Por Valter Pomar (*)

A ilusão tem um papel na história.
Sem fortes doses de ilusão em que o amanhã pode ser melhor, bilhões de mulheres e homens dificilmente conseguiriam suportar sua estafante rotina diária.
Sem ilusões, utopia e esperança, centenas de milhões de pessoas não dedicariam suas vidas à luta por uma sociedade sem exploração nem opressão de nenhum tipo, mesmo que o “realmente existente” até agora sempre tenha estado aquém do desejado.
Ilusões aquecem a alma, enganam o estômago, afugentam o sono e espantam o medo.
Mas também causam ressaca.

A certeza que boa parte da esquerda colombiana alimentava numa vitória no primeiro turno tinha bases reais? O resultado da apuração é produto de uma fraude? Ou o que ocorreu era previsível, mesmo que tenha sido fruto da ilegítima mas previsível “metodologia” utilizada pelas direitas mundo afora?
As verdadeiras razões do “resultado até agora anunciado” – segundo turno com a esquerda em segundo lugar – só os colombianos saberão responder.
A nós cabe – diferente do que alguns fizeram nas eleições presidenciais venezuelanas – dar todo apoio ao que a esquerda colombiana decidir fazer, para que no segundo turno da eleição presidencial, dia 21 de junho, a candidatura de Ivan Cepeda derrote a candidatura do crime organizado.
Pois é disso que se trata: as candidaturas da extrema-direita expressam, em todas as partes, a aliança entre as oligarquias, o grande capital, o imperialismo, o fascismo e o crime.
Por isso, aliás, o disposto no recente anúncio do “Rubio Departamento de Estado USA” não constitui apenas uma ingerência contra a soberania nacional. Para além disso, somos contra porque Trump e os cavernícolas sem pátria são parte integrante do crime organizado. Que, claro, aprendeu em Gotham City que berrar “pega o ladrão” é ótimo para distrair a atenção dos incautos.
Agora, aqui no Brasil, que o ocorrido na Colômbia sirva para nos vacinar contra aqueles que seguem falando em vencer no primeiro turno.
Venceremos com mais facilidade se nos prepararmos para o pior. Até porque ressaca atrapalha muito quando se precisa ir para cima sem dó nem piedade.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
