Publicado originalmente no Brasil de Fato, por Kátia Marko

A denúncia do sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro e da primeira-comandante e deputada Cilia Flores pelos Estados Unidos, a defesa da autodeterminação dos povos e a articulação de uma rede de mobilização marcaram o lançamento do Comitê de Apoio e Solidariedade à Venezuela, realizado na noite desta quinta-feira (15), na Casa Diógenes, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. O encontro reuniu representantes de entidades culturais, dirigentes políticos, militantes internacionalistas e integrantes de movimentos populares.
Organizado pela Associação Cultural José Martí e pela Casa Diógenes de Oliveira, o ato começou com um minuto de silêncio em homenagem aos 32 combatentes cubanos assassinados pelo Exército dos Estados Unidos durante a operação em Caracas que resultou no sequestro do presidente Maduro e de Cilia Flores. Foi lembrado que nesta quinta-feira os corpos dos combatentes retornaram a Cuba.Na abertura, o jornalista Guilherme Oliveira, da Casa Diógenes, apresentou o espaço e destacou a importância da casa como centro de debate político e enfrentamento às ditaduras. Em seguida, Senira Beledelli, secretária da Associação Cultural José Martí, explicou o objetivo do novo comitê: “Para formar uma ponte de solidariedade com a Venezuela e o seu povo”.
Eleições na Venezuela e crítica ao capitalismo

O juiz de direito Rui Portanova detalhou o funcionamento do sistema eleitoral venezuelano e ressaltou a existência de um poder eleitoral independente. “Lá são cinco poderes: o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, o Poder popular e o Eleitoral”, disse. Portanova relatou que atuou como observador em eleições no país e descreveu o modelo de votação eletrônica com conferência em papel, acompanhada por fiscais de todos os partidos. Para ele, as críticas ao processo eleitoral fazem parte de uma ofensiva mais ampla: “O imperialismo com violência a favor do capitalismo”.
“É por causa do petróleo. É um presidente da América, do capitalismo, colocando toda a sua força para promover um sequestro, provavelmente em função do petróleo. Isso é uma avaliação pessoal, porque, no inverno, eles dependem das lareiras e do gás”, afirmou. Para ele, “o inimigo é o capitalismo”, e isso não pode ser perdido de vista.
Portanova entende que o comitê deve manter o foco na denúncia de um sistema que classificou como “exploratório e violento”, sobretudo contra mulheres, negros e pobres, e atuar para “fazer barulho contra o capitalismo e essa forma de imposição”.
Defesa da soberania e frentes da Revolução Bolivariana
Falando diretamente da Venezuela, Yhonny Garcia Calles, coordenador do Movimento de Amizade e Solidariedade Venezuela/Cuba, funcionário do Banco da Venezuela e assessor do Conselho Nacional Eleitoral, agradeceu a iniciativa brasileira e classificou como violação do direito internacional as ações praticadas pelo governo dos Estados Unidos. “Isso, evidentemente, viola todo o direito internacional, viola a Carta das Nações Unidas e o direito à autodeterminação dos povos”, afirmou, ao comentar o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-comandante Cilia Flores.
Garcia Calles disse que a solidariedade internacional é uma das forças do povo venezuelano. “Para nós, hoje, é um orgulho saber que, a partir de Porto Alegre, surge um dos primeiros comitês de solidariedade pela liberdade do presidente Nicolás Maduro e da companheira Cilia Flores”, declarou. Ele criticou estereótipos sobre a situação no país. “É uma falácia dizer que na Venezuela estamos comendo os animais no zoológico. É assim que o império classifica os povos latinos, como selvagens”, disse. Também comentou a questão do petróleo, ao relatar que empresas norte-americanas deixaram o país em 2019 após a imposição de sanções.
Ele apresentou o que chamou de três linhas estratégicas de atuação do movimento venezuelano. A primeira, segundo Calles, está voltada à preservação da paz e da tranquilidade do povo. A segunda envolve a “batalha judicial, política e solidária” pela libertação de Maduro e Flores. Já a terceira tem como foco a manutenção e o fortalecimento do que definiu como “o poder da Revolução Bolivariana”, com a consolidação do poder popular e comunal e a transição ao socialismo.
Em tom crítico, afirmou que o governo de Donald Trump “pretende impor, com a diplomacia das canhoneiras e das bombas, o futuro dos povos deste continente e do mundo”, e que a ofensiva contra a Venezuela também ameaça países aliados, como Cuba, que chamou de “ilha da solidariedade e da liberdade”.
Solidariedade, informação e geopolítica
A vice-presidente municipal do PT de Porto Alegre, Maristela Maffei, destacou o papel das mulheres venezuelanas na resistência e afirmou ter se sentido pessoalmente atingida ao comentar o caso de Cilia Flores. “Ela apareceu para nós como uma pessoa que foi profundamente violentada, eu me senti, enquanto mulher, profundamente violentada, machucada física e espiritualmente”, declarou. Maffei também lembrou a ajuda enviada pela Venezuela ao Brasil durante a pandemia, citando o envio de respiradores a Manaus.
Eneida Brasil, do Comitê Suprapartidário Lula Livre pela Democracia na Cidade Baixa, de Porto Alegre, defendeu a construção de narrativas alternativas às versões predominantes nos grandes veículos. “Acho que tem que constituir, a partir desse comitê, a construção de uma contra-informação, para a gente se alimentar disso e poder fazer uma discussão mais qualificada”, afirmou.
O vice-presidente do PT no Rio Grande do Sul, Julio Quadros, avaliou que há uma mudança na conjuntura internacional e que o confronto político se tornou mais direto. “Antes nós brigávamos diretamente com os propósitos do capitalismo e com os propósitos do imperialismo. Agora a briga é direta com o real representante do imperialismo.”
Para ele, Trump e representantes das indústrias armamentistas e do petróleo se deram conta que “ou eles agem agora ou eles vão perder a disputa histórica com a República Popular da China, com os Brics e com o que está do lado de cá”.
Quadros destacou que o ato não é isolado e chamou a atenção para o perigo do imperialismo. “Não há essa história de ‘química’ com Lula, isso é uma grande bobagem”, afirmou. Para ele, a defesa da soberania deve se estender a outros países e povos. “Cuba, México, Colômbia, Uruguai, assim como os povos da África e da Ásia, todos merecem a nossa solidariedade na luta por liberdade”, declarou.
Representando a Brigada Internacionalista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cha Dafol relatou a experiência de viver na Venezuela e criticou o contraste entre a realidade observada no país e a imagem difundida pela imprensa internacional. “A minha vivência na Venezuela foi morar num país e ler na imprensa internacional coisas que não tinham nada a ver com o país onde eu estava”, afirmou.
Dafol reconheceu a crise econômica dos últimos anos, que atribuiu ao bloqueio dos Estados Unidos, mas disse que houve recuperação recente. “Hoje, 91% dos alimentos consumidos no país são produzidos no próprio país”, declarou, destacando políticas de diversificação econômica e incentivo à agroecologia.
Linhas políticas e propostas
O ato seguiu com discursos de representantes de outras entidades que se somam ao comitê. Também foram debatidas as linhas políticas comuns acordadas em nível continental. Entre elas, a defesa de uma campanha internacional pela “liberdade de Maduro e Cilia”; a rejeição da alegação de que Delcy Rodríguez é aliada dos EUA e que a invasão de 3 de janeiro foi um “ataque cirúrgico”; a rejeição de entender a invasão como promoção da democracia, mas sim como “roubo de petróleo”; e a “Venezuela não é uma ditadura, mas uma democracia popular”.
O grupo também definiu uma agenda de iniciativas, como a organização de brigadas de solidariedade para visitas de movimentos sociais à Venezuela, “a fim de romper o bloqueio midiático”; a promoção de intervenções culturais; a divulgação do Boletim Venezuela em Foco e o fortalecimento da Rede Continental de Mídia e Comunicadores da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba) para cobertura conjunta de mobilizações.
Batizado de Comitê Diógenes de Oliveira, o grupo segue em articulação. Neste domingo (18), estará nos Arcos do Expedicionário, na Redenção, das 10h às 16h.
