Sobre o capital internacional na Companhia Vale do Rio Doce

Por Gabriel Cavalcante (*)

A história da Vale do Rio Doce é um espelho das transformações econômicas e políticas do Brasil. Fundada em 1942, a empresa nasceu como um instrumento estratégico para a industrialização do país e sua inserção no capitalismo global como produtor de minério de ferro e aço. Junto a outras estatais como Petrobras, Eletrobras e a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale foi parte de um projeto de desenvolvimento nacional, impulsionando infraestrutura, tecnologia e soberania econômica.

Mas esse projeto foi interrompido nos anos 1990, quando o governo Fernando Henrique Cardoso, sob a égide do neoliberalismo, vendeu a empresa por míseros R$ 3,3 bilhões — um valor irrisório diante de um patrimônio que ultrapassava R$ 70 bilhões. A privatização, no entanto, não significou uma ruptura completa com o Estado. Por meio de um complexo arranjo societário, bancos e fundos de pensão de estatais formaram a Valepar, um consórcio que manteve certo controle nacional sobre a empresa.

A entrega da Vale se inseriu, então, no contexto de reformas neoliberais e reestruturação do Estado do governo Fernando Henrique Cardoso. De início, o controlador da empresa seria Benjamin Steinbruch, também controlador da Companhia Siderúrgica Nacional, mas que logo se retirou da composição societária. Ao longo do período entra 1997 e 2017 um conjunto bancos e de fundos de pensão de empresas estatais controlaram a empresa formando aquilo que se denominou Valepar.

A estrutura era engenhosa: enquanto investidores privados, nacionais e internacionais, detinham a maioria das ações, o poder de decisão permanecia nas mãos da Valepar, que concentrava as ações ordinárias (com direito a voto). Dentro desse grupo, fundos de pensão como Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), Funcef (Caixa) e Funcesp (empresas elétricas paulistas) tinham participação majoritária, assegurando que a política da Vale não escapasse totalmente ao interesse público.

A lógica de controle por fundos se estabeleceu a partir de composição societária que se desdobrava em ações ordinárias e preferenciais: enquanto as primeiras teriam direito ao voto na política da empresa, as últimas somente teriam direito aos dividendos. Tal estruturação fazia com o que apesar de receber aporte de capital financeiro, o controle sobre a política empresarial seria fundamentalmente desempenhado por capital nacional e com forte relação com o Estado. O acordo estabelecido após a privatização firmou que as partes detentoras das ações ordinárias não poderiam vender, ceder, ou transferi-las pelo prazo de 20 anos.

No ano de 2017, a Valepar detinha 33,7% das ações da Vale, investidores privados nacionais 12,36% e investidores privados internacionais 48,65%, ao passo que a União detinha 5,29% das ações. Enquanto no que se refere às ações ordinárias a Valepar detinha 53,88% das ações, o que fazia com o que assumisse posição majoritária na definição dos rumos da empresa. No interior da Valepar a Litel Participações mantinha 49% das ações, o Bradesco 21%, a Mitsui 18%, o BNDES 11,5%, e a Eletron 0,03%. A Litel Participações, por sua vez, então era composta pelos quatro fundos de pensão de trabalhadores de estatais: Previ, dos funcionários do Banco do Brasil; Petros, dos funcionários da Petrobrás; Funcef, dos funcionários da Caixa e Funcesp, dos trabalhadores das companhias elétricas paulistas.

Esse equilíbrio frágil começou a ruir com a crise econômica de 2015-2016. A queda brutal no preço das commodities — o minério de ferro despencou de US$ 87 para US$ 39 a tonelada entre 2012 e 2015 — abalou os lucros da Vale e pressionou os fundos de pensão a buscarem liquidez. Com a crise econômica, a queda dos preços internacionais dos minérios, a relação do Estado com as empresas estatais flexiona para que ocorra desinvestimento, o que se desdobra também na política desempenhada pelos fundos de pensão. Ao fundo da política de desinvestimento, em essência, está a pressão por se manter os lucros decorrentes dos dividendos Quando o acordo de 20 anos que impedia a venda das ações ordinárias expirou, em 2017, o consórcio se dissolveu. Os fundos venderam suas participações, e o controle da empresa se dispersou no mercado.

O que aconteceu em 2017 não foi apenas uma mudança acionária: foi uma segunda privatização. Desta vez, sem sequer a mediação dos fundos de pensão, que, apesar de suas contradições, ainda vinculavam a Vale a um mínimo de interesse coletivo. Agora, a empresa está ainda mais refém dos humores do capital financeiro global, onde decisões são tomadas com um único objetivo: o lucro imediato, sem qualquer compromisso com desenvolvimento nacional, soberania ou sustentabilidade.

O quadro atual da composição acionário da empresa é substancialmente diferente daquele encontrado em 2017. Ingressa no controle da empresa fundos de investimento internacionais trilionários tais como a Blackrock, a Vanguard e a Capital Research Global investors. Por otutro lado, mantêm-se a participação da Mitsui, empresa japonesa, enquanto controladora mais antiga. O cenário de participação desses grandes conglomerados no controle interno da empresa é de pulverização, com nenhum dos acionistas concentrando mais do que 10% da empresa em suas mãos.

Esses acionistas, majoritariamente sediados em países do Norte Global, utilizam seu controle acionário para influenciar as estratégias da empresa, priorizando a maximização de lucros em detrimento do desenvolvimento sustentável do Brasil. A BlackRock, por exemplo, pressiona por políticas de dividendos agressivas e cortes de custos, o que frequentemente resulta em menos investimentos em segurança e meio ambiente no Brasil, enquanto os lucros são repatriados para investidores estrangeiros. Essa dinâmica reforça a posição do Brasil como exportador de commodities com baixo valor agregado, perpetuando sua dependência econômica.

Já a Capital Group, outro grande acionista, atua de forma semelhante, defendendo a expansão acelerada da produção de minério de ferro e outros recursos, mesmo quando isso implica em violações socioambientais, como as ocorridas em Mariana e Brumadinho. A Vale, sob influência desses acionistas, prioriza a extração em larga escala para atender à demanda global, especialmente da China, sem garantir que os lucros sejam reinvestidos em infraestrutura ou tecnologia no Brasil. Dessa forma, o país permanece como um mero fornecedor de matéria-prima, enquanto as grandes corporações e fundos internacionais capturam a maior parte do valor gerado, aprofundando as desigualdades estruturais do Sul Global.

A Mitsui & Co., por sua vez, representa os interesses estratégicos do Japão e de outras economias avançadas, assegurando o suprimento de minérios a preços competitivos para suas indústrias. A atuação desses acionistas evidencia como o controle estrangeiro sobre a Vale consolida um modelo neocolonial de exploração, no qual o Brasil assume os riscos ambientais e sociais, enquanto o capital internacional se beneficia dos recursos naturais a baixo custo. Essa relação desigual não só esgota o patrimônio natural do país, mas também limita sua capacidade de ascender na cadeia global de valor, mantendo-o em uma posição periférica e dependente.

Portanto, a história da Vale é a história de um Brasil que já tentou planejar seu futuro — e de um Brasil que, desde os anos 1990, insiste em abrir mão de suas riquezas em nome de uma falsa modernidade. A segunda privatização não é um capítulo isolado: é mais um passo na entrega de um patrimônio que deveria ser dos Brasileiros.

(*) Gabriel Cavalcante, militante petista e da Articulação de Esquerda na Bahia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

marsbahisjojobetjojobet girişbahis forumgrandpashabetbursa escortbursa escortgrandpashabetJojobettotem casinogoley90eskort marmarisbetistextrabetcasibomdeneme bonusuRomabetkingroyalgrandpashabetgrandpashabetgrandpashabetgrandpashabetgrandpashabetbetofficebetebetcratosroyalbetholiganbet güncel girişporno izlekralbetgrandpashabettipobetLunabetBetordergrandpashabetpusulabetjojobetjojobet girişCasibombetasuseros mac tvsahabetslot sitelerideneme bonususlot siteleriultrabetbetgarantislot sitelericratosroyalbet girişcratosroyalbetkralbetJojobetJojobetdeneme bonusu veren sitelergrandpashabet girişgrandpashabet girişgrandpashabet girişdeneme bonusu veren sitelergrandpashabet girişGrandPashaBet Şikayetgrandpashabet girişgrandpashabetbetvaktigrandpashabetdeneme bonusu veren sitelerdeneme bonusudeneme bonusu veren sitelercratosroyalbet kesintisiz giriştaraftarium24justin tvultrabettaraftarium24justin tvdeneme bonusujustin tvtaraftarium24taraftarium24extrabetmatadorbetcasibomcasinoroyalcasibombetvaktibetplaybetplayholiganbetbetpuan girişbetpuansonbahis girişsonbahiscasinowon girişcasinowonbetplay girişbetpuancasinomilyon girişbetplaybahiscasino girişcasinomilyonnesinecasino girişbahiscasinoesbet girişnesinecasinomarsbahis girişmatbet girişsekabet girişpusulabet girişbetplaycasinoroyalbetsalvadorpalacebet1winbetgitgameofbetradissonbetcratosroyalbetgrandpashabetimajbet girişesbetonwinligobettipobetgates of olympussezarcasinosezarcasinocasibomcasinowonjojobetibizabetbahiscomsuperbetinholiganbethititbetpusulabetcasibommatbetgrandpashabetjojobetcasibomjojobet girişPusulabetHoliganbetGrandpashabetgrandpashabet girişholiganbet girişjojobetdizipaljojobet girişjojobet girişgrandpashabetcasibom girişjojobetbetgaranti giriş