmembramento do Império Otomano, que havia perdurado por seis séculos, teve um de seus lances capitais antes mesmo de encerrado o conflito. Ainda em 1917, foi negociado e fechado entre os chanceleres britânico e francês um plano de partilha que ficou conhecido como Acordo Sykes-Picot. Com base nele, a Liga das Nações estabeleceu os protetorados e deu a seus titulares o mandato para administrá-los provisoriamente e conduzir a transição à vida independente.
Saída à inglesa
Coube ao Reino Unido a então Palestina, o atual Iraque e os territórios do Golfo Pérsico que hoje correspondem às pequenas petromonarquias — o reino da Arábia Saudita já estava reconhecido. A França ficou com os atuais Líbano e Síria. Os britânicos, em particular, traíam as promessas de independência feitas aos líderes da Revolta Árabe contra o império turco. Uma cena do filme Lawrence da Arábia, clássico de 1962 dirigido pelo britânico David Lean, mostra o pacto secreto sendo denunciado por um nobre saudita, o príncipe Faisal — interpretação magistral do também inglês Alec Guiness.
Faisal, aliás, é personagem que ilustra o método adotado por Londres no exercício de seu mandato no Oriente Médio. O príncipe saudita tornou-se o primeiro rei do Iraque, criado para premiá-lo. Naquela altura, seu território incluía o que é hoje o Kuwait. Ainda mais representativa é a criação da Jordânia, a começar pelo nome oficial. O Reino Hachemita da Transjordânia compreendia a porção da Palestina situada na margem oriental do rio Jordão — as terras que, vistas do Ocidente, estão além do rio. Sua população era majoritariamente palestina, mas incluía tribos de beduínos. Foi tecendo uma aliança com elas que a dinastia Hachemi conseguiu reinar sobre uma maioria que se identificava com a população radicada entre o Mediterrâneo e a margem oposta do Jordão. Esse é o território reivindicado hoje para o Estado Palestino, compreendendo a Faixa de Gaza e a Cisjordânia — assim chamada pelo mesmo critério geográfico, e por isso mesmo referida, em inglês como a “margem ocidental” (West Bank).
A traição britânica à Revolta Árabe, consumada no Acordo Sykes-Picot, tem outro elemento na chamada Declaração de Balfour. Nela, o Reino Unido expressa oficialmente seu apoio ao estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” — na Palestina. A população judaica atraída à região pelo movimento sionista, desde o início do século 20, era ainda pequena. Mas cresceu no período entre guerras e, ainda mais, com a perseguição antissemita promovida na Europa pela Alemanha nazista, culminando no Holocausto. Judeus e árabes palestinos lutavam entre si e contra a potência colonial. Incapaz de dar solução ao impasse, a Coroa britânica optou por uma saída à inglesa: lavou as mãos, como Pilatos na Antiguidade, e passou o problema à recém-fundada ONU.
O Plano de Partilha da Palestina, aprovado em 29 de novembro de 1947 pela Assembleia Geral, está na base do conflito árabe-israelense até hoje. Possibilitou a fundação de Israel, em 1948, mas desdobrou-se em três guerras e não resultou no Estado Palestino, mesmo passadas já quase oito décadas.
Países fragmentados
A Jordânia, criada artificialmente como compensação para um príncipe saudita, não é exemplo único. O Iraque, de gênese semelhante, foi estabelecido em território onde a expansão muçulmana dos séculos 7 e 8, seguida pelos domínios persa e otomano, se sobrepôs aos remanescentes de diferentes culturas e civilizações pré-islâmicas — como a da própria Pérsia, impregnada do legado da Grécia antiga. Desde que se tornou um Estado monárquico, em 1932, sua sociedade abriga divisões em mais de um terreno. No étnico, a presença de uma minoria curda, concentrada no Norte/Nordeste do país. A maioria árabe se divide entre muçulmanos sunitas — minoritários, porém dominantes politicamente até a queda de Saddam Hussein — e xiitas, majoritários e historicamente oprimidos.
A guerra civil que se seguiu à invasão estadunidense de 2003 e ao fim do regime de Saddam resume o esgotamento do modelo pós-colonial de corte britânico. A expressão mais evidente disso foi a ascensão do Estado Islâmico, no fim da década passada, e o estabelecimento de um califado fundamentalista sunita com sede em Raqqa, na Síria — àquela altura mergulhada também em guerra civil. O califado foi destruído pelo esforço convergente, porém desarticulado, de milícias xiitas e curdas iraquianas, do regime sírio sob Bashar al-Assad e de forças antiAssad apoiadas pelos EUA e pela Turquia. Hoje, o Iraque tem um governo liderado por xiitas, mas que mantém fortes laços com Washington, evidentes na presença de bases militares estadunidenses. Estas, por sinal, foram atacadas por milícias pró-Irã na atual guerra dos EUA e Israel contra a República Islâmica. Quanto aos curdos, mantêm um governo próprio, semiautônomo, que se equilibra entre alianças com o imperialismo estadunidense e escaramuças com a Turquia, que abriga a maior porção da população curda.
O califado de Raqqa serve também como retrato de outro país fragmentado surgido do processo iniciado no pós-1ª Guerra. A Síria de hoje, herdeira das épocas de esplendor do mundo islâmico, na Idade Média, é obra da gestão pós-colonial francesa. À imagem e semelhança do que fizeram os lordes ingleses, também os governantes da república-símbolo da Idade Moderna investiram na manipulação de desencontros socioculturais na parte que lhes coube do espólio otomano. De saída, pela divisão de seu protetorado em dois Estados, Síria e Líbano.
O entrelaçamento entre ambos está presente ainda hoje na vida corriqueira do Brasil, que recebeu no período um expressivo contingente migratório. Não é por acaso que vemos em nossas cidades hospitais, clubes e outras instituições que se intitulam sírio-libanesas. Pela mesma razão, nossa linguagem popular e nossa literatura são ricas em referências aos “turcos”: sírios e libaneses, que deixaram marcas inclusive na culinária do nosso cotidiano, chegavam ao país com passaportes do império turco.
No caso particular da Síria, o mandato francês do entreguerras escolheu a fórmula clássica de explorar divisões étnico-religiosas. De início, esboçou a formação de dois Estados: um para os drusos, fiéis de uma variante muçulmana presente também no Líbano e no Norte de Israel; o outro, para os alauítas, fiéis de uma corrente muçulmana declarada herege pela ortodoxia sunita, mas acolhida pelo xiismo. É a essa vertente, minoritária em relação aos muçulmanos sunitas, que pertence o clã Assad. Traço comum no mundo islâmico, em especial em sua porção não árabe, os xiitas usaram historicamente o laicismo como uma espécie de véu ou escudo contra a opressão político-religiosa da maioria sunita.
Ao fim de três décadas de governo de Hafez al-Assad, seguido pelo filho Bashar, o Ocidente conseguiu explorar as rivalidades entre sunitas, xiitas, drusos e curdos para precipitar o país em uma guerra civil, na esteira da mal chamada “Primavera Árabe” de 2011. A virtual fragmentação do país abriu o espaço para que o Estado Islâmico, filho bastardo da Al-Qaeda do Iraque, conquistasse a maior parte das regiões desérticas na fronteira. O conflito chegou a um desfecho no ano passado, com a ofensiva fulminante de uma coalizão sunita fundamentalista liderada pelo atual presidente, Ahmad al-Sharaa, egresso do Estado Islâmico. No fundamental, porém, o país segue retalhado, com a presença de grupos armados pela Turquia, no extremo Norte, milícias curdas na direção nordeste e remanescentes do Estado Islâmico.
Ainda mais precária é a unidade política do vizinho Líbano. O país teve a independência reconhecida pela ONU, no pós-guerra, com base em um sistema confessional instituído sob o mandato francês. A divisão de poder entre as comunidades religiosas, vigente até hoje, divide as cadeiras do parlamento igualmente entre cristãos e muçulmanos. Mas os primeiros têm o privilégio exclusivo da presidência da República, com base em um censo demográfico dos anos 1930, contestado pelos demais. O cargo de primeiro-ministro cabe aos muçulmanos sunitas. Os xiitas, que formam hoje a maior comunidade — e, hoje, quase a maioria absoluta da população, ficam com a presidência do parlamento.
A reivindicação dos muçulmanos por um novo censo e uma redivisão dos poderes precipitou o país, em 1975, em uma guerra civil que durou 15 anos. Durante o conflito, intervieram tropas sírias, francesas e estadunidenses. Israel invadiu o país em 1982, chegou a sitiar Beirute e manteve sob ocupação uma faixa no sul do território libanês até 2000. Hoje, como desdobramento da guerra contra o Irã, o Estado sionista voltou a avançar pela fronteira e anuncia a intenção de reeditar a “zona de segurança” — desta vez, expulsando a população local. A migração para Beirute de mais de 1 milhão de libaneses, na maioria xiitas, acirra as tensões interconfessionais e potencia o risco de uma nova guerra civil, com a milícia Hezbollah, aliada ao Irã, como força militar superior ao próprio Exército regular.
Europa redesenhada
Menos evidente que no Oriente Médio, também na Europa o mapa traçado pelos vencedores da 1ª Guerra segue em redefinição, na região centro-oriental do continente. No Velho Mundo, um punhado de países passaram a existir sobre as ruínas do outrora poderoso Império Austro-húngaro — a começar pela própria Hungria. Mais a leste, o nascimento da União Soviética e a derrota do II Reich alemão, herdeiro da Prússia, redefiniu as fronteiras da Polônia e favoreceu um breve período independente para os países bálticos. Nesse contexto, pela primeira vez, a Ucrânia passou a ser uma entidade estatal, como república integrante da URSS.
O caso mais emblemático é o da hoje extinta Iugoslávia, instituída em 1919 como uma monarquia. O nome adotado espelha fielmente a concepção que norteou o movimento: o “reino dos eslavos do sul” agrupava sérvios, croatas, eslovenos, bósnios, macedônios e montenegrinos, por cima de identidades étnicas, raízes históricas e confissões religiosas díspares. O arranjo persistiu no pós-2ª Guerra, na forma de uma federação socialista liderada por Josip Broz Tito, herói da resistência à ocupação nazista.
A morte de Tito, concomitante à queda do bloco socialista do Leste Europeu, resultou em uma sequência de guerras de secessão, no início dos anos 90. A mais sangrenta, na Bósnia-Herzegóvina, terminou em 1992, com intervenção internacional. A ex-Iugoslávia fragmentou-se entre as repúblicas que a constituíam. Uma delas, Macedônia, subdividiu-se em Norte e Sul. A província sérvia de Kosovo, de maioria albanesa, foi alvo de uma intervenção da OTAN e transformada, na prática, em protetorado da aliança militar ocidental. A independência do território segue sem reconhecimento internacional ou representação na ONU.
A guerra em andamento há quatro anos na Ucrânia, apesar de obedecer a uma dinâmica própria, tem nela também traços com origem no redesenho da Europa ao final da 1ª Guerra. Não por acaso, quando lançou as tropas da Rússia contra o governo de Kiev, Vladimir Putin lembrou que o Estado ucraniano foi estabelecido pela primeira vez na União Soviética — chegou a mencionar um “erro de Lênin”. O motivo invocado para a ofensiva foi defender a população de língua russa de uma onda de violência movida por grupos neonazistas associados ao presidente Volodymyr Zelensky.
O palco da disputa é o Donbass, região industrial rica em carvão na bacia do rio Don, no extremo oriental da Ucrânia, que experimentou forte desenvolvimento no período soviético. Historicamente, abrigou maioria de russos em sua população, em contraste com as porções centrais e ocidentais. Quando se tornou independente, em 1991, com a dissolução da URSS, seu território compreendia áreas incorporadas apenas no pós-2ª Guerra. Até então, tinham formado parte da Polônia ou mesmo do II Reich alemão e da Prússia. Já nos anos 50, tinha “ganhado” a estratégica península da Crimeia,
A decisão de Putin de desafiar frontalmente a OTAN deu forma a outro aspecto da reconfiguração do cenário geopolítico: a reemergência da Rússia. Embora integrasse com Reino Unido e França o bloco vencedor da 1ª Guerra, o império czarista saiu de cena e deu lugar à URSS, que sairia da 2ª Guerra dividindo com os EUA a posição de potências dominantes na ordem global bipolar da Guerra Fria. A desmontagem soviética, concluída formalmente em 1991, alimentou em Washington o sonho de uma era de hegemonia, mas a recomposição do Estado russo sob Putin, em aliança cada vez mais estreita com a China de Xi Jinping, volta a embaralhar as cartas. O jogo geopolítico da supremacia está reaberto.
(*) Silvio Queiroz é militante do PT e diretor do Sindicato dos Jornalistas do DF.
