O PT e as dúvidas de Quaquá sobre Brazão

Por Valter Pomar (*)

 

Quaquá tem dúvidas.

Todos temos.

Mas as dúvidas de Quaquá são bastante especiais.

Dizem respeito a Brazão.

Domingos Brazão.

Brazão seria ou não seria um dos mandantes do assassinato de Marielle e Anderson?

Em janeiro Quaquá já manifestara suas dúvidas.

Sobre isso, ler aqui: Valter Pomar: “Quero ser amigo do Quaquá”

Em março, Quaquá parece seguir em dúvida.

Segundo a imprensa – que, óbvio, sempre pode estar mentindo, distorcendo ou exagerando – Quaquá seguiria em dúvida, mesmo depois das prisões efetuadas pela PF neste domingo 24 de março.

Citando palavras publicadas na imprensa: “Não vou dizer que é inocente nem culpado. Não vi ainda provas cabais. Eu o conheço há 20 anos. Será uma surpresa negativa. Foi crime brutal.

De fato, foi um crime brutal.

De fato, cabe a justiça definir se é inocente ou culpado.

De fato, cabal-cabal-mesmo só uma confissão ou algo do gênero.

Ademais, é correto ter dúvidas sobre o caso, inclusive acerca do envolvimento dos generais e do Cavernícola na trama toda.

Nada disso é problema.

Problema mesmo é conhecer Brazão “há 20 anos” e ficar “negativamente surpreso” com a, digamos, hipótese dele ser mandante de um crime.

Recomendo a Quaquá ler as 479 páginas do relatório final do caso.

Foi postado ontem no grupo de zap do Diretório Nacional do PT.

Se ler este relatório, talvez a “surpresa” de Quaquá passe.

Para facilitar, pois 479 páginas é do peru, recomendo ir direto na página 171, onde é citado um caso público, ocorrido em 2014, onde Brazão teria dito o seguinte: “Mando matar vagabundo mesmo. Sempre mandei. Mas vagabundo. Vagabunda ainda não mandei matar”.

Na página 172, um conselheiro do TCE, em depoimento à polícia, afirma que Brazão teria dito o seguinte: “Se ele fizer isso ele morre. Eu começo por um neto, depois um filho, faço ele sofrer muito, e por último ele morre”.

Na página 146 tem o seguinte trecho, da lavra dos delegados da PF: “Domingos Brazão e sua família são o exemplo dos muitos casos de sucesso no cotidiano brasileiro, que misturam o ingresso na política com uma ascensão patrimonial vertiginosa”.

Na página 132 tem uma citação de um livro do Chico Góis, publicado em 2013 e intitulado Os ben$ que os políticos fazem. Nesta citação, Chico Gois, resume assim a trajetória do cidadão que Quaquá conhece há 20 anos: “A história do menino de periferia carioca que se tornou deputado bem votado, é repleta de acusações de combustíveis, desvio de recursos, grilagem de terras, simpatia com as milícias que aterrorizam as comunidades e homicídios”.

Enfim, Quaquá não tem motivo para ficar “surpreso”.

Ninguém tem.

Nem com Domingos Brazão.

Nem com as declarações de Quaquá.

Afinal, 20 anos de conhecimento constituem motivos de sobra para ter cautela nas declarações públicas a respeito.

Entretanto, cabe ao Diretório Nacional do PT, que vai reunir-se nesta terça-feira dia 26 de março, decidir se essas manifestações públicas de dúvida são compatíveis com a condição de vice-presidente nacional do PT.

Na minha opinião, não são.

Quaquá deveria pedir, imediatamente, para sair do posto que ocupa.

E parar de comprometer o PT com suas elevadas e justificadas dúvidas a respeito.

Se Quaquá não fizer isso, alguém terá de fazer por ele.

Ou não poderá alegar “surpresa” depois.

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT

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