O “making of” da resolução do Diretório Nacional

Por Marcos Jakoby (*)

No dia 17 de junho foi divulgada a mais recente resolução de conjuntura nacional do Partido dos Trabalhadores (https://pt.org.br/pt-defender-a-vida-o-emprego-e-a-democracia/), a partir de um debate realizado pelo Diretório Nacional do PT, em reunião realizada no dia 15 de junho.

Falaram neste debate os autores de 7 diferentes contribuições (uma delas, apresentada pelo companheiro Patrick Araújo, da tendência petista Articulação de Esquerda). Em seguida, o Diretório deveria ter votado um texto base e, depois, ter votado as emendas a este texto base. Mas dadas as dificuldades de fazer votação em ambiente virtual, decidiu-se que o texto base seria o da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB) e que um Grupo de Trabalho discutiria as emendas e traria um texto comum para votação no DN.

Em tempos normais, o Grupo de Trabalho sairia da reunião para debater as emendas. Mas em tempos virtuais, as pessoas continuaram assistindo a reunião e o GT reuniu-se através de uma lista de zap, simultaneamente.

Participaram do GT as diferentes posições apresentadas na reunião do Diretório. Cabendo a companheira Monica Valente, em nome da Construindo um Novo Brasil (CNB), dizer quais emendas seriam incorporadas e quais não seriam, fornecendo rápidas justificativas para tal. Em tese, quem não tivesse sua emenda acolhida no GT, poderia levar o debate e a votação no DN.

Segundo o companheiro Valter Pomar, que participou do Grupo de Trabalho, uma das emendas abordava a questão das frentes e as eleições municipais: “em pleno início das campanhas eleitorais municipais, a bandeira da Frente de Esquerda é urgente, necessária e permanente. É um rumo estratégico tanto para os processos eleitorais como para unificar um campo democrático-popular próprio em torno de um programa comum. Essa política não impede incidirmos junto com outros setores uma luta antifascista e na ampliação da proposta do impedimento no Congresso Nacional. O Partido espera de sua Direção Nacional uma orientação clara”.

A emenda não foi incorporada, sob a justificativa de que a “frente de esquerda” seria um tema referente a 2022 e não agora, em que muitos municípios já estão montando suas coalizões (as vezes buscando a frente de esquerda, as vezes não) e que, na opinião da CNB, precisaríamos agora reafirmar o papel do PT como partido da classe trabalhadora e da oposição e, assim, construir as condições para então ter êxito na formação de uma frente de esquerda.

Ou seja, segue prevalecendo na CNB e, por tabela, no Partido, a lógica de pensar a luta social e política em nosso país, nos dias atuais, a partir de 2022. E, o que é pior, não percebendo que a frente de esquerda é um assunto imediato, para este momento.

A crise que vivemos é muito grave para isso e a nossa luta é para afastar Bolsonaro e seu governo o quanto antes, com novas eleições livres. Esse é o nosso objetivo tático. Construir uma política pensando em 2022 é esvaziar esse objetivo e a luta por conquistá-lo.

Se não conseguirmos afastar Bolsonaro e seu governo, não sabemos nem ao certo, dada a escalada autoritária e golpista em que vivemos, se haverá eleições em 2022 e se serão livres e democráticas. Portanto, urge construirmos uma frente de esquerda capaz de enfrentar o neofascismo e o ultraliberalismo agora, e não em 2022.

O argumento utilizado na reunião do Grupo de Trabalho sugere que a CNB é favorável “em tese” a uma frente de esquerda, mas na prática não. Pois, segundo o argumento utilizado, não podemos orientar o Partido a fazer uma frente de esquerda nas eleições municipais, sendo necessário primeiro criar as condições para formar a frente.

Mas fica a questão: as eleições municipais não fazem parte desse processo de “criar condições”? Se a maior parte dos municípios estão nesse caminho, qual realmente é o problema de a direção nacional deixar as coisas bem definidas? E se alguns dos municípios estão em vias de construir outras táticas (ou “coalizões”) que não acumulam para “criar as condições”, não seria exatamente o papel do Diretório Nacional determinar uma mudança de rumos e  apontar qual deve ser a política correta, a que estamos construindo??

Se há acordo na necessidade de construirmos uma frente de esquerda, a primeira coisa a fazer não seria exatamente dizer que defendemos isso? Orientarmos a militância e as direções em seus diversos níveis e âmbitos de atuação? Sinalizar para as demais forças políticas e sociais desse campo que essa é a nossa disposição?

Outra emenda que foi rejeitada falava da penetração do bolsonarismo nas polícias militares e dos chamados à insubordinação das tropas das polícias militares contra decisões dos governadores, falando do quanto esse processo é nefasto para a democracia.  Segundo Valter Pomar, a representante da CNB respondeu que havia acordo no mérito, mas que é um assunto de muita sensibilidade para os nossos governadores, de que era necessário primeiro conversar com eles e que se deveria tomar cuidado no tom do assunto para não atrapalhar e para não ser mal interpretado.

Como resultado, na resolução há um trecho em que se fala da polícia militar do RJ e outro, de passagem, em “politização” das policias militares. Optou-se, portanto, por não tratar do tema com a devida ênfase.

Claro que o diálogo com nossos governadores deve ocorrer e ser permanente, mas é muito estranho que a direção nacional do Partido tenha que ficar consultando governadores para aprovar resoluções sobre temas que são políticos e não administrativos.

Além disso, a preocupação tem um tom de bizarrice, pois o avanço do bolsonarismo nas polícias militares, e o fato de que muitos governadores não tem controle de fato sobre as corporações, não é nenhum segredo.

Aliás, nos dias que correm, noticiam-se as dificuldades do governador de São Paulo e de Brasília (governadores da direita) com sua polícias militares, dado o avanço e a influência do bolsonarismo em suas fileiras.

Na Bolívia, assistimos no ano passado um golpe da extrema-direita com apoio e ação das policias militares. Não é se esquivando do problema, para não criar embaraços aos nossos governadores, que também enfrentam dificuldades com tema, que o resolveremos. Precisamos fazer a nossa parte para que o problema seja enfrentado, o que exige inclusive um debate público a respeito. A violência policial e o avanço do neofascismo entre as polícias é um tema de muita gravidade para ser contornado e não enfrentado em nossas resoluções.

Outra emenda refutada tratava de um Comício Virtual pelo Fora Bolsonaro. Novamente segundo Valter Pomar, a alegação da representante da CNB no Grupo de Trabalho foi a de que a proposta seria interessante, mas ter-se-ia que debater melhor, ver quando fazer, quem chamar, formatar melhor. Ou seja, ao invés de se aprovar a emenda (já que não há divergência no mérito) e ir afinando os detalhes na Executiva e colocar em prática, posterga-se para um futuro incerto.

Ao tomar conhecimento dessa discussão acerca das emendas, fica a nítida impressão de que a cúpula da CNB – tendência a que pertence a maioria dos integrantes do atual Diretório Nacional– age, muitas vezes, no modo “deixa a vida me levar”. Não assume seu papel dirigente. Ao invés de propor, fica esperando outros proporem. Ao invés de indicar o Fora Bolsonaro, espera que a pressão se torne quase insustentável para então aprovar. Ao invés de apontar o tom dos debates, prefere consultar governadores (aliás, dois deles disseram não serem favoráveis ao impeachment). Ao invés de apontar a necessidade e urgência de construir a frente de esquerda, prefere que a dinâmica da luta social e política “crie as condições” por conta própria. Ao invés de construir ações, aqui e agora, que deem iniciativa à nossa luta, prefere postergar por insegurança política.

A situação política exige muito mais do nosso Partido. De nossa parte, lutaremos para que esteja à altura. Mas é necessário mudar a concepção, o tipo de direção e a forma de fazer a luta política que hoje predomina na direção nacional.

(*) Marcos Jakoby é professor, militante do PT e editor do www.pagina13.org.br

 

 

 

 

 

 

 

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