
O direito à moradia, a questão racial, a pauta das mulheres e os desafios do PT
A socióloga Suelen Aires Gonçalves completou 39 anos em 31 de dezembro de 2025. É natural de Uruguaiana (RS), na fronteira com a Argentina e o Uruguai, países de origem dos antepassados de seu pai, homem branco, soldador. A mãe, “negra retinta”, ganhava a vida no comércio. “E minha vivência é essa de fronteira. É uma cidade com um fluxo muito interessante de pessoas, uma cidade com uma diversidade do ponto de vista étnico. Foi ali que conheci as primeiras comunidades palestinas, por exemplo”. Mas o preconceito também estava presente. O pai de Suelen perdeu o vínculo com sua família original por ter optado por um casamento inter-racial. “O debate de raça eu conheço a partir dos movimentos, do movimento negro, pelo Partido, e a minha vida profissional também se deu nessa pegada, e é um tema que lá em casa hoje é muito azeitado, mas era um tema muito difícil de se lidar, há 40 anos atrás, era um grande problema”.
Ocupação em Santa Maria
Ainda que tenha muitas memórias de sua terra natal, Suelen deixou Uruguaiana aos oito anos de idade em meio a governos neoliberais que traziam fome, desemprego e violência também àquela região. Era 1994 e a família estava descapitalizada devido a uma enfermidade de seu irmão três anos mais jovem, para a qual tiveram que apelar para atendimento particular. Além disso, a mãe também almejava que os filhos tivessem acesso a universidade pública e outras oportunidades. O destino: Santa Maria (RS), terra onde vivia a avó materna de Suelen e para onde ela e a família viajavam pelo menos a cada seis meses.
Essa convivência ao longo dos anos com Santa Maria, sua gente e suas lutas, aproximou a mãe de Suelen do movimento por moradia antes mesmo que a família se mudasse para a cidade. “Minha mãe começou a conhecer os militantes do PT e os militantes do que depois seria o Movimento Nacional de Luta por Moradia [a partir de 1991]. E ali a minha mãe começa a ter um vínculo mais partidário e de movimento.” Com isso, a família de Suelen participou ativamente do processo de ocupação da fazenda Santa Marta, em Santa Maria. “Era uma fazenda gigante de propriedade de pessoas da região da fronteira oeste, muito ricas, e essa fazenda foi desapropriada no final dos anos 70, por dívidas e tudo mais”. Suelen conta que participaram dos primeiros debates. “Nós [os militantes] reunimos, ao longo de um ano, mais de 100 famílias em Santa Maria, discutindo estratégias para pensar o direito à moradia, o direito à cidade”. O mesmo território também era negociado pelo Movimento Rural Sem Terra e pela comunidade indígena. “A gente conseguiu unificar, manter o espaço indígena, ter a ocupação urbana e ter o movimento rural.”
Quando chegou à ocupação, a família de Suelen encontrou num daqueles lotes de 10 por 25 seu novo lugar, justamente no momento em que a mãe estava grávida da filha caçula. “Naquele momento, a ocupação tinha duas ou três vilas, hoje ela é um complexo de sete vilas em torno de um bairro”. Suelen se recorda de toda a preocupação que o movimento tinha de ser uma ocupação organizada. “Então a minha memória de infância era ir para as reuniões em que cada quadra foi pensada, lá tem 110 quadras, tinham naquela época, hoje deve ter muito mais, mas o tamanho da quadra, o tamanho do lote, 10 por 25, ruas com tamanhos de rua, lugar para avenida, lugar para praça, onde ia ser a escola, tudo foi pensado. Então esse é um desejo muito forte que a gente tinha de ter um espaço, de fato, com uma cara de cidade, fomos pensando isso junto com os companheiros, o Partido foi muito importante.”
Um novo momento para a ocupação viria com Olívio Dutra governador (1999-2003) e ministro das Cidades (2003-05), e com o PAC nos governos Lula 1 e 2. “A primeira política pública de desenvolvimento para além da nossa organização militante veio com os companheiros Olívio e Ary Vanazzi, que era secretário de habitação, nosso companheiro também do movimento de luta por moradia. Então os primeiros projetos para desenvolver o território, esses debates em torno da regulação fundiária, nós planejamos a ocupação, mas ela não tinha desenvolvimento nenhum sanitário, água, então, aos poucos, a gente foi construindo com o companheiro Olívio Dutra, a gente começou a pensar, literalmente, mutirão de construção do que seria o sistema de esgoto, pensando de uma forma ecológica, foram momentos muito interessantes da nossa luta e dos nossos sonhos”.
Para chegar ao que hoje são 60 quilômetros de ruas e 30 mil habitantes, foi necessária muita luta. E Suelen estava a postos desde a adolescência. Aos 16 anos, filiou-se ao PT. “Nossos espaços coletivos eram de lona preta, nós éramos tidos como os sem-teto, essa era a nomenclatura que davam, a lona preta do movimento rural, também, a aliança dos sem-teto e dos sem-terra, então nós buscávamos, de alguma forma, fugir desse estigma, mas ele era muito forte, nós não tínhamos acesso à escola, minha mãe teve que entrar com mandado judicial para nós podermos acessar a escola. Tinha muita violência no entorno e qualquer crime em Santa Maria era atribuído ao ‘povo dos sem-terra’, chamavam a gente assim, então a gente tentava tirar esse estigma, mostrando que nós éramos organizados, nós tínhamos minimamente um processo.”
Dirigente do PT
Como militante do PT, Suelen vivenciou um período de ascensão eleitoral do Partido em Santa Maria. Valdeci Oliveira foi vereador e prefeito duas vezes (2001-08). “A gente teve muitas gestões nossas, vereadores muito importantes, então, no governo do Valdeci, a cidade teve uma cara muito importante, o PT tinha uma postura maravilhosa de enfrentamento aos grandes debates e, depois dali, nunca mais. Nós perdemos a eleição em 2008, nunca mais retornamos à Prefeitura.”
No PT de Santa Maria, Suelen foi secretária municipal de juventude, compôs os diretórios e as executivas representando a Articulação de Esquerda concomitante às tarefas do movimento. “Aí eu já tinha mais uma tarefa mais estadualizada. Com o PAC, passamos a fazer um debate nacional sobre pensar os desenvolvimentos para os nossos territórios, muita briga. A gente teve que ocupar uma BR para que tivesse o PAC na Nova Santa Marta, porque era governo de Yeda Crusius, do PSDB, no governo do Estado, ela não queria doar terra, tinha que ter uma contrapartida municipal de muito dinheiro e o prefeito era o companheiro Valdeci Oliveira, então a gente ocupou também a Prefeitura. Dizíamos: ‘Valdeci, vamos nos endividar a médio prazo, mas nós vamos garantir Santa Marta na primeira rodada do PAC’. Dilma era ministra naquele momento, ela foi na ocupação, ela estava em tratamento de câncer, ela estava bem abatida, mas ela fez questão de ir à Santa Maria, porque ela sabia que era uma luta de muito tempo, por aquele processo, e nesse momento que eu estava na graduação, estudando, eu também consegui acompanhar os processos no Estado, que daí a gente foi pensando, ocupamos os territórios, e aí tínhamos uma articulação em todo o nosso Estado.”
Ocupar prédios
A partir de 2005, Suelen e os companheiros se engajaram numa “mudança de chave” e passaram a pensar a ocupação numa outra perspectiva para além de território. “Nós decidimos ocupar um prédio em Porto Alegre, que era o símbolo dessa nossa mudança de chave, agora nós vamos disputar os centros urbanos, país afora, então, em 2005, a gente ocupa o Utopia e Luta , em Porto Alegre, que era um prédio do INSS, e fizemos uma outra perspectiva de ocupar prédios, lutar para que pudéssemos acessá-los, ou comprá-los, ou construirmos, ou enfim, e pensar reformas desses prédios, já era o desenho do que seria, naquele tempo, já tinha um programa de habitação dos nossos governos, mas nós pensávamos em alta escala, que hoje a gente dá o nome de Minha Casa Minha Vida, mas nós já desenhávamos lá a ideia, antes, nos anos 2000 ainda, de nós mesmos produzirmos as nossas casas, então o movimento teve uma vertente de companheiros que foram para a luta institucional pensando cooperativas de habitação, enquanto teve um grupo que se dedicou a pensar cooperativa habitacional para a produção habitacional, outro grupo se dedicou a ocupar e resistir nas ocupações, então fazia um pouco desse trânsito de pensar o acesso à terra, mas também pensar a produção de moradia.”
UFSM, uma nova etapa
Muito influenciada por sua experiência na ocupação, Suelen entrou em 2009 para a carreira de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria com o desejo de debater direito à cidade, as questões das cidades e o desenvolvimento urbano. “A UFSM é o berço, digamos assim, de vários dirigentes nossos do PT e da Articulação de Esquerda. Tentei me meter no movimento estudantil, mas não tinha pique, eu não tinha tempo na realidade, porque eu fui trabalhadora de comércio, eu fui caixa de supermercado… Fui do sindicato de base na minha cidade, e sempre trabalhei e estudei nesses postos de trabalho mais precarizados. Então eu estudava pela noite, não tinha condições de me meter no movimento estudantil como os meus companheiros, mas compus chapa do Diretório das Ciências Sociais e compus o Diretório Central dos Estudantes, mas era uma tarefa que eu tentava conciliar de alguma forma, mas era para poder também estar pensando aquele debate ali. Mas a minha preocupação maior era do portão para fora.”
A falta de tempo se justifica. A essa altura, a jovem já integrava a direção estadual do Movimento de Luta por Moradia. “Conhecendo as realidades dos outros estados, tive a oportunidade de viajar muito e ver as experiências de ocupação, as experiências de gestão de território, as experiências pensando o tema da juventude, que era um grande desafio, pensar espaços de sociabilidade para a juventude periférica, o debate raça também obviamente já foi me atravessando.”
Na academia, Suelen se dá conta de que tudo girava em torno do tema da violência. “A violência pelo espaço territorial, a violência de gênero muito forte, e eu acabei indo para o tema da sociologia do crime e da violência, que foi ao que eu me dediquei da graduação ao meu doutorado, pesquisando a violência de gênero, pensando o debate sobre território, raça, então eu estudei feminicídios na cidade de Santa Maria, na graduação, no mestrado eu fui entender as políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres para entender o Rio Grande do Sul, entender o nosso cenário, e, no doutorado, eu disse, agora eu quero debater raça, e feminicídio, e território, como pensar essa intersecção, e aí para o doutorado eu continuei pesquisando as questões que me moviam, eu acho, se a gente for pensar do ponto de vista psicológico, as minhas memórias da Brigada Militar, com a Cavalaria, para entrar e para sair eram as mesmas dificuldades durante dois anos da minha infância, então isso foi me forjando a tentar compreender esse debate sobre segurança pública, enfrentamento à violência, então fiz a minha vida profissional e acadêmica sobre essa perspectiva.”
Paridade no movimento
Em 2010, Suelen conta que fez uma “boa peleia”, que culminou na aprovação da paridade de gênero na direção do Movimento de Luta por Moradia. “Na base do movimento de moradia são mulheres, quem sustenta as ocupações, quem dá a sustentação política, quem faz o debate do direito para além da terra, é a escola, é a creche, a vida, quem gerencia a vida, então as mulheres sempre foram as lideranças comunitárias que construíram o movimento de moradia, mas pouquíssimas estavam nos espaços de direção”. O exemplo se espalhou. “E aí a gente foi construindo isso com os demais movimentos irmãos, CMP e outros, e tinha o debate de uma transição geracional também, os nossos companheiros dirigentes, mais ou menos os companheiros do Partido, a mesma geração, que construiu o movimento, então tinha um debate de transição geracional e de debate de gênero, e, nesse sentido, num vácuo de muita misoginia, muita mesmo, cada estado tinha que construir a sua direção estadual e representantes para a direção nacional com paridade de gênero, só que essa paridade não poderia ser não qualificada, podemos dizer assim, não era ter o homem de dirigente e a mulher adjunta, não, eram dois dirigentes, pau a pau, só que eu era uma dirigente de base de Santa Maria, alguma relação no interior, e era isso, e estava estudando, e estava saindo da faculdade, tentando o mestrado…”
Nessa transição de 2010 a 2014, durante a implementação da paridade de gênero e a intensificação do debate sobre a transição geracional, Suelen intensificou também suas reflexões. “Vai ter moradia para o povo? Vai ter moradia para os jovens? A gente foi pensando na ação afirmativa para aquilo que a gente via na vida real, pois as famílias não são sempre uma nuclear: marido, mulher, filho. Como é que a gente enquadra juventudes que são unifamílias? Como a gente debate a questão LGBT dentro do movimento? Então, foi um momento de muita efervescência e num cenário de muita violência de gênero e misoginia.”
Dirigente nacional
Foi na ocasião do encontro de 2013, em Rio Grande (RS), que Suelen se tornou dirigente nacional do movimento. “Porque na nossa chapa estavam os mais experientes, era o Beto Aguiar, minha grande referência, meu grande companheiro, e uma outra companheira, Márcia da Rosa, que era uma dirigente muito da pancadaria mesmo, ela ia para o enfrentamento, ela ia para o piquete, ela era uma companheira muito, muito na linha de frente mesmo, ela morava na cidade de Novo Hamburgo, na região metropolitana.”
Além das questões de enfrentamento à violência de gênero à qual as companheiras do movimento estavam submetidas, a chapa de Suelen queria fazer também a disputa de concepção. “Nós queríamos debater o movimento de caráter nacional e nós tínhamos uma grande parceria dos companheiros que foram literalmente cooptados para o tema da produção habitacional. Eles queriam ser cooperativo e fazer casa, fazer casa, fazer casa sem o debate da política para que nós queríamos. Então foi um encontro de disputa de concepção do movimento e da inclusão da pauta afirmativa. Teve uma reunião que durou até as duas horas da manhã de muito enfrentamento e a nossa companheira Márcia foi duramente atacada, das mais diversas formas, diziam coisas como: ‘não tem capacidade de ser dirigente porque ela é muito explosiva’, todas aquelas questões de violência contra as mulheres que estão nos espaços de direção.”
Suelen conta que conhecia as tarefas nacionais do movimento porque era uma militante de base “muito atenta”. Mesmo assim, considerou um tremendo desafio, já que era bastante jovem, estava finalizando seu curso na universidade, se preparava para sair da ocupação, “um lugar quentinho”, e tinha que procurar trabalho. Mas ela assumiu a tarefa. E, no mesmo ano, passou na seleção para o mestrado na PUC-RS.
Conheceu os demais movimentos nacionais, com os quais tiveram muita articulação durante um momento que ela considerou “um dos mais estressantes da conjuntura”. Dedicou-se a pensar no desenvolvimento urbano, mas também em todas as questões que os atingiam. “A violência contra a juventude, a violência de gênero, então a gente estava muito tomada por isso. Já estava entrando o debate sobre as facções nos nossos territórios, então era muito complexo, dependendo de onde a gente ia. E Rio de Janeiro nos dava muitas experiências, lá nós ocupamos o prédio aos fundos da Câmara de vereadores do Rio de Janeiro, na Cinelândia, é a nossa ocupação do Rio chamada Ocupação Manuel Congo. A primeira em que a gente ocupou um prédio nessa ideia de mudança de chave no RJ.”
Suelen também estava na direção que “segurou o processo” do início da fundação do que seria a Frente Brasil Popular. “Então o movimento foi um dos que assumiu tarefas do ponto de vista das lutas urbanas e eu caí direto na fundação da Frente Brasil Popular e tendo que pensar um movimento em nível nacional, a disputa pela terra já estava muito acalorada, muitos companheiros nós perdemos vítimas de homicídio nesses territórios na luta pela terra urbana. Enfrentamos o tema em relação à violência das facções e outros grupos regionais e nós tínhamos muita produção habitacional em curso no país inteiro. Então uma parte dos companheiros que se dedicaram a pensar o tema da produção habitacional foram avançando”.
O golpe
Até que chega o golpe contra a presidenta Dilma. “Eu estava no mestrado e literalmente larguei tudo e falei: ‘Vou para Brasília’ Consegui defender, qualificar, fiz tudo certinho, mas eu vim morar, acampei em Brasília, fiquei os 40 dias aqui acampada. O movimento montou um QG, fizemos uma ocupação e fizemos um acampamento da resistência, participamos de todos esses processos. Foi muito importante a gente compor também a Frente Brasil Popular, depois a Frente Povo Sem Medo, a gente foi fazendo essas alianças, mas eu representava o movimento”.
Em meio a esse processo, Suelen e os companheiros tentavam garantir a continuidade das obras que tinham país afora. “E nós tínhamos umas alianças muito importantes com os trabalhadores da Caixa, o sindicato da Caixa, os trabalhadores da Caixa eram fundamentais conosco, pensando essas questões em relação do direito à terra, o direito à moradia, e a gente ficou até o último minuto na Caixa, no governo Dilma, para que ela assinasse tudo o que poderia, então eu fiquei em um gabinete de crise mesmo, nós criamos um gabinete dentro da Caixa Nacional vendo todas as obras do país inteiro, aonde estava, em que momento estava, para tentar deixá-las todas com condição de sustentabilidade, para concluir, nós sabíamos que o golpe era nítido, nós ficamos aqui de fevereiro daquele ano até o dia do afastamento da Dilma, nós ficamos literalmente todo aquele ano aqui, assinamos tudo, foi um dos últimos atos da presidenta Dilma, foi a assinatura do Minha Casa Minha Vida, nós tínhamos indicado o Minha Casa Minha Vida que a gente falava entidades.”
Depois do golpe, de volta ao Rio Grande do Sul, Suelen mudou-se para Porto Alegre, justamente para uma ocupação vertical que o movimento havia organizado desde 2005, o Utopia e Luta. “E eu ouvia muito um companheiro chamado Vanderlei dos Santos, nosso companheiro militante, fundador do movimento, ele é pedreiro, mora na ocupação da Nova Santa Marta, em Santa Maria, ele só dizia para mim: ‘Suelen, nós temos que ter profissão, temos que ter trabalho’. Então eu adequava todas as tarefas e sempre, sempre me mantive ali fazendo o mínimo, mas estudando, seguindo os prazos e os ritos.”
São Leopoldo
A mudança para Porto Alegre proporcionou a Suelen a oportunidade de conhecer outras ocupações da região metropolitana e ter mais facilidade para contribuir com outras cidades. “E aí eu começo, então, o meu doutorado [em 2017 na UFRGS] e eu tinha um desejo de pensar a gestão de política pública, porque eu já pensava isso antes e eu dizia: ‘Gente, eu queria ter uma experiência de gestão’. E aí nós tínhamos a Prefeitura de São Leopoldo, que foi uma das poucas cidades no Rio Grande do Sul a ter uma rede de enfrentamento à violência completa, ter Secretaria de Política para as Mulheres, muita luta das mulheres do PT para a gente ter um discurso aliado a uma prática de gestão”. Suelen é convidada a integrar a Secretaria de Política para as Mulheres, comandada por Margarete Ferretti, e assume a Diretoria de Política de Enfrentamento à Violência “Então, muito daquilo que eu pesquisei a minha vida inteira, de gestão de política pública, dos gargalos das políticas, eu conseguia materializar ali também com as companheiras. Obviamente construímos muita coisa bacana, mas também tivemos muitos enfrentamentos”.
Mais vereadoras
Em 2019, Suelen foi eleita também secretária estadual de Mulheres do PT. “Numa gestão compartilhada, porque, lá no Rio Grande do Sul, geralmente as forças disputavam, brigavam, ganhavam e tocavam o coletivo. Mas, de 20 anos para cá, existe um esforço de todas as forças experimentarem ser secretárias de um coletivo colegiado. Estamos fazendo até hoje, tem dado certo. E aí a Articulação de Esquerda não tinha ainda sido secretária de mulheres. Eu saí da juventude, do PT, das tarefas da juventude, que eu tinha muito pouco, mas eu comecei a migrar para as mulheres no Partido, tentando conciliar as questões do movimento. Minha prioridade sempre foi o movimento. O partido era meio que secundário, mas eu sempre compus, participava, sempre estive ali”.
Suelen viveu o desafio de coordenar as campanhas em meio à pandemia da COVID-19. “Foi muito difícil pensar uma campanha na pandemia, porque a nossa vivência era de partido de rua, campanha de casa em casa. Tivemos que pensar o uso das redes sociais, disso que a gente está fazendo agora. Nós não tínhamos experiência nenhuma. Como usar ferramentas que a gente pudesse manter diálogo, pensar formação política, pensar tudo através de uma outra perspectiva. Nós tínhamos mil e uma companheiras concorrendo a vereadoras naquele momento. Nós elegemos 101 naquela eleição. Depois várias se tornaram vereadoras porque foram eleitas outras companheiras, alguns subiram de secretarias nas cidades que a gente elegeu. E aí a gente avançou. Lá no Rio Grande do Sul, nós saímos de 40 vereadoras e nós temos hoje 120 vereadoras. Num estado com 497 municípios. Nós tínhamos uma baixa incidência institucional, mas a gente começou a construir uma estratégia de pensar coletivamente, independente das forças, o que era mais estratégico naquela região, naquela cidade. E a gente sempre experimentou isso juntas. Qualitativamente e quantitativamente a gente foi experimentando formas de construir as candidaturas e de hoje a gente ter um saldo bem interessante. Quando chegou o debate do financiamento, eu tive que sentar e fazer uma proposta de método de divisão de recursos, dialogar com todas as forças, construir o processo.” Suelen esteve na campanha de Manuela D’Avila em Porto Alegre, representando a Articulação de Esquerda na coordenação de mobilização na capital do estado.
Legislativo
Em 2022, com a eleição de Lula a um terceiro governo e a nomeação do deputado Paulo Pimenta à Secretaria de Comunicação da Presidência, a primeira suplente, Reginete Bispo, uma militante do movimento negro, foi alçada à condição de deputada federal. “É uma companheira cujas campanhas eu coordenei a vida inteira, uma das fundadoras do PT lá em Passo Fundo, concorreu a deputada, a vereadora, a tudo. Eu me tornei socióloga por causa da Reginete, porque, olha, uma mulher preta socióloga, eu achava fantástico”. Reginete convidou Suelen a integrar o mandato. “Aceitei sem nem piscar, porque eu sou de religião de matriz africana e todo final de ano a minha mãe de santo joga os búzios para os filhos, para ver as questões do próximo ano, os desafios. Dia 20 de dezembro [de 2022], a minha mãe jogou e disse: ‘Filha, te prepara, teu lugar não é aqui’”.
O debate de gênero e o debate de raça pautavam o mandato. “Era o nosso foco. Não tínhamos uma bancada negra ainda, ajudamos a construir a bancada negra. Então, em todos os debates de raça que a gente pôde enfrentar sobre segurança pública, sobre mulheres, tudo a gente acumulava nos movimentos e tentava reproduzir na nossa intervenção. Muita fala, muito debate, proposição, muita relatoria, aprendi muito, muito, muito, muito, muito.” E passaram a debater também a questão fiscal. “Nós queremos debater economia, nós queremos debater a questão fiscal e raça em tudo que a gente puder meter, gênero e raça. Então, o debate sobre a cesta básica, o debate sobre a política de cuidados, tudo, nós compusemos o grupo de trabalho.”.
O sonho de deixar algo “mais palpável” se materializou com a relatoria do projeto do feriado nacional do 20 de novembro. “Eu escrevi esse documento, tem seis páginas, eu e ela escrevemos, eu fiz a primeira minuta, a gente escreveu, nós escrevemos todas as justificativas juntas e no dia da defesa foi uma coisa muito pesada para mim até, porque no dia 20 de novembro eu fui atacada por um parlamentar da extrema-direita chamado Paulo Bilinski [do PL], de São Paulo, eu respondo até hoje um processo administrativo que ele colocou contra mim, naquele dia”.
Indígenas e quilombolas
Como o encerramento do mandato de Reginete, Suelen participou de uma seleção para trabalhar na Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, que dá acompanhamento ao acordo de reparação às vítimas de Mariana (MG), denominado Novo Acordo do Rio Doce. “A minha tarefa é atender os povos e comunidades tradicionais, rurais, atingidos pelo crime. A luta pela terra, o debate com os quilombolas, os indígenas e os garimpeiros tradicionais, que eu nem sabia que tinha esse povo como tradicional no estado de Minas Gerais, mas existe o garimpo tradicional. A minha tarefa é acompanhar esse processo com eles desse novo acordo. As pessoas estão há 10 anos sem reparação alguma depois do crime. Tiveram algumas reparações individuais, mas no rio não se pode mais pescar, na terra não se pode mais plantar. Não vão voltar à vida que tinham antes, nem eles, nem as próximas gerações, mas o governo se comprometeu a fazer alguma reparação. E estou lá atendendo os povos indígenas, os povos Krenak, os Puri. É uma experiência muito fantástica.”
Paridade qualificada
A seguir, destacamos os principais trechos da entrevista que Suelen concedeu ao Página 13:
Página 13 – Quais você considera que são os principais desafios da secretaria?
Suelen – Um dos maiores desafios é qualificar a paridade. Como que a gente qualifica a paridade, e não só a paridade, mas as demais ações afirmativas de juventude, de negros e negras, num cenário em que a gente vê esses espaços totalmente esvaziados. Ou que a gente vê a nossa luta, a luta pelas cotas, que muitas das gerações anteriores construíram para que o partido tivesse, e hoje a gente vê a paridade sendo uma moeda de troca, não sendo qualificada, não estando à altura dos desafios. Então eu vejo, para mim, neste olhar, como que a gente dá condições políticas para que as mulheres sejam protagonistas do debate no PT?
Página 13 – O que você chama de moeda de troca?
Suelen – Eu vejo assim, por exemplo, aí eu vou falar das experiências que eu vivo em si, por exemplo, tem paridade, mas os homens são os coordenadores, os homens são os dirigentes, nós somos as vogais, nós somos as adjuntas, nós estamos num lugar que, se a instância funcionasse, nós teríamos um papel importante, estaríamos ali debatendo, mas num partido e numa secretaria que as instâncias não funcionam, é nesse lugar de representação que as coisas são decididas, e aí nós não estamos lá.
É só a gente ver o reflexo do que é a Executiva do nosso partido, o reflexo do que são os espaços do nosso partido. Então a gente garantiu uma conquista, que era ter uma paridade, de ter a transição geracional, de ter negros e negras nas direções, mas estamos a serviço do quê? Eu vejo a partir desse olhar de uma luta estratégica que nós temos que defender, porque eu acho que é um outro ponto. O questionamento vem também para dizer que não é necessário que se tenha. ‘Ah, se vocês estão aqui e não vêm, ou não, né? Para quê vocês estão lutando e por quem?’ Então de que forma eu acho que é um papel importante do coletivo, mas não só, do Partido como um todo, que nós estejamos nesse espaço para também, de fato, contribuir com os rumos do Partido, dos coletivos. Então como é que a gente qualifica essas lutas? Como que o debate das mulheres, da juventude, dos negros e negras, não seja uma pauta ao largo, seja uma pauta do centro, do quê que é esse país, da transição geracional que está ocorrendo, do boom que já acabou, a minha geração é do boom demográfico.
Temos um país envelhecendo, um partido envelhecendo, que cidade que a gente quer para essas pessoas? Que sociedade que a gente quer? Eu vi muito isso esses dias lá na ocupação, quando uma vizinha sofreu um acidente, óbvio que lá a gente tem rua, a gente tem tudo. Fiquei eu pensando nas favelas que eu conheci, que dignidade a gente tem de mobilidade no lugar que a gente sobe e desce por uma escada minúscula?
Que qualidade de vida que a gente tem. Com esses temas, com essas vivências diversas, seria muito importante que o Partido tivesse essa oxigenação. Mas o que a gente vê de nós mulheres? Estamos no lugar de adjuntas ou no lugar de vogal. Sem tarefa, sem exercer um protagonismo, sem exercer esse processo de construção.
Por outro lado, eu vejo também que essas mudanças têm que vir de forma qualificada. E como a gente não reproduz essas questões que a gente está vendo aí. Eu acho que um pouco disso a gente está vendo agora na juventude. Nós queremos jovens nos espaços de decisão. Mas como é que a gente também pensa a nossa política não reproduzindo essa lógica do carguismo. Tudo aquilo que tu possas imaginar, né? Que a gente vive em si.
Então, como é que a gente qualifica a paridade e a juventude e os negros e negras a partir dessas lutas e disputando essas concepções? Disputar essa concepção do porquê conquistamos tantas questões no Partido, na sociedade. Temos muito o que avançar, mas temos que, obviamente, qualificá-las.
Página 13 – O que mais você destacaria como pauta prioritária?
Suelen – E um outro ponto que está, para mim, muito importante é a organização das mulheres. O que eu vejo: nós temos instâncias, instâncias que funcionam com um baixo ritmo de funcionamento e lá na base a gente vive a contradição de ser mulher e ser petista, de ser mulher e ser vereadora e não ter um debate sobre alguns temas e ter que defender a política com base no quê? Eu lembro de uma vereadora, um dia ela foi eleita na cidade chamada Jaguarão. Ela não fez campanha, porque ela trabalhava com um dentista, ela era secretária do único dentista da cidade.
Ela não tinha tempo de fazer campanha, mas ela tinha um panfletinho que a gente mandou para cada uma delas, um kitzinho para as campanhas. Ela foi eleita entregando o panfleto dentro do trabalho dela. E ela me ligou, disse: “Agora, o que eu faço?”
E eu respondi: “Tu vais se reunir com o Partido, tu vais lá na Câmara, tu vais pegar a chave e vai entrar no teu gabinete”. E a companheira insistiu: “E depois, Suelen?” E aí eu me deparei com uma questão. Foi muito importante também nesse tempo eu conseguir vivenciar, ajudei a escrever, ajudei a pensar o Elas por Elas, que é o nosso projeto, podemos dizer assim, numa perspectiva de fortalecimento nos processos eleitorais, a gente ter uma plataforma mínima, pensar os debates que são mais urgentes, formação, comunicação, estruturar as campanhas, pensar as coisas básicas para a gente ter condições mínimas de estar nesse processo que a gente já sabe que a gente já chega com muita desigualdade.
Mas aí não é só isso, não basta eleger. Qual é a retaguarda partidária que a gente dá para as mulheres e para os homens e para nós depois de eleitas? E mesmo as dirigentes, são eleitas dirigentes numa executiva, num diretório, qual é a retaguarda política que a gente tem para que essa mulher não sofra todas as violências que sofre por estar nesse lugar e não desista de ser uma militante, uma dirigente? Então eu acho que também os desafios do ponto de vista organizativo, a gente tem que ter esse momento de pensar as eleições, é importante? Queremos eleger mais mulheres? Queremos.
Inclusive, eu recebi uma ligação para entender o que nós fizemos no Rio Grande do Sul para a gente subir de 40 vereadoras para 120 vereadoras. O PT Nacional um dia quis entender. Eu falei: “A equação é muito simples, é conhecer a base e entender cada município”. Lá tem a professora, lá tem a militante do movimento popular, lá tem a fulaninha, lá tem a que já concorreu. São prioridades construídas coletivamente. E aí é só ir construindo com responsabilidade, obviamente.
Então a gente tem feito esse exercício, tem dado certo. Mas não pode ser uma atribuição somente das mulheres do PT, tem que ser uma tarefa do Partido.
Então são esses dois pontos principais: o primeiro de a gente ter uma paridade altiva e qualificada e também como é que a gente pensa a nossa organização para o conjunto da classe trabalhadora numa perspectiva de que as disputas naquela cidade sobre o tema da política dos cuidados, o tema da creche, lá na ponta a gente sabe quais são as questões, como é que a gente faz esse debate ser o debate da vida real também das mulheres do nosso Partido.
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