Aracruz e o fascismo

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Aracruz e o fascismo

Por Iriny Lopes (*)

O atirador dentro da escola

O atentado em duas escolas de Aracruz, no dia 25 de novembro, realizado por um ex-aluno de 16 anos, filho de policial militar, e que resultou na morte de três professoras e uma estudante, além de 11 feridos, completa um mês. Este Natal será de dor e ausência para as famílias das vítimas fatais e das que foram feridas, sobretudo de duas (uma professora que não teve o nome divulgado e a estudante Thais Pessotti da Silva, de 14 anos) que ainda estão hospitalizadas, além de um trauma difícil de superar para toda a comunidade escolar de Aracruz.

O ataque revela o quanto as células nazistas se multiplicaram nos últimos anos. Chama a atenção a escolha das vítimas: a grande maioria mulheres, em assassinatos planejados em pleno Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Tipos de crime marcados pela simbologia. A ideologia nazista se alimenta do ódio às diferenças e da desigualdade. Sobre mulheres, o ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, expressava o máximo da concepção misógina do nazismo, ao afirmar que “a missão das mulheres é ser bonita e trazer crianças ao mundo”. Não espanta, portanto, que os alvos do atirador tenham sido prioritariamente femininos.

Esse atentado ocorreu três meses após outro jovem, Henrique Lira Trad, 18 anos, também filho de PM, invadir uma escola municipal em Jardim da Penha, em Vitória. Armado de arco e flexa, facas e bombas caseiras, o jovem, ex-estudante da unidade escolar, foi contido por policiais, antes que conseguisse o intento de “matar de seis a sete pessoas”.

Infelizmente, a tragédia de Aracruz não foi um caso isolado no Brasil. Levantamento feito pelo Grupo Temático de Educação da equipe de transição de Lula sobre atentados em escolas aponta que “desde o início dos anos 2000 já ocorreram 16 ataques, dos quais quatro aconteceram neste segundo semestre de 2022. Ao todo, 35 pessoas perderam suas vidas e 72 sofreram ferimentos”.

Importante notar que em todos os casos emblemáticos o ideário nazista estava presente. No Espírito Santo, os criminosos de Aracruz e Vitória tinham como exemplo o massacre em 2019, um colégio de Suzano (SP), onde dois ex-alunos causaram 8 mortes e 11 feridos, e demonstravam admiração pelo mentor do ataque, Guilherme Taucci, que se cultuava o nazismo. Taucci matou o outro atirador e depois se suicidou após o atentado.

É preciso frisar que as ameaças às unidades escolares não são novas, mas que alcançaram outro patamar na última década, especialmente após a ascensão de Bolsonaro ao poder. Com os decretos de armamento desenfreado, hoje temos cerca de 1,9 milhão de armas em circulação no país (dados de junho de 2022), registradas na Polícia Federal e Exército e sem qualquer controle. O número de CACs(Colecionadores, Atiradores e Caçadores) passou de 117.467, em 2018, para 673.818 até julho de 2022. Cada CAC pode adquirir até 60 armas, sendo 30 de uso restrito. Para colecionadores, o arsenal é ilimitado. O país, que em 2019 tinha 348 clubes de tiro, hoje tem quase 2.100. Civis, em 2022, têm mais armamento que todas as forças de segurança juntas, e armas de CACs sem controle têm ido parar nas mãos de grupos criminosos, como milícias e facções internacionais do tráfico de drogas.

O fascismo cresce sem ser incomodado pelas autoridades. E nesse cenário de incentivo à violência, propagação do ódio e intolerância combinados com o armamento descontrolado, e legislação falha para conter fake news e grupos extremistas na internet, é que se viu a multiplicação de células nazifascistas.

Em menos de um ano, o país viu o crescimento absurdo de células neonazistas. Segundo a antropóloga Adriana Dias, que acompanha esses movimentos, hoje são 1.117 contra 530 células no ano passado. A pesquisadora lembra que a escolha de escolas para ataques também não é aleatória e está relacionada ao fato do ambiente escolar ser historicamente um lugar de debate de ideias.

LAVA JATO E ASCENÇÃO DO FASCISMO

Um dos marcos desse processo de crescente fascismo no país é a desqualificação da política, acelerada durante a operação Lava Jato, especialmente pelos agora eleitos Deltan Dallagnol e Sergio Moro, que se utilizaram de todos métodos ilegais para criminalizar a esquerda, especialmente o PT, como, escutas sem autorização, editadas e vazadas propositadamente para a grande mídia, prisões provisórias com a finalidade de forçar confissões mentirosas para incriminar o PT, a condenação de Lula sem provas e sua prisão absurda por mais de 500 dias para retirá-lo do processo eleitoral e garantir a eleição do fascista Jair Bolsonaro, e impedimentos sucessivos do direito à defesa de Lula. Importante destacar a omissão do Supremo Tribunal Federal em toda essa prática de lawfare, incluindo o grave grampo de celular da então presidenta Dilma Rousseff, algo inimaginável em uma democracia.

A direita não conseguiu engolir a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. Aécio Neves, assim como Bolsonaro, entrou no TSE questionando o resultado eleitoral, mesmo sabendo que não havia nada de errado. Essa foi a senha para o golpe contra Dilma. A mídia, pautada pelo mercado (porque integra essa elite) e interesses internacionais nas reservas naturais brasileiras, absorveu e disseminou o discurso anti-PT e o Legislativo consumou um golpe parlamentar, contando, de novo, a omissão do Judiciário, em um impeachment desprovido de consistência. Um golpe contra a esquerda construído passo a passo, que agregou o machismo e a misoginia.

O neoliberalismo, lembra Marilena Chaui, tem uma lógica totalitária e opera como se todas as esferas da sociedade e o Estado fossem empresas “a serem geridas” e que todos os conflitos devem ser resolvidos no Judiciário. A judicialização da política é na verdade, diz Chaui, a expressão dessa desinstitucionalização do espaço público, a desinstitucionalização da política, a impossibilidade de trabalhar efetivamente os conflitos políticos e econômicos a não ser sob a forma jurídica.

Após o golpe contra Dilma, com a ideologia reacionária em franca ascendência, com auxílio da Lava Jato, veio o novo golpe, que foi a condenação sem provas e a prisão ilegal de Lula, para facilitar a eleição de Bolsonaro. Diferente da direita, que resolve seus problemas recorrendo ao Judiciário, a extrema-direita coloca em dúvida essa maneira de reinstitucionalizar o conflito pela via jurídica. Guedes e outros colocados pelo mercado não conseguiram tutelar o fascista Bolsonaro. E criou-se o caos e a destruição do país.

Nesse contexto de fascismo institucional, com decretos facilitadores de armamento, de incentivo à propagação de milícias, as células nazistas se ampliaram em muito.

Após o golpe contra Dilma, aconteceram dois atentados em unidades escolares (em 2017 e 2018), com dois mortos e seis feridos, mas foi após a posse de Bolsonaro que ocorreu o pior massacre: o de Suzano, onde dois ex-alunos de uma escola estadual assassinaram oito pessoas(incluindo o tio de um dos atiradores) e feriram 11 e depois se mataram. De lá até hoje, mais cinco ataques, incluindo o frustrado em Vitória e o mais recente, de Aracruz.

A não repetição desses trágicos episódios exige, por certo, uma análise bem complexa, mas de antemão sabemos que as fórmulas milagreiras sempre apontadas pela direita são frágeis e se mostram oportunistas, como a chance que muitos enxergam de favorecer empresas de segurança, de reduzir a maioridade penal, por exemplo, ou de encher as unidades escolares de equipamentos, guardas, como se a própria escola se transformasse ela mesma em um espaço privativo de liberdade.

O medo e a insegurança são sentimentos legítimos, mas fortemente manipulados pelos nazifascistas para impor a violência, o controle social e destruir direitos. Democracia, algo que grupos totalitários desconhecem, não é uma forma de governo, mas de sociedade. E não espanta que sejam as escolas os alvos de células nazistas. A tentativa violenta de calar o pensamento, a crítica, seja pela imposição da Escola Sem Partido, ou na sua forma mais cruel, de incentivo ao massacre em unidades escolares e de perseguição às diferenças, às liberdades individuais e coletivas vão encontrar sempre as resistências de quem defende a democracia e a liberdade de pensamento.

A desesperança, inclusive nas instituições, o medo e a tristeza são sentimentos mobilizados pelo fascismo. O enfrentamento a essa dura realidade, que não acaba com a derrota eleitoral de Bolsonaro, passa pela nossa capacidade de recuperar a utopia, a alegria e a esperança, que se materializam em sonhos coletivos, em acreditar no que há de humano em nós e que não cabe no individualismo.

(*) Iriny Lopes é deputada estadual (PT ES)

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