Coerência e algumas perguntas

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Coerência e algumas perguntas

Por Egydio Schwade (*)

Se acreditamos que a sabedoria é vivida nas periferias, por que na hora da escolha das nossas assessorias de governo, as ignoramos e procuramos o centro? Se sabemos que só nossos companheiros, os “milhões de Lula”, conhecem todos os caminhos do país, por que chamamos os adversários históricos para nossos guias? Basta exaltar em discursos a sabedoria dos humildes, dos ‘mansos, dos ‘proletários’ e depois, no governo, nos rodearmos dos “heróis da pátria”: agronegociantes, banqueiros e a elite que comanda os ‘300 picaretas’ do Congresso?

Em 1985, com apenas 6 deputados federais, dois deles foram expulsos, por votarem contra a orientação do Partido. (Um deles, o Airton Soares, inclusive, foi um dos grandes lutadores pelas causas populares, durante a Ditadura Militar). Apesar disso, em 1989, em sua 1ª participação em eleição à Presidência da República, o PT teve do seu lado as bases unidas, nas avenidas, ruas, rodovias, estradas, trilhas e varadouros do país inteiro. E bases e Direção Nacional unidas, levaram o PT ao 2º turno. Não terá sido a coerência em torno dos seus princípios que obteve este milagre? Por que hoje, como maior partido do Brasil, com amplos recursos financeiros e pomposas sedes, em todas as capitais do país, não mais consegue esta agitação popular nacional?

Recordo-me que apesar do sucesso de 89, no ano seguinte, os dirigentes nacionais iniciaram a guinada para a direita que vem sendo imposta até hoje, argumentando que “só assim o PT chegaria ao poder”. Não será este o motivo por que as bases foram abandonando ruas e trilhas?

Nas eleições de 1994, o nosso PT, já não contou mais com o mesmo entusiasmo de 89. Naquela eleição o vice de Lula, o Bisol, um homem integro, indicado pelo nosso Partido aliado, o PSB-Partido Socialista Brasileiro, foi caluniado pela mídia das elites de forma semelhante ao que fizeram, recentemente, contra Lula. Os dirigentes do PT, dando ouvidos aos caluniadores, substituíram Bisol pelo companheiro Mercadante. Não terá sido o início das dúvidas que levaram este aliado das primeiras horas, a desconfiar até hoje do PT, como aliado? E até ter originado as divisões internas que este aliado vem sofrendo hoje?

E creio que foi nas eleições, de 1998 que os dirigentes nacionais, a frente o próprio Lula, decidiram passar por cima das decisões das bases no Rio de Janeiro, descartando o nosso candidato Wladimir Palmeira, para Govenador daquele Estado, impondo a familia Garotinho. Não terá sido a origem dos problemas que o PT enfrenta até hoje naquele Estado?

Não ocorreu e ocorre o mesmo no Ceará, no Pernambuco, no Maranhão e agora na Bahia, com o PT das bases conflitando com as trapalhadas da Direção Nacional, impondo a direita, contra as decisões da base, como a família Gomes no Ceará e no Maranhão a família Sarney, extrema direita, principal sustentáculo político do Regime Militar?

Ouço comentários frequentes: o PT está fraco em Roraima, no Amazonas… A direção nacional já se perguntou com seriedade, sobre o porquê desta situação? Eu já vi o nosso partido muito animado e unido nestes estados, principalmente aqui no Amazonas. Os dirigentes nacionais já se perguntaram por que o nosso melhor quadro de militantes do Amazonas, (Osvaldo Coelho, Marcus Barros, Aloisio Nogueira, Ribamar Bessa… para citar apenas alguns) deixou o Partido? E por que temos hoje, como presidente do PT-Amazonas, uma pessoa alinhada com o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, defendendo mineração em áreas indígenas e o desmantelamento das áreas de proteção ambiental? E tudo isto sem constrangimento da Direção Nacional? E os índios e nós militantes da causa indígena, não tivemos que engolir ou ver alçado a Ministro e líder do governo do PT no Senado o maior inimigo dos povos indígenas e cínico perseguidor de nós indigenistas? Falo de Romero Jucá. Isto não é uma agressão contra os militantes dos estados da Amazônia e aos princípios do Partido? Hoje, apesar do golpe contra o PT, “com o Supremo e tudo”, já escuto vozes, de gente correndo atrás do Jucá, para ser, de novo, o nosso orientador nas próximas eleições em Roraima. Então, pode-se estranhar a estagnação do PT nestes estados?

Reconstituam o mapa das eleições de 2014 e de 2018 e vejam se encontram um pontinho vermelho, no reino do agronegócio? E algum dos “amigos azuis”: Mággi, Rodrigues, Kátia, Meirelles, Levy… visitou Lula na prisão?

Não nos iludamos, uma vez no poder, a direita vai se impor sobre Lula, como o fez entre 2003 e 2010. E então nem os dirigentes do PT e muito menos, as bases marginalizadas, garantirão os princípios do Partido. A direita, quando não consegue impor a sua ‘excre-ciência’, por vias do diálogo, o fará por golpes, como o fez contra a Dilma. A falta de ética, a exploração dos mais fracos, a traição, a covardia, a busca de privilégios, não são essência das elites? Então, não é, no mínimo, uma ingenuidade imperdoável, aliar-se a este tipo de gente?

Em meio ao clamor mundial, pela defesa e cuidado com a Amazônia, não se tornaria hoje mais importante garantir bons governos para os estados desta região, onde ainda há quem vive nosso objetivo base, o socialismo nu e cru, do que garantir o comando sobre o centro do capitalismo?

Não está mais do que na hora, de os dirigentes do PT, a frente o nosso querido companheiro Lula, reconhecerem e avaliarem as consequências da incoerência que marginalizou as bases, o povo, os “milhões de Lula” e desprezou o esforço de muitos(as\) companheiros(as)? Qualificar as incoerências com verdade? Voltar a valorizar as bases e os(as) companheiros(as) feridos(as),? Retomar os princípios, a rota original do PT? Enfim, retomar um caminho consistente que valorize e fortaleça o povo brasileiro? Ou vamos adiar, mais uma vez, indefinidamente, a sobrevivência do capitalismo genocida que pesa há 5 séculos sobre o povo brasileiro?

Nunca as elites que comandam o nosso país desde 1500, estiveram tão desmascaradas e desmoralizadas. E nunca tivemos um momento tão favorável para enfrentar o regime das Capitanias Hereditárias que hoje ameaçam o último reduto da humanidade: a Amazônia. Não é hora de nos aliarmos aos Guaranis do Sepé Tiaraju, aos negros de Palmares, aos cabanos, aos farrapos, aos heróis de Canudos? Fortalecer o socialismo dos povos originários, libertar os negros da escravidão dos preconceitos, fortalecendo o regime de vida que os mantém vivos. O socialismo cresce não apenas com palavras, mas levando a sério a quem o vive, como certeza de uma nova Terra, de um novo céu, de um outro mundo possível, de uma mesa farta para todos. De um CARNAVAL DE FELICIDADE PLENA!

Casa da Cultura do Urubuí, 01 de março de 2022,

(*) Egydio Schwade é filósofo, teólogo e indigenista

Este post tem um comentário

  1. Maria Luiza de C. Guimarães

    Emocionante texto de Egydio Schwade Verdade. Verdadeiro. Me representa.

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