Roteiro da exposição que será feita no congresso do Sintese, no dia 27/8/2026.

Por Valter Pomar (*)
A dinâmica do país será cada vez mais dominada pela disputa eleitoral, com destaque para a disputa presidencial. E nesta disputa eleitoral será cada vez mais forte a ingerência externa, especialmente dos Estados Unidos, de Israel e da extrema-direita internacional.
Outro exemplo: a dinâmica do mundo continuará marcada pela disputa entre Estados Unidos e República Popular da China. E, nesta disputa, serão cada vez mais presentes as guerras, que podem ser quentes (como na Ucrânia, no Irã, na Palestina e no Líbano) ou mornas (como a disputa de tarifas e a disputa tecnológica).
Um terceiro exemplo: a chamada “crise climática” continuará impactando pesadamente todos os países do mundo, mas especialmente as populações mais pobres desses países. O motor dessa crise é o desequilíbrio ambiental causado pela exploração capitalista, mas os fenômenos decorrentes ganharam uma dinâmica própria e cada vez mais difícil de reverter, exigindo da humanidade medidas de adaptação de curto, médio e longo prazo.
Como decorrências destes e de outros processos, temos uma tendência à crises recorrentes, a conflitos, à polarização (política e ideológica). Noutras palavras: o mais provável, infelizmente, é que as coisas piorem um pouco antes de melhorar. Assim como é provável que, quando as coisas melhorarem, haja uma mudança qualitativa em relação à situação atual. Noutras palavras, o mundo vai mudar, as coisas não serão como hoje. Mas essa mudança pode ser – do ponto de vista da classe trabalhadora – para pior ou para melhor, a depender de quem vença a luta de classes e a luta entre Estados atualmente em curso.
Do ponto de vista do Brasil, há duas grandes possibilidades: ou o aprofundamento do modelo primário-exportador e rentista ou um ciclo de desenvolvimento democrático-popular. No primeiro caso, aprofundaremos nossa dependência externa, com submissão crescente aos Estados Unidos ou a quem quer que hegemonize o mundo. No segundo caso, converteremos o Brasil numa das potências industriais-científico-tecnológicas mundiais.
A bifurcação acima – que diz respeito a sociedade brasileira e a nosso lugar no mundo – está ligada ao resultado da eleição presidencial de 2026. A depender de quem ganhe as eleições, um rumo será escolhido. A depender de como ganhe, estará em boa medida precificado o ritmo e as modalidades do processo.
Do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem um modelo primário-exportador, rentista e dependente, a eleição de 2026 lembra a eleição de 1989. Naquela ocasião, a vitória de Fernando Collor de Mello foi determinante para a implementação do neoliberalismo no Brasil.
Já do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem uma mudança na sociedade brasileira e uma mudança no lugar do Brasil no mundo, a eleição de 2026 mantém aberta a possibilidade, mas não determina o resultado. Noutras palavras, a reeleição de Lula – a depender das condições em que ocorra – mantém aberta a possibilidade de construir outro modelo e mantém aberta a possibilidade de mudar o lugar do Brasil no mundo. Mas tudo dependerá das condições em que a vitória de Lula ocorra.
Até o momento em que esta texto está sendo escrito, onze candidaturas disputam a presidência do Brasil: Lula (PT), o filho do cavernícola (PL), Caiado (PSD), Zema (Novo), Renan (Missão), Hertz Dias (PSTU), Samara Martins (UP), Edmilson Costa (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO), Augusto Cury (Avante) e Clariana Barão (DC).
A candidatura do filho do cavernícola é porta-voz dos que defendem que o Brasil seja quintal dos Estados Unidos, siga exportador de produtos primários e um dos campeões mundiais da desigualdade social.
A candidatura de Lula é a alternativa dos que defendem a soberania nacional, a transformação do Brasil numa das grandes potências industriais do mundo e a construção de uma sociedade de bem estar. Mas também é a candidatura de setores da direita neoliberal que têm contradições com o modelo político defendido pela família cavernícola.
A preços de hoje, Lula vencerá a eleição presidencial, no segundo turno (dia 25 de outubro), por uma diferença de votos similar à de 2022. E recebendo o voto dos setores mais explorados da classe trabalhadora, dos negros e negras, das mulheres.
Mas a eleição não é hoje. A candidatura do filho do cavernícola é apoiada pelos Estados Unidos, por Israel e pela extrema-direita internacional. Seus apoiadores já demonstraram ser capazes de praticar crimes de todo tipo para atingir seus objetivos. Além disso, a candidatura do cavernícola filho conta com imenso apoio empresarial, poderosas estruturas de comunicação, ampla militância religiosa e militar, além de uma base social e eleitoral muito resiliente, disposta a votar na extrema-direita mesmo que tenham todo dia que dar explicações sobre seus crimes.
Vale dizer que a candidatura de Caiado trabalha com a seguinte expectativa: que mais cedo ou mais tarde, as crises e os desgastes da candidatura cavernícola o obriguem a sair da disputa. Nesse cenário, Caiado imagina poder receber o apoio de toda a extrema-direita e, também, de setores da direita que hoje não apoiam ninguém ou que apoiam Lula.
Mesmo que isso não aconteça, a existência de várias candidaturas da direita ajuda a levar a disputa presidencial para o segundo turno, onde a tendência é que as diferentes direitas se unifiquem. Por este motivo é que dizemos que a eleição presidencial será decidida no segundo turno e por pequena diferença.
Outro fator a considerar é que, na maioria dos estados, a disputa pelo Senado e pelos governos está sendo liderada, hoje, por candidaturas de direita. O mesmo vale para a disputa pela Câmara e pelas Assembleias Legislativas. Se esse cenário se mantiver, o segundo turno acontecerá num ambiente em que a disputa presidencial será entre Lula versus cavernícola; mas na maioria dos estados, a tendência é que o cenário eleitoral de segundo turno não seja de esquerda contra direita. E naqueles estados onde a direita ganhar a disputa pelo governo e/ou Senado; ou onde a direita alcançar expressiva vantagem no primeiro turno nas disputas estaduais, o cenário será muito mais difícil para a esquerda no segundo turno presidencial.
Nesse contexto, a existência de quatro candidaturas presidenciais lançadas por partidos autoproclamados de esquerda revela incompreensão acerca do que está em jogo nas eleições presidenciais de 2026. A hora é de unidade total contra o neofascismo e o imperialismo.
Muito mais daninha, entretanto, é a posição daqueles que estão debatendo a necessidade de um ajuste fiscal em 2027. Ou seja: cortes nas políticas sociais, mudanças nos pisos constitucionais, redução no reajuste do mínimo e das aposentadoras, contenção nos investimentos produtivos, alteração para pior na estrutura do Estado etc.
A extrema-direita diz abertamente que pretende fazer isso, caso vença as eleições. A posição da esquerda deve ser diametralmente contrária. Seguir conciliando com o sistema financeiro não apenas obstaculizaria o desenvolvimento e a ampliação dos direitos. Não precisamos de um ajuste fiscal em 2027. Do quê precisamos é libertar o país da ditadura do capital financeiro, o que exigirá superar os limites do Novo Marco Fiscal, mudar as metas de inflação e substituir a cúpula do Banco Central. Mas para fazer isso, não basta que a esquerda vença a eleição presidencial. Será preciso vencer com maior percentual de votos válidos do que o obtido em 2022. Além disso, será preciso conquistar mais governos estaduais, mais cadeiras parlamentares e, acima de tudo, será necessário ampliar o nível de consciência, organização e mobilização do povo.
No caso, significa utilizar a campanha eleitoral para explicar que o Brasil está diante de uma encruzilhada: soberania ou neocolônia, desenvolvimento ou destruição, direitos ou escravização. A classe trabalhadora brasileira está diante desta batalha existencial. Se vencermos, aumentam as chances de mudarmos nossa sociedade e o lugar do Brasil no mundo.
Neste caso – mas também no cenário oposto – será essencial reforçar os instrumentos organizativos da classe trabalhadora, a começar pelos sindicatos. Aliás, um dos grandes desafios da classe no próximo período é aumentar o percentual de sindicalização, de conscientização e de mobilização. No limite, é aí que nosso futuro será decidido.
