Em vez do “cavalo de Troia” Alckmin, PT precisa é de “cavalo de pau” na estratégia

Em vez do “cavalo de Troia” Alckmin, PT precisa é de “cavalo de pau” na estratégia

Em vez do “cavalo de Troia” Alckmin, PT precisa é de “cavalo de pau” na estratégia

Debate virtual organizado por três correntes internas do PT e por lideranças da esquerda petista reuniu mais de 300 militantes do Brasil todo em 4/3 — e confirmou enorme repúdio aos planos de fazer do ex-governador Geraldo Alckmin o vice na chapa de Lula. Decidiu-se prosseguir o debate sobre a vice (publicamente e nas bases), abrir o debate no Diretório Nacional do PT em 18/3, envolver outros setores petistas na construção de uma candidatura a vice de perfil antineoliberal, politicamente confiável, mulher — e insistir na centralidade do debate programático  

Por Pedro Pomar (*)

É surreal que esse golpista/tucano tenha sido cogitado pelo PT, é inacreditável, nos descaracteriza completamente. O partido de esquerda com um candidato ultraliberal como vice”.

O comentário telegráfico de Amanda Almeida, anotado no chat em tom de desabafo e indignação, sintetiza as preocupações e o gigantesco mal estar e inconformismo da militância petista com a “solução Geraldo Alckmin” defendida por um setor do PT.

Inconformismo que Amanda e muitas outras e outros — entre mais de 300 participantes do encontro virtual nacional ( acesse aos debates aqui ) realizado em 4 de março para discutir a questão da candidatura a vice-presidente(a) na chapa de Lula — expressaram na ocasião, verbalmente ou por escrito.

Convocado por três correntes internas do Partido dos Trabalhadores — Articulação de Esquerda (AE), Democracia Socialista (DS), Militância Socialista (MS) — e por lideranças como José Genoíno e Rui Falcão, o encontro cumpriu seus principais objetivos ao longo de três horas de discussão: quebrou o “pacto de silêncio” sobre a questão; socializou novas informações e avaliações sobre o ex-governador Alckmin (e reforçou a rejeição ao seu nome); por fim, a partir da forte unidade de pontos de vista das e dos militantes presentes, aprovou encaminhamentos importantes contra o plano de colocar um “cavalo de Troia” neoliberal ao lado de Lula.

O “pacto de silêncio” só existe no tocante às instâncias partidárias. Os membros da direção nacional que conduzem negociações não autorizadas, e o próprio Lula, têm se manifestado nas mídias sobre o assunto “vice”, na linha do “fato consumado”.  A reunião de 4 de março não foi oficial e não envolveu instâncias partidárias, mas constituiu um canal legítimo para que parte da militância expressasse seu desagrado e desacordo com as manobras que buscam emplacar o nome de Alckmin como vice de Lula.

No encontro, algumas falas fortes apontaram a interdição do debate prévio nas instâncias. Liderança histórica, Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre, de imediato expressou sua insatisfação com esse fato. “Esse debate que estamos fazendo deveria estar sendo feito neste momento no Diretório Nacional do partido, sendo pautado para todas as direções estaduais, para nossos encontros regionais, que vamos fazer para esse processo”, disse ao iniciar sua manifestação.

“O Diretório Nacional nestes dois últimos meses não se reuniu”, lembrou Raul ao criticar igualmente a falta de debate programático. “Estamos acompanhando esse processo pelo que diz a mídia, a imprensa, a televisão. Isso gera confusão, gera um processo que não há campanha eleitoral que aguente, não há política de longo prazo que a gente possa encaminhar. O Diretório Nacional tem que se reunir imediatamente, tem que pautar principalmente a questão de programa, e”, disse entrando no mérito, “não vejo a possibilidade de que essa pessoa [Alckmin] faça a autocrítica da sua vida política dos últimos trinta, quarenta anos”.

A pastora evangélica Wal Moraes, liderança petista negra das periferias do Distrito Federal, propôs um manifesto de protesto contra a condução de certas questões à inteira revelia do partido e em desrespeito às normas estatutárias. “A presidenta Gleisi [Hoffman] está fazendo o contrário do que diz o Estatuto do PT. Ela tinha que ter trazido em primeiro lugar todo esse debate da vice-presidência do Lula, todo esse debate de federação, primeiro nos zonais, nos setoriais, nas secretarias, nos núcleos, para depois esse debate estar acontecendo na Executiva Nacional e nos diretórios”.

Outra que apontou o desprezo pelas instâncias coletivas do PT foi Natália Sena, integrante da Executiva Nacional do partido e dirigente da AE. “Esse deve ser o primeiro espaço convocado para debater livremente o assunto vice-presidência. Nenhuma instância se reuniu para debater isso. Aliás, desde dezembro até hoje as instâncias nacionais do PT, quando se reuniram, e foi pouco, foram consumidas pelo debate sobre federação. Vice não foi sequer um assunto”.

Esse primeiro êxito do 4 de março, a quebra do “pacto de silêncio”, teve além disso outros desdobramentos, fazendo o contraditório chegar com força na mesma mídia que tem veiculado quase exclusivamente o “fato consumado”. Assim, a Folha de S. Paulo  e o Valor publicaram matérias relativamente extensas sobre a reunião — e essencialmente corretas (confira aqui e aqui ).

A reportagem de Catia Seabra na Folha destacou as falas de Genoíno e Rui, ambos ex-presidentes nacionais do PT, de Renato Simões, coordenador do Setorial Nacional de Direitos Humanos, do sociólogo Celso Marcondes, de Joaquim Soriano, dirigente da DS, e de Raul. Já a coluna de Andrea Jubé no Valor reproduziu trechos de contundentes vocalizações de Wal Moraes e de Carrapa, experiente militante do Rio de Janeiro.

Ambos expuseram no encontro, com enorme clareza, a fratura que a “solução Alckmin” deverá criar entre a candidatura Lula e as bases sociais do PT (o “ponto de vista das favelas, comunidades, metrô, estações de trens, barcas”, como definiu Carrapa), por ser elitista e antagônica ao programa popular, democrático e de profundas transformações que cabe ao PT defender nesse momento histórico.

Mulher na vice!

Ao final do debate foram aprovadas as seguintes propostas: 1) prosseguir o debate (publicamente e nas bases do partido) e exigir que o assunto seja amplamente discutido na reunião do Diretório Nacional do PT convocada para 18 de março; 2) reafirmar a necessidade de um Encontro Nacional de Tática do PT para decidir sobre a candidatura à vice-presidência; 3) procurar outros setores do partido tanto para ampliar o debate interno, como para construir uma candidatura a vice com o seguinte perfil: mulher, negra e/ou jovem, antineoliberal, de confiança política; 4) “insistir na prioridade do debate programático”, frente à deliberada omissão das questões programáticas nas declarações de lideranças do partido envolvidas na operação pró-Alckmin. 

Vários oradores defenderam a necessidade de se definir um nome alternativo a Alckmin, como forma de “sair da defensiva” e dar outros rumos ao debate da questão. Quem melhor argumentou nessa linha foi Rui Falcão. “Nós temos que começar a pensar em que candidatura [a vice] serviria mais a um perfil de um programa de transformação e recuperação do país. A ideia de que tem que ser um homem está dada? Poderia ser também uma mulher, uma companheira”, sugeriu Rui.

“Mais de metade da população brasileira é formada por mulheres. Mais da metade do eleitorado é formada por mulheres. A maior faixa de rejeição ao Bolsonaro está entre as mulheres e os jovens. Portanto, podemos trabalhar com outras alternativas, e esse é um debate que deve seguir, não dar como fato consumado, levar ao Encontro Nacional e ganhar adesões, para que o companheiro Lula possa sentir, no contato com a população, que essa [Alckmin] não é uma alternativa que nos convém”.

Wal Moraes, por sua vez, defendeu a candidatura de uma mulher negra. “Não tem como nós, ativistas sociais, apoiarmos uma candidatura de Alckmin. Um ‘mauricinho’ da elite de São Paulo, que não gosta de mulher, que não gosta de preto, que não gosta de pobre”, definiu ela. “Nós, ativistas sociais, defendemos como vice-presidente do Lula uma mulher preta. Não decidida pela Executiva Nacional, mas depois de ouvir todas as mulheres pretas do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores”.

Jésus Lima, ex-prefeito de Betim (MG), repeliu a hipótese de Alckmin na vice: “Os adversários vão bater com força: ‘Os caras sempre brigaram, mas agora se juntaram, tem que votar no outro’. É um risco muito grande. O pragmatismo tomou conta do nosso partido. E com o Fundo Eleitoral a questão da democracia está ficando cada vez mais a desejar. Então esse movimento é para ter democracia interna, transparência com o Erário, porque o Fundo Eleitoral é dinheiro público”, disse, rejeitando a ideia da “marmita pronta”, ou seja: da imposição de candidaturas, inclusive externas ao PT, sem discussão. “Isso não é bom para o nosso partido. Nosso partido cresce se tiver democracia, se tiver transparência”.

“Nós temos que acrescentar propostas concretas, saindo desse encontro, no positivo. A vice do Lula tem que ser uma mulher, e mulher negra. Isso é um elemento extremamente importante para trazer os desiludidos com a política, é um fator decisivo na eleição. Uma mulher, e uma mulher negra”, enfatizou Jésus. O ex-prefeito chegou a propor o nome da ex-ministra Nilma Lino, da Igualdade Racial, “uma mulher fantástica, que pode ser a vice do Lula”.

Cristiano Cabral, militante do PT baiano, propôs conjugar a questão programática com a indicação de nomes alternativos para a vice, de modo a criar um marcante contraste no Encontro Nacional de Tática do PT: “Aqui tem Alckmin de um lado, tucanato, e do outro lado temos companheiras como Natália Bonavides, deputada federal pelo RN; como Vilma Reis, militante do movimento negro; como Maria Marighella, vereadora de Salvador” (ele ressalvou que as indicou sem consultá-las).

“Esta aliança na verdade é um pacto com o tucanato. E coloca o PT como possível fiador de um novo pacto das elites”, externou Cristiano. Advertiu que a estratégia de conciliação de classes vai levar a uma situação desastrosa inclusive na Bahia, onde o senador petista Jacques Wagner, que era forte candidato ao governo estadual, “capitulou, para entregar para a direita”, enquanto a política de guerra às drogas da gestão atual dá prosseguimento ao extermínio da juventude negra: “Três jovens foram assassinados pela Polícia Militar da Bahia, e o governador Rui Costa está em silêncio obsequioso”.

Já Carrapa considera a ex-presidenta Dilma Rousseff o nome ideal para ser a vice de Lula. “Se nós passamos 2016 todo e até os dias de hoje dizendo que ocorreu um golpe contra Dilma, e agora a gente tem a possibilidade clara e manifesta de retornarmos ao governo federal [mas] não aponta Dilma como vice do Lula, estamos na verdade ratificando que a Dilma de fato mereceu a ‘pancada na cabeça’, que aquilo não foi golpe, foi impeachment. Então moralmente o PT tem a obrigação de lançar a Dilma vice do Lula”, disse. No chat, Francielle Arantes concordou: “​Por tudo que Dilma representa, por sua competência e honestidade, pela lembrança que o povo tem da vida no governo dela, só Dilma na vice nos dá segurança”.

A pastora Wal também citou Dilma elogiosamente, mas para exigir que ela participe dos processos em curso no partido. “Nós, ativistas sociais, exigimos que sejamos ouvidas e ouvidos pelo presidente Lula, que tenhamos a inclusão da presidenta Dilma, primeira mulher a presidir esse país, e que está sendo invisibilizada em todo esse processo como se ela não existisse”.

“Carta aos Banqueiros”?

O encontro de 4 de março revelou que uma parcela expressiva da esquerda petista e da militância partidária enfronhada nos movimentos sociais está enxergando com nitidez e de forma muito semelhante as graves implicações estratégicas negativas da operação pró-Alckmin, não só para um possível governo do PT como para a própria eleição deste ano. Isso porque a eventual presença do ex-governador na chapa, ao lado de Lula, poderá resultar em perda de votos e de apoio, ao invés do que alardeiam seus defensores.

“Aceitar o ex-governador de São Paulo como vice do Lula é uma concessão que pode representar a segunda ‘Carta ao Povo Brasileiro’. Hoje esse equívoco seria maior porque está exigindo concessões ao modelo neoliberal”, disse Genoíno já na abertura do debate. A “Carta aos Brasileiros”, vale lembrar, foi o documento elaborado por Antonio Palocci, então coordenador do programa de governo de Lula, às vésperas do segundo turno da eleição de 2002, para sinalizar que não haveria “quebra de contratos” com o sistema financeiro e o grande capital. Por isso ela é apelidada jocosamente de “Carta aos Banqueiros”.

Rui Falcão também recorreu a essa imagem para descrever o que representa, na sua opinião, a entrega da vice ao (ex-)tucano que por mais tempo governou São Paulo: “[Lula] Não vai ao BTG para não fazer concessões ao mercado, mas a candidatura do Alckmin aparece como apaziguadora das resistências do mercado, como uma espécie de ‘Carta aos Brasileiros’ com outro nome”.

Tanto Genoíno como Rui chamaram atenção para o caráter belicoso da campanha eleitoral em curso, dado o comportamento sórdido do bolsonarismo, e portanto a necessidade de garantir o engajamento da militância e a adesão da população. “No nosso entender esse tipo de campanha não comporta uma aliança com quem representou o projeto tucano em São Paulo, com quem representou o pensamento privatista, com quem representou um pensamento à direita”, ressaltou Genoíno.

Raul descartou, igualmente, a perspectiva de aliança com setores oligárquicos projetada na “solução Alckmin”, e que reedita, a seu ver, um antigo equívoco. “Quero lembrar que o PT nasceu na contramão de uma tendência histórica da esquerda brasileira tradicional, de busca de um projeto que era avaliado como possível, de construir uma saída, ante o domínio imperial que sofremos, numa aliança com setores da burguesia, da classe dominante brasileira. Esse tese não se sustenta”, ponderou o ex-prefeito. “O PT precisa construir um bloco no campo da esquerda, uma frente com os setores organizados da esquerda, unificar as frentes sociais que garantiram as grandes mobilizações na defesa do próprio companheiro Lula enquanto esteve injustamente preso, na defesa da Dilma”.

“Dossiê Alckmin”

Jandyra Uehara, da Executiva Nacional da CUT e da direção nacional da AE, apresentou um dossiê da trajetória de Alckmin, a começar do Programa Estadual de Desestatização lançado pelo governo de Mário Covas (PSDB) em 1996 e que coube ao então vice-governador chefiar. “Principalmente com Alckmin, a privatização do setor elétrico de São Paulo foi operada lá atrás, junto com Fernando Henrique, nos anos noventa. A consequência disso para São Paulo: só no período 1994-2001 as tarifas aumentaram 342%, numa inflação que ficou na época em torno de 92%”.

Antes de falar sobre a “capivara” de Alckmin, Jandyra contestou a narrativa de que a escolha do ex-governador como candidato a vice é uma decisão que compete a Lula e que o partido nada teria a fazer, senão concordar. “Nós somos petistas, um partido que tem uma história de democracia interna, as divergências são tratadas e resolvidas através do debate e do voto. Até porque todo grande dirigente partidário, aqui e no mundo, já tomou decisões erradas. Vamos lembrar a questão do plebiscito sobre a forma e sistema do governo, em 1993. Dois terços do nosso Diretório Nacional na época, o Lula inclusive, defenderam o sistema parlamentarista. No entanto, dois terços da base do partido defenderam, no plebiscito, o presidencialismo. A base do partido estava corretissima mantendo o presidencialismo”, enfatizou.

“Isso é o que tornou possível, anos depois, um governo Lula. Que jamais existiria se fosse no sistema parlamentarista. Basta a gente analisar a composição do Congresso desde 1994 até hoje. Ou seja: teria sido um desastre, se tivesse prevalecido naquela época a ideia de que já era um fato consumado, de que o Lula já tinha decidido e que não havia mais o que discutir”, exemplificou.

“Geraldo Alckmin foi candidato a presidente da República em 2006 e em 2018, nas duas ocasiões pelo PSDB e defendendo posições conservadoras, antipetistas e neoliberais”, prosseguiu a dirigente sindical. “No governo de São Paulo, nos dois mandatos como vice-governador e depois governador por mais três mandatos, foi o grande responsável por implementar sem dó nem piedade tudo aquilo que caracteriza as políticas neoliberais: privatizações, terceirizações, negociatas, arrocho e desarticulação total do funcionalismo público em São Paulo, corte de políticas sociais, repressão contra os pobres, os movimentos, a juventude negra, os moradores da periferia”.

No seu entender, Alckmin e os tucanos estão para o Brasil como o Chile para a América Latina na implementação da agenda neoliberal. “Ou seja: eles anteciparam, e seguem acelerando, a agenda neoliberal. Muita coisa foi implementada aqui em São Paulo e depois é que foi discutida e colocada em pauta no conjunto do país”.

O número de pessoas mortas por policiais dobrou na gestão Alckmin. “Entre 2011 e 2017, a letalidade policial aumentou 96%. A maioria das vítimas: jovens negros. Um adolescente morto por dia pela polícia do Alckmin em São Paulo”, frisou. Ela relembrou ainda o massacre de Pinheirinho em 2012, em São José dos Campos, durante uma reintegração de posse. “Milhares de policiais, uma operação de guerra, armamento pesado, helicóptero. Invadiram residências, bombas, tiros, agressão, expulsaram 1.600 famílias, sem permitir que pegassem sequer seus objetos pessoais”, relatou Jandyra.

“Em 2015, fechamento de 93 escolas, a título de reorganização da rede pública, que na verdade é o desmonte da educação em São Paulo, que atingiu mais de 311 mil estudantes”. À resistência dos secundaristas, Alckmin respondeu com brutal repressão da Polícia Militar.

“Sem falar na relação com o funcionalismo público, que tem tudo a ver com os processos de terceirização, de privatização do Estado. Negociação salarial sempre foi sinônimo de greve. Hoje o Estado tem um déficit de mais de 200 mil servidores”.

Além disso, explicou, “os tucanos patrocinaram uma crescente transferência de fundos públicos para o setor privado, através de três mecanismos básicos: terceirizações, principalmente na saúde, ‘OSS’, mas também na educação e em outros setores; privatizações; e desonerações [fiscais]”. Por tudo isso, a seu ver Alckmin “é um empecilho programático”  e “um [Michel] Temer em potencial”.

“Grande desconforto”

Mariana Janeiro, representante da MS, avaliou que o PT precisa definir tanto as diretrizes programáticas da candidatura Lula quanto a política de alianças a ser adotada, e reiterou que a decisão sobre a candidatura à vice-presidência deu-se à revelia do partido. “O debate sobre a vice do Lula parece mesmo um fato consumado, mas estranhamente um fato consumado que não passou pelas nossas instâncias. Mas ao mesmo tempo ficamos sabendo pela imprensa. Por essa dinâmica, vem enfrentando uma forte desconfiança e gerando grande desconforto no partido e na massa de militantes da nossa grande base”, opinou.

A seu ver, o desconforto deve-se também à “falta de discussões e definições prévias sobre alguns elementos que são fundamentais para que esse debate aconteça”, debate esse que o Diretório Nacional “vem postergando desde as últimas reuniões, do meio do ano passado para cá”. O primeiro desses pontos: o programa da candidatura Lula.

“Faz uma enorme falta a definição dessas diretrizes gerais do programa de governo, que no nosso entendimento devem necessariamente conter não apenas a recuperação do nosso legado e a recolocação das nossas políticas públicas super-exitosas, que foram destruídas desde o golpe, mas também devem contemplar um conjunto de mudanças estruturais na sociedade brasileira que radicalize a democracia e que coloque os direitos revogados no centro dessa construção de transformações sociais mais profundas”. Tal programa deve ter “a radicalidade que o momento exige e que confronte de fato o que está sendo imposto pela retomada dessa agenda neoliberal e pela agenda neofascista que é base do governo Bolsonaro”.

Outro elemento que faz muita falta, prosseguiu Mariana, “é a definição mais nítida de uma política de alianças, que defina o escopo de uma aliança de primeiro turno e que possa ser porta-voz desse programa para a sociedade”. E aqui não há lugar para o ex-governador: “Se o programa é democrático e popular, se as alianças são necessárias para viabilizar esse programa, não há como a gente pensar numa frente ampla, numa federação ou numa vice como Alckmin”, porque tal aliança com a direita ou centro-direita iria “diluir a mensagem necessária, importantíssima, que o PT precisa tratar com o povo”.

Assim, na “falta de uma definição nítida de uma política de alianças”, explicou ela, “a gente defende uma política de alianças democrática e popular que engloba fundamentalmente partidos como PT, PCdoB, PSOL, junto de outros partidos que estamos dialogando — Rede, PV, dadas as diferenças. Para que a gente tenha no primeiro turno uma característica mais homogênea no nosso processo de alianças”.

Por isso, esclareceu, esse processo de atração de setores de direita e centro-direita que apoiaram o golpe “deve ser deixado estritamente para um eventual segundo turno, porque no primeiro turno nós precisamos dar uma nitidez programática e uma densidade política que seja capaz de fazer a implementação desse programa”.

Também a estratégia da candidatura Lula precisa ser discutida mais amplamente pelo Diretório Nacional, defendeu ela, porque é preciso definir o que esperamos dessa candidatura: “Como ela vai se relacionar com a luta política hoje, de que forma ela vai se posicionar no espectro político da esquerda e quais as mensagens fundamentais que precisa expressar. Ela nasce como uma candidatura contra o golpe de 2016, pela democracia, pela urgência dos direitos humanos como elemento central do nosso plano de governo”, propôs.

Para Mariana, Alckmin na vice desestimularia a militância e a base petista e sinalizaria, “no mínimo, um governo de centro, de pactuação com aqueles setores que foram responsáveis pelo golpe [de 2016] e as consequências nefastas que trouxe para a sociedade”.

“Apoiou Bolsonaro, não Haddad”

Celso Marcondes, ex-diretor do Instituto Lula, disse que a esquerda vem concentrando as críticas aos planos de Alckmin vice em dois pontos: sua condição (e do PSDB) de golpista em 2016 (impeachment de Dilma) e sua atuação no governo paulista. A seu ver isso é importante, mas não basta. “A companheira Jandyra fez uma crítica implacável aos governos que ele exerceu em São Paulo. Nós temos centrado muito nesses dois pontos, mas temos que ressaltar também que ele apoiou a prisão do Lula, dar ênfase para isso. Que deu apoio à prisão do Lula e agora é colocado como possível vice do Lula, um horror”.

Outra questão a ser destacada, na sua opinião, é o desempenho eleitoral do ex-governador na eleição de 2018. “Temos que lembrar que ele teve 4,5% dos votos para a Presidência da República. Talvez nem ele nem a dona Lu [sua esposa] tenham votado nele”, ironizou. “E ele era o candidato preferencial da direita, do mercado, da burguesia. Era ele o candidato, não era o Bolsonaro”.

Porém, rememorou Celso, Alckmin “ficou tão mal nas pesquisas, e o Bolsonaro cresceu tanto, por causa da facada”, que Bolsonaro passou a ser o candidato preferencial de toda a direita brasileira. “E o Alckmin  apoiou ele! Alckmin não apoiou [Fernando] Haddad no segundo turno! O Haddad hoje é um dos principais defensores da candidatura do Alckmin [a vice]. Ele não teve apoio do Alckmin! Tem que lembrar disso”.

Além disso, recordou, o ex-governador sequer se manifestou a propósito das lutas das esquerdas em 2021 contra o governo Bolsonaro. “Não falou nada sobre a extrema-direita, sobre o fascismo que cresce no Brasil. É um absurdo. Podemos fazer uma grande ficha corrida do Alckmin que remete à questão do programa. É impossível ter um programa que tenha pontos básicos que o PT defende hoje fechando com o Alckmin. Não tem como fechar com o Alckmin e manter esses pontos essenciais do programa”.

A questão programática também mereceu a apreciação de Joaquim Soriano, que definiu como “tragédia”, a ser impedida, uma eventual ratificação do nome de Alckmin como vice de Lula, por suas implicações políticas imediatas tanto na campanha presidencial (que terá em São Paulo um de seus cenários centrais) quanto na disputa, pelo PT, do governo paulista.

“Não é pelo futuro que é tragédia, é porque ele foi governador de São Paulo durante esses anos todos. Como é que o Haddad vai fazer campanha em São Paulo? Porque o Alckmin quer estar ao lado dele [no palanque], né? Vai dizer que é um governo de continuidade, só não vai espancar professor e estudante nem tocar fogo em sem-teto? Essa que é a diferença?”, questionou.

“Como é que o PT vai elaborar uma crítica ao passado?”, insistiu o dirigente da DS. “É oposição há tantos anos e agora quer ganhar o governo do Estado. Então tem que ter uma crítica ao passado, e o passado é o governo tucano, é Alckmin. Todo mundo lembra. Então no presente Alckmin é um grande dano, porque ele bloqueia a capacidade de se fazer campanha, de disputar o governo de São Paulo”.

Natália Sena alertou para o descompasso entre os conchavos eleitoreiros e a vida na base da sociedade. “Estamos há meses encalacrados nesses debates de cúpula, burocráticos e com o chip totalmente voltado para a direita, e essa disposição que muita gente tem demonstrado de ter um cidadão do tipo de Alckmin na nossa vice-presidência é reveladora e emblemática disto”, disse, preocupada com o descolamento atual entre a campanha do PT e o mundo real.

“Essa eleição vai ser uma guerra. Não vai ser só mais um passeio”, preveniu. “Muita gente achou, em abril e maio do ano passado, quando a gente estava comemorando a recuperação dos direitos políticos de Lula, que as pesquisas eram a antecipação do resultado eleitoral, e que era só continuar no mesmo ritmo até outubro deste ano que as coisas iriam dar certo. Mas essa eleição vai ser uma guerra. As próprias pesquisas já estão demonstrando isso, na medida em que indicam a diminuição da diferença de intenção de votos entre Lula e Bolsonaro”.

Prosseguiu lembrando que a estratégia pensada por alguns é totalmente equivocada. “Apesar disso, setores da esquerda brasileira e do nosso partido seguem insistindo que o melhor e mais seguro caminho para derrotar Bolsonaro seria o da ‘frente ampla’. E uma das consequências práticas desta política frenteamplista é essa inacreditável disposição de entregar a nossa candidatura a vice-presidente para um golpista e neoliberal”.

No seu entender, as alianças pretendidas, com setores “ao centro” (na verdade à direita), impactam no discurso de campanha, na ação do governo, e podem fragilizar a luta contra o bolsonarismo e o neoliberalismo. Ela acha urgente organizar milhares de comitês populares e debater “com qual programa, com qual linha de campanha” será travada a disputa eleitoral deste ano. “Ainda tem tempo de ser dado um cavalo de pau nesse rumo que as coisas estão. O companheiro Lula precisa iniciar uma pré-campanha potente, militante, de massas, e sem nenhuma ‘âncora’ como Alckmin do lado”, resume.

Carrapa, do RJ, sublinhou alguns dos aspectos mais absurdos e kafkianos da proposta de alçar o ex-governador a integrante da chapa presidencial do maior partido de esquerda do mundo. “Na verdade não é o Alckmin que está procurando o PT. É o PT que está procurando o Alckmin, o que é mais surpreendente e assustador ainda”, realçou. “Não é que o Alckmin, oriundo do PSDB já morto, esfacelado, está procurando o PT, mas é o PT quem está procurando o Alckmin para a vice-presidência”, reforçou.

“Eu tive a infelicidade de ver alguns vídeos que me surpreenderam, do próprio Lula dizendo que o Alckmin é uma pessoa preocupada com os pobres. Isso não é verdade, pelo contrário! O Alckmin sempre foi uma pessoa preocupada sim em espancar professores, certo? O índice de assassinatos de periféricos, de negros como eu, de jovens negros das periferias e favelas do Estado de São Paulo, principalmente na capital e região metropolitana, subiu a níveis assustadores quando o Alckmin era governador”.

Ele considera “perturbador” o risco de, uma vez eleito, Lula sofrer um eventual impedimento por qualquer motivo e precisar ser substituído na Presidência. “Eu vou votar no Lula, é óbvio, sou um militante do Partido dos Trabalhadores. Mas se o vice for o Alckmin, como eu vou olhar no olho de um eleitor que vai virar para mim e dizer assim: ‘Mas Carrapa, se o Lula morrer quem vai ser o presidente da República?’, e eu ter que dizer: ‘Geraldo Alckmin’? Então no fundo nós estaremos fazendo campanha para a volta do PSDB”.

“Qual é o conjunto da obra?”

Renato Simões foi deputado estadual do PT-SP por três legislaturas (1995-2007), período que coincidiu com os dois governos de Mário Covas e o primeiro de Alckmin, que aplicaram no plano estadual “o oposto do que nós queremos para o país”. Subia constantemente à tribuna da Assembleia Legislativa para discursar: “Doze anos falando da reforma capitalista neoliberal que o Covas e depois o Alckmin fizeram em São Paulo, inclusive abrindo picada para aquilo que o Fernando Henrique veio a fazer depois”.

Ele propôs que Lula se dirija ao Diretório Nacional do PT para explicar o que está realmente pensando sobre vice, federação e alianças estaduais, “o conjunto da obra”, uma vez que a principal instância do partido tem sido deixada à margem dos seus movimentos e não há clareza como a respeito de como esses elementos se relacionam.

“As pessoas dizem o seguinte: ‘Eu sou contra o Alckmin, mas o Lula sabe o que faz’. ‘Eu não gosto muito dessa história de federação, mas é uma necessidade que o Lula está pondo’. ‘Eu não gostaria de ter um candidato de qualquer partido de direita no meu Estado, mas é preciso que a genialidade do Lula se confirme’. Então alguém acha que em algum lugar está o conjunto da obra delineado. E esse lugar não é o sujeito coletivo que nós construímos, que é o Partido dos Trabalhadores. Porque em nenhum lugar, formalmente constituído pelo PT, o conjunto da obra foi discutido”.

Renato afirmou que, em reuniões do Diretório Nacional, já propôs que Lula compareça para compartilhar o que está pensando. “Nós lutamos para tirar o Lula da cadeia para que ele nos lidere, não para que ele nos substitua. Porque a grande iniciativa política que o Lula fez, e pela qual ele passa à história, foi construir esse sujeito político plural e democrático que é o PT, e por ele ter conseguido, ao longo de sua trajetória, ser uma espécie de síntese daquilo que todos e todas nós somos e construímos. Não há como a gente enfrentar esse assunto sem que o Diretório Nacional do PT conheça pelo menos qual é o conjunto da obra pretendido”.

Para ele, programa define alianças, alianças definem estratégias, e estratégias é que definem vices. “Alckmin vice expressa uma visão de programa. E um programa que comporta o Alckmin como parceiro fundamental, inclusive para gerenciar, porque o Lula diz que não quer um vice decorativo, ele quer um vice que compartilhe com ele ações de governo. Um programa em que cabe o Alckmin não é o programa que nós precisamos para o país”, protestou.

O Brasil, disse, é governado hoje por um governo que junta a vertente neoliberal do golpe de 2016 com a vertente neofascista vitoriosa em 2018. “O nosso programa tem que ser o oposto disso. E a aliança com setores de direita, ou de centro-direita, como é o caso do Alckmin, pode e deve ser construída num eventual segundo turno, se o nosso adversário for o fascismo aberto que Bolsonaro representa”.

“Nós precisamos urgentemente colocar o assunto ‘campanha eleitoral de 2022’ no centro do debate político do PT, a começar das instâncias, para que a base possa participar daquilo que de fato nós sabemos que é, e não aquilo que é o desenhado para a vitória eleitoral do Lula em primeiro turno, que todos nós sabemos que dessa forma não vai chegar”, concluiu Renato. “E que vai nos desarmar para o grande enfrentamento de classe que nós vamos ter nessas eleições”.

(*) Pedro Pomar é jornalista e militante do PT

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