América Latina: o que nos ensinam as duas últimas décadas?

Por Daniel Araújo Valença (*)

Em 1998, a eleição de Hugo Chávez inauguraria um novo período no continente latino-americano. Em decorrência da deterioração das condições de vida das classes trabalhadoras, cada país vivenciou a sua resposta ao neoliberalismo. Brasil, Bolívia, Honduras, Uruguai, Paraguai, Equador, dentre outros, pela primeira vez na história estavam sob governos liderados por expressões político-partidárias vinculadas a suas classes trabalhadoras.

À época, no campo das esquerdas, alguns governos foram vistos como “moderados” e outros como “bolivarianos”, “populistas”, cujas classificações, em regra, mais objetivavam as disputas no interior das esquerdas em cada país. De qualquer maneira, o certo é que, em alguns destes países, as organizações políticas que alcançaram o governo resolvem promover reformas estruturais, em conflito aberto com determinadas frações das classes dominantes locais e com o imperialismo norte-americano; em outros, estes governos implementam políticas públicas que transformam a vida de suas classes trabalhadoras, mas não necessariamente a correlação de forças entre as classes sociais de cada país.

Após quase duas décadas do início desse momento histórico para trabalhadores e trabalhadoras, negros e negras, povos e nações indígenas da região, populações LGBTs, em que, por vezes, não figuravam apenas como beneficiários de políticas, mas como sujeitos históricos das transformações, algumas considerações e conclusões são possíveis.

A primeira delas é que a argumentação do “fim do ciclo” desses governos, como se eles tivessem limites intransponíveis, fossem uma página derrotada das classes subalternas e página virada na história do continente, não se sustenta. Não apenas os governos de Venezuela, Bolívia e Uruguai continuam de pé, como também ascendeu a esquerda no México. Além disso, naqueles países sob domínio da direita, a polarização continua justamente com as frações das esquerdas derrubadas, por eleições ou golpe, como o petismo no Brasil, o peronismo na Argentina ou o Movimiento Revolución Ciudadana de Rafael Correa (antiga Alianza País) no Equador.

A luta de classes na região está, em verdade, ainda mais intensa e indefinida. Portanto, erraram os que acharam que o “ciclo progressista” estava derrotado e superado estrategicamente, bem como aqueles que imaginavam que, da derrocada, surgiria uma alternativa à esquerda.

Por outro lado, os governos populares que resistiram, mesmo a duras penas, foram justamente aqueles que optaram por rupturas, por processos constituintes, intervenção na economia e disputa de hegemonia, como Bolívia e Venezuela.

O Equador é um caso ímpar, pois é Rafael Correa e a Alianza País que elegem a Lenín Moreno e, eleito, este se volta para os banqueiros, empresários e o FMI, implementando a receita que levou à grande sublevação popular deste mês de outubro.

Portanto, apesar de governos como os petistas, no Brasil, e os peronistas dos Kirchner, na Argentina, terem alterado as condições de vida do povo para melhor, a hipótese de uma transformação em aliança do trabalho com o capital, de trabalhadores lado a lado com empresários e banqueiros, mostrou-se inviável no continente. Todos os governos de direita que ascenderam, não à toa, buscaram reformas trabalhistas, previdenciárias, repressão a movimentos sociais, privatizações e perseguição ao funcionalismo público, levando seus povos a condições de vida piores que as do período neoliberal da década de 1990. Trabalhadores e possuidores, portanto, têm interesses opostos e insuperáveis.

Dessa maneira, a história nos provou que, independentemente da ousadia de nossos governos, não há alteração na posição das elites locais e do imperialismo norte-americano: no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Bolívia, no Equador, em todos os países estes atores agiram para destituir qualquer projeto de cunho popular.

Mas, se países como Brasil viram seu processo progressista ruir facilmente, Bolívia e Venezuela, ao convocar processos constituintes e alterar a lógica estatal, retomar o papel do Estado na economia, disputar abertamente a luta cultural e de ideias contra as antigas classes dominantes, mostraram que, mesmo com embargos imperialistas ou boicotes econômicos patronais, é possível resistir e construir uma alternativa popular.

Os golpes de Estado e governos de direita na região apenas apontam, uma vez mais, a atualidade da necessidade de um projeto político socialista, voltado a superar a dependência dos Estados Unidos, a superexploração dos trabalhadores e a ausência democrática em nossa região

(*) Daniel Araújo Valença é professor da graduação e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), coordenador do Gedic e militante do Partido dos Trabalhadores.

(**) Publicado em Brasil de Fato

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