Dia da África, as mulheres africanas e a gestão da água

Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia antirracismo, anticapitalismo e anti-imperialismo

O ideal não seria necessariamente anular o tema proposto pela ASEA, mas tensioná-lo e ajustar a intervenção a partir do debate, para que a utópica “Gestão da Água pelas Mulheres” seja discutida sob a ótica da Soberania Popular (nacional), da organização da mulher africana e da luta contra o imperialismo, e não sob o viés do desenvolvimento sustentável neoliberal.

As categorias classe, raça, gênero, território usado, espaço geográfico, lugar, soberania nacional, antirracismo, anticapitalismo e anti-imperialismo são fundamentais para o sucesso do evento, a despeito da delimitação, que sugere, no mínimo, outro caminho teórico, metodológico e, sobretudo, político.

“Mulheres Africanas na Gestão da Água: Pilar para Integração e Desenvolvimento Sustentável” é o que diz o cartaz do evento, que foi anunciado igualmente assim: “Mulheres Africanas na gestão da água” é tema da XIII Semana da África no Campus dos Malês, Bahia, de 22 a 25 de maio de 2026.

A temática proposta pela ASEA na Unilab para o evento formativo e comemorativo do Dia da África merece cuidado redobrado do ponto de vista histórico, geopolítico e estratégico, ancorado por uma forte visão de totalidade. É preciso um direcionamento anti-imperialismo e voltado para a soberania nacional dos países africanos. A soberania popular (nacional) precede ou se dá de forma concomitante à garantia da soberania hídrica, dos recursos minerais e energéticos.

Não seria válido enfatizar o retorno do ebola no Congo e em Uganda? Em outros termos, diante de tantas necessidades urgentes e diretamente relacionadas à luta pela soberania dos países africanos, a pauta não deveria ser outra? Não seria o caso de dar ênfase à luta contra o imperialismo franco-ianque no Níger, no Mali e em Burkina Faso? Não podemos igualmente esquecer o Sudão dividido, a Nigéria e tantos outros encurralados por ex-colonizadores e escravizadores racistas que hoje integram o bloco da OTAN.

Mesmo assim, o tema escolhido foi “Mulheres Africanas na Gestão da Água: Pilar para Integração e Desenvolvimento Sustentável”. O assunto delimitado, apresentado de modo copioso acima, suscita uma pergunta inicial e inadiável: há alguma possibilidade de soberania no uso do solo ou do território nacional sem a precedente conquista da soberania nacional e, antes, de enfrentamento do imperialismo?

A rigor do cenário atual e do quadro histórico de longa data, as mulheres africanas são massacradas por processos capitalistas e machistas, alimentados tanto pela herança colonial racista quanto por práticas endógenas nem sempre alinhadas à valorização feminina no âmbito do trabalho, da remuneração, do acesso aos bancos escolares, da produção intelectual e da ascensão compatível, em todos os níveis e rincões, com a igualdade de gênero.

Para ter eficácia, a abordagem deve considerar o contexto geopolítico contemporâneo. Como exemplo, é útil citar o golpe de Estado na Guiné-Bissau, que instaurou um governo baseado na força e na opressão militar. No entanto, o evento opta por discutir um tema que demonstra flagrantes nexos de assimilação à pauta dirigida e sistematizada pelo imperialismo estadunidense, em total concordância e alinhamento geopolítico com os países colonizadores que hoje são membros ativos da OTAN.

Não seria mais pertinente que a Unilab, em conformidade com a reality de seus estudantes oriundos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e da CPLP, debatesse, entre outros, as problemáticas existentes e persistentes, como os golpes na Guiné-Bissau, os domínios territoriais e conflitos em Moçambique e Angola, e as suas diásporas?

O ponto nuclear do debate “pós-colonial” e da geopolítica contemporânea prende-se à indispensável visão de totalidade. A crítica inicial e direta precisa, de forma dialética, de uma análise e de uma subjacente contraposição que possa justificar a escolha do tema pela organização sem, no entanto, desconsiderar a centralidade do enfoque anti-imperialismo e da soberania dos países africanos. Teme-se que um debate sem a coragem teórica e metodológica de apontar o nexo dado no continuum entre colonização, trabalho escravizado, Conferência de Berlim (1885) e a fundação da OTAN (1949) — com os mesmos opressores em conluio com os EUA — anuncie problemas sem enunciá-los claramente, deixando de expor os opressores e as suas ações de dominação, exploração, opressão e poder. Isso inclui compreender como os recursos hídricos, minerais e energéticos compõem o quadro de dominação e saque desses bens sociais.

Por outra ótica, a Unilab possui uma missão muito específica de integração com o PALOP. Discutir as instabilidades políticas na Guiné-Bissau, as crises instaladas em Cabo Delgado (Moçambique) ou a soberania do Sahel (Mali, Níger, Burkina Faso) frente ao imperialismo é o que se espera de uma universidade com essa vocação renovadora de currículos, epistemologias e formação de quadros orgânicos.

No tocante à água, teríamos necessariamente de considerar a impostergável necessidade de tratar da questão incluindo, com certeza, Cabo Verde. A questão hídrica é indissociável da soberania energética, o que dá ainda mais força à pertinência da visão sistêmica ou de totalidade no que concerne à centralidade da soberania nacional e de conjunto dos países africanos.

Quando bradamos contra o nexo de “assimilação” aos sistemas de valores lançados historicamente pelo imperialismo, constatamos que, muitas vezes, agências internacionais dirigidas hegemonicamente pelo Norte Global (como o Banco Mundial ou a ONU) financiam e promovem agendas de “desenvolvimento sustentável” e “gestão de recursos” que esvaziam o debate político radical, transformando crises estruturais e de soberania em problemas meramente técnicos ou de gestão identitária. Não há dúvida de que a água deve ser encarada como indispensável vetor estratégico da soberania nacional, regional e continental, sendo também pivô de conflito, disputa e cobiça internacional.

Na África Subsaariana, a gestão da água não é um tema “leve” ou puramente ecológico ou econeoliberal; é uma questão de segurança nacional, geopolítica e sobrevivência. A disputa pelas águas do Rio Nilo (envolvendo Egito, Sudão e Etiópia) ou o conflito hídrico na região do Sahel são estopins para as próprias crises de soberania e golpes ativados externamente por potências imperiais. São emblemáticas as atuações da França e da Inglaterra no contexto africano, sempre em parceria opressora com os EUA.

Por outro lado, cumpre relevar que as mulheres africanas são agentes sociais fundamentais, provedoras, agricultoras e implicadas, no território usado e nos lugares africanos, pelo uso e pela superação da escassez dos recursos sociais hídricos e da terra. Colocá-las no centro da gestão da água significa discutir, na base, a divisão internacional do trabalho, a soberania dos países e a resistência contra a privatização desses recursos por corporações transnacionais (capitalismo extrativista). Se bem tensionado nas mesas, o tema permite conectar justamente o entendimento e a superação do machismo herdeiro do colonialismo e do capitalismo excludente. No contexto assim constituído, o que podem realizar efetivamente as mulheres africanas?

É fundamental, como contrapeso crítico, assegurar metodológica e teoricamente a visão de todo e da soberania dos países. Na contramão do imperialismo, deve-se impedir que o evento caia no erro de debater a água e o gênero de forma a reproduzir acriticamente as visões das agências imperiais no estilo “ONG internacional”.

O ideal não seria necessariamente anular o tema proposto pela ASEA, mas tensioná-lo e ajustar a intervenção a partir do debate, para que a utópica “Gestão da Água pelas Mulheres” seja discutida sob a ótica da Soberania Popular (nacional), da organização da mulher africana e da luta contra o imperialismo, e não sob o viés do desenvolvimento sustentável neoliberal.

A propósito, acende-se o sinal de alerta de perigo e de submissão à agenda de meros administradores(as) do capitalismo e da senda nuclear do imperialismo “humanitário” diante da presença, cada vez mais frequente no meio universitário, dos sustentáculos desse projeto lastreado pelas perfumarias denominadas de insegurança alimentar, empreendedorismo, desenvolvimento sustentável, direitos humanos, direitos linguísticos, combate à corrupção, às drogas e a naturalização da “pérola” de inclusão — que é para poucos ou alguns no capitalismo — de negros(as), africanos(as) e pobres.

As categorias classe, raça, gênero, território usado, espaço geográfico, lugar, soberania nacional, antirracismo, anticapitalismo e anti-imperialismo são fundamentais para o sucesso do evento, a despeito da delimitação, que sugere, no mínimo, outro caminho teórico, metodológico e, sobretudo, político.

(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab, Bahia.

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