Por Valter Pomar (*)

Duvido que as estatísticas e a “ciência” política respaldem esse aspecto do que ele diz, mas apesar ou por causa disso Lula é reincidente em se apresentar como alguém que teria sido generoso com os ricos.
Sua frase clássica a respeito parece ter sido publicada pela revista Veja, em setembro de 2006: “A única frustração que eu tenho é que os ricos não estejam votando em mim. Porque eles ganharam dinheiro como ninguém no meu governo”.
Outra frase, sobre os banqueiros, foi publicada pela Folha de S. Paulo, em agosto de 2007: “Posso garantir que foram os que ganharam muito dinheiro neste país, no meu governo. Aliás, a parte mais pobre é que deveria estar mais zangada, porque ela teve menos do que eles tiveram”.
Quase dez anos depois, em setembro de 2026, num comício em Florianópolis, Lula perguntou: “Por que o agro é contra nós? Só pode ser uma questão de eu ser nordestino, porque se fosse por dinheiro, deveriam se ajoelhar para mim, já que nunca houve tanto dinheiro para o agro como agora”.
É provável que estas perguntas de Lula sejam exclusivamente retóricas, assim como é possível que alguém já tenha alertado o presidente sobre a impossibilidade estatística dele – em três mandatos presidenciais, aos quais se deve somar os de Dilma – ter feito mais pelos de cima, do que fizeram os demais presidentes do Brasil, absolutamente todos vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante.
Mesmo assim, as frases citadas de Lula são uma excelente demonstração da contradição mortal existente, tanto na estratégia da tendência atualmente majoritária no nosso Partido dos Trabalhadores, quanto na estratégia que prevaleceu no movimento comunista brasileiro, pelo menos entre 1922 e 1990.
A saber: a ideia de que caberia à classe trabalhadora ajudar a desenvolver o “capitalismo brasileiro”, contribuindo para eliminar seus excessos, defeitos e obstáculos.
Os comunistas nunca tiveram força suficiente para tentar levar à prática esta tese.
Já nós petistas conseguimos conquistar, por cinco e logo mais por seis vezes, a presidência da República. E colocamos o governo federal à serviço, ao menos parcialmente, daquela tese.
Qual foi o resultado disso?
Entre muitas outras coisas, descobrimos – embora a ficha ainda não tenha caído para boa parte da “cúpula” – que o maior obstáculo para reformar o capitalismo brasileiro é… o grande empresariado capitalista.
Podemos entupir essa gente de dinheiro. Eles não mudam. E não mudam porque – ao menos na época em que vivemos – o capitalismo realmente existente é isso aí que conhecemos. Portanto, inconciliável com a ampliação do bem estar, das liberdades, do desenvolvimento e da soberania de um país como o Brasil.
Podemos fazer ou falar o que quisermos. Os grandes capitalistas sempre darão um jeito de fazer com que nossa sociedade continue dependente, uma das mais desiguais do mundo, com pouca soberania s muita plutocracia política.
E os grandes capitalistas não se contentam com receber – palavras de Lula – muito dinheiro de nossos governos. Eles querem sempre mais, eles querem tudo.
Por isso o golpe e o governo golpista de 2016-2018, por isso o governo do cavernícola pai, por isso o ilegal parlamentarismo-de-emendas e o BC independente, por isso a candidatura do cavernícola filho tem o apoio que tem.
Sendo assim as coisas, precisamos escolher: ou o masoquismo que insiste nessa relação tóxica ou um divórcio litigioso que nos emancipe dessa lógica que leva o ministro Durigan a se sentir no direito e na obrigação de “justificar” que o recente aumento do bolsa família não foi “real”, foi apenas um reajuste para compensar a inflação.
Um velho anarquista espanhol provavelmente diria que “o Brasil só será realmente livre quando o último banqueiro privado tiver sido enforcado nas tripas do último latifundiário”.
Afinal de contas, gentileza com gentileza se paga.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
