A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, reunida no dia 31 de maio, debateu e aprovou a seguinte resolução sobre a situação política e nossas tarefas.

A ingerência do governo dos Estados Unidos nas eleições brasileiras e a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados são os dois fatos políticos de maior relevância ocorridos no mês de maio de 2026. A ocorrência quase simultânea de ambos serve para ilustrar a polarização programática em curso, não apenas nas eleições, mas na sociedade brasileira.
Como é usual, a ingerência dos Estados Unidos vem disfarçada de “combate ao terrorismo”. Segundo nota assinada no dia 28 de maio de 2026 pelo Secretário de Estado Marco Rubio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) passam imediatamente a ser consideradas pelos Estados Unidos como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e, a partir do dia 5 de junho, entram na categoria de “Organizações Terroristas Estrangeiras”. O delay (sic) deve-se a exigência da legislação dos EUA, segundo a qual a segunda categoria depende de prévia comunicação ao Congresso dos EUA.
A confusão entre “crime organizado” e “terrorismo” não tem base factual nem amparo nos estudos sérios a respeito de ambos temas. Mas o que importa é que as medidas anunciadas por Marco Rubio dão ao governo Trump cobertura legal – frente às instituições e legislação dos Estados Unidos – para envolver a CIA e as Forças Armadas em operações noutros países, sem que seja necessário declarar formalmente guerra, o que exige trâmites e prazos que o trumpismo já demonstrou não está disposto a respeitar.
O efeito das medidas anunciada pelo Departamento de Estado sobre o Brasil é triplo. Por um lado, dificulta a efetiva cooperação entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado, pois agora o assunto sai da esfera da DEA, do FBI e do Departamento de Justiça e passa à esfera militar e de espionagem. Em segundo lugar, as medidas causam impacto sobre as empresas brasileiras, que passam a estar submetidas aos rigores da legislação de exceção dos EUA, a mesma que permite que criminosos tenham abrigo nos EUA, quando isso é de interesse do que eles consideram sua “segurança nacional” (recentemente Trump libertou um narco preso nos EUA, para que o criminoso ajudasse o candidato preferido dos EUA na campanha presidencial em Honduras). Em terceiro lugar, as medidas anunciadas por Rubio fortalecem a pauta que a extrema-direita brasileira tenta emplacar no centro da campanha eleitoral de nosso país. Como teria dito o próprio Trump, “temos que ajudar esses caras”.
O alinhamento de Trump com a extrema-direita brasileira pode ser tudo, menos motivo de surpresa. Ao contrário do que talvez esperassem aqueles que vieram defendendo e fazendo seguidas concessões aos EUA (como no reconhecimento da golpista peruana Dina Boluarte, na ingerência praticada por itamaratecas contra as eleições venezuelanas, na solidariedade desnecessária ao atual governo boliviano, na até agora insuficiente ajuda prestada a Cuba), o trumpismo tem lado e precisa conquistar o governo brasileiro para sua guerra contra a China e para transformar nossa região em seu “quintal”. Como se demonstrou, estavam certos aqueles que previam que, especialmente depois do sucesso da visita de Lula aos EUA, viria o contra-ataque. E veio.
Defendemos que o governo brasileiro se movimente em três sentidos. Primeiro, tomando medidas para punir a traição à pátria cometida pela extrema-direita, a começar pelos parlamentares, que seguem pedindo intervenção militar estrangeira em nosso país. Segundo, redobrando esforços contra o crime organizado, que como está fartamente demonstrado tem muitos de seus tentáculos na Faria Lima, na extrema-direita e, como é óbvio, na família cavernícola. Terceiro, adotando um pacote de medidas para proteger a economia e o território nacional das medidas que advirão da decisão anunciada por Marco Rubio. Este pacote de medidas deve incluir a ampliação do controle nacional sobre o petróleo, a energia elétrica, terras raras e minerais críticos, a região amazônica e a construção de uma “biguitequi” nacional.
A pauta da segurança pública interessa à direita, não porque ela queira combater o crime no qual ela própria está envolvida, mas sim porque o extremismo fascista prospera num ambiente de medo e violência. Nossa pauta, a pauta da esquerda, é outra: é a da ampliação dos direitos sociais. Nesse sentido, a aprovação do fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 40h para 44h semanais na Câmara dos Deputados confirmou, mais uma vez, que a “correlação de forças” não é um obstáculo intransponível.
Mas tampouco devemos nos iludir com a manobra da bancada da direita na Câmara dos Deputados, que votou a favor da posição defendida pelo governo Lula. O objetivo da direita, ao votar como votou, é duplo. Por um lado, não entregar à esquerda novos argumentos para demonstrar que a maioria deste Congresso é inimiga do povo. Por outro lado, concentrar energias na batalha principal, que é a disputa presidencial, onde têm como objetivo eleger um cavernícola que destrua o que foi reconstruído e faça o país andar novamente para o passado.
Sem esquecer, é claro, da movimentação em curso no Senado, onde o coordenador da campanha presidencial do cavernícola apresentou uma PEC que, se aprovada, destruirá o que ainda restou de legislação trabalhista no Brasil, o que na prática neutralizaria os efeitos positivos da aprovação do fim da escala 6×1.
Seja como for, a disputa presidencial segue equilibrada. A preços de hoje, Lula será novamente reeleito. Mas as pesquisas indicam que a situação não é confortável. Além disso, os encontros entre o filhote do cavernícola e a cúpula do governo dos EUA deixaram mais uma vez evidente que não estamos enfrentando apenas uma quadrilha de criminosos, mas sim uma aliança entre o imperialismo, o sionismo, amplos setores do empresariado e da direita local.
O caminho para a vitória é o mesmo que produziu a vitória do fim da escala 6×1 na Câmara: um programa de transformações reais na vida da classe trabalhadora, combinado com intensa mobilização e disputa ideológica de classe. Este deve ser o espírito de nossa participação no debate acerca do programa 2027-2030. A esse respeito, a Direção nacional da AE divulgará um documento específico, analisando e propondo emendas ao texto elaborado pela coordenação de campanha. Lembramos que para fazermos um quarto mandato superior ao terceiro, não basta vencer, é preciso vencer em condições melhores do que vencemos em 2022. Neste sentido, a tática implementada em grande número de estados constitui um fator negativo, seja por termos poucas candidaturas majoritárias (governo e senado), seja por termos feito alianças com inimigos e adversários de nosso programa. Tal tática complica muito nossa situação, tanto nos respectivos estados, quanto na disputa congressual e presidencial.
Frente a este fato em grande medida consumado, o que pode contribuir para alterar a correlação de forças a nosso favor? Primeiro, uma campanha politizada, mobilizada, de polarização programática e ideológica. Segundo, um estímulo e apoio permanente à mobilização dos sindicatos, movimentos populares e outras expressões de luta do povo brasileiro. Terceiro, a capacidade de aproveitar impiedosamente os de nossos inimigos, o que inclui destacar sua postura de traidores da pátria.
A nossa militância, especialmente quem está à frente de candidaturas, mandatos, direções partidárias, sindicais e de movimentos sociais, deve ter especial atenção para com a situação internacional. A importância geopolítica e econômica do Brasil nos impõe imensa responsabilidade, num mundo onde a guerra aberta ou a ameaça de guerra se torna o novo normal. Cabe, portanto, reiterar nossa defesa da região como zona de paz, a solidariedade ativa com Cuba, a denúncia da ingerência imperialista, o apoio à Palestina livre do Rio ao Mar, a condenação dos ataques dos EUA e Israel contra o Irã e Líbano, assim como a afirmação de que, enquanto houver OTAN, não haverá paz na Europa nem no mundo.
Daqui até o final de outubro, haverá muitos momentos difíceis. Mas venceremos, se nos lembrarmos sempre quem somos e quem garantirá nosso triunfo: a classe trabalhadora, especialmente os setores mais pobres, periféricos, as mulheres, os negros e as negras, o verdadeiro povo brasileiro.
