A história não tem fim: 70 anos da República Popular da China e o socialismo como horizonte civilizatório

Por Jackson Rayron Monteiro (*)

A queda do Muro de Berlim em 1989 – fato histórico que inspirou os Scorpions a escreverem “Wind of Change” [1]– assim como o último suspiro da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) deram substância para que Francis Fukuyama, democrata liberal convicto, publicasse em 1992 o livro “O Fim da História e O último Homem”. Na coesão do texto, Fukuyama postula que a democracia liberal oxigenada pelo capitalismo seria a única alternativa para as sociedades humanas. Por conseguinte, não haveria mais no mundo espaço para países coletivistas que fundamentam a sua economia na planificação e no controle social da produção. Triste engano.

Quando o mundo assistiu na noite de 25 de Dezembro de 1991 a troca das bandeiras da URSS pela da atual Rússia – reportagem que no Brasil foi transmitida pelo Jornal Nacional, cujo o correspondente em Moscou era, na época, Pedro Bial – enquanto a democracia burguesa, alicerçada na exploração do homem pelo homem, se mostrava como única alternativa viável à civilização, de alguma maneira a mídia global deixou de perceber que, apesar da queda da muralha de Moscou, a estrela de Pequim brilhava incandescente e que, naquele passo, fazia a economia chinesa crescer em, média, 10% ao ano: uma conquista revolucionária de todas as perspectivas possíveis.

E foi no último dia 01 de Outubro de 2019 – data em que também se comemora o Dia Nacional da China – que a China comunista completou 70 anos da revolução liderada por Mao-Tsé Tung em 1949. Naquela quadra histórica, o processo revolucionário chinês contou com o indispensável apoio do gigante soviético então liderado pelo, outrora Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Joseph Stálin. Inclusive, o apoio soviético à China de Mao garantiu a realização do primeiro projeto nuclear chinês, conquista imprescindível para quem acabara de fazer uma revolução social e estava sob a mira de lobos imperialistas.

A despeito disso, toda revolução é única, tem suas idiossincrasias e carrega consigo o presente histórico nacional, o desenvolvimento das forças produtivas e se materializa como uma autêntica luta de classes. Nessa perspectiva, tanto Lenin como Mao foram iconoclastas no que diz respeito à interpretação das condições materiais e históricas para a eclosão da Revolução do Proletariado. Enquanto o Mouro[2] Marx defendera no século XIX que a Revolução só triunfaria com o esgarçamento do modo de produção capitalista via o avanço das contradições das forças produtivas, portanto em condições de pleno desenvolvimento econômico, Vladimir Lenin e Mao-Tsé Tung foram a ponta de lança de revoluções operárias em dois países marcados pelo atraso. E o custo disso foi considerável.

Na República Popular da China (RPC), com o intuito de dinamizar a economia, Mao arquiteta o “Grande Salto Adiante”, projeto que realizou uma plena Reforma Agrária no território chinês que logrou grande custo humano. O baixo desenvolvimento das forças produtivas dali fez com que a produção agrícola não fosse suficiente para alimentar toda a população, causando o que ficou conhecido como “Grande Fome”. O cenário muda quando em 1978 Deng Xiaoping, então Secretário Geral do PC chinês, se torna o presidente da China continental e dá fôlego ao programa “Reforma e Abertura”, que legalizou a presença de Investimento Externo Direto (IED), da iniciativa privada no país e de relações capital-trabalho. O modelo ficou conhecido como Socialismo com Características Chinesas e assim continuou sob o comando dos dirigentes posteriores a Xiaoping: Juane Zemin, Hu Jintao e, o atual presidente, Xi Jinping.

Com essa forma de conduzir sua Revolução, a China apresentou taxas de crescimento formidáveis durante três décadas e hoje é a segunda economia do mundo. Com altos níveis de exportação de produtos ricos em tecnologia, no presente momento o país desenvolve políticas voltadas para a expansão do seu mercado interno por meio, principalmente, da valorização da produtividade do trabalho. Outro legado da Revolução Chinesa foi a capacidade que a mesma teve de alfabetizar a sua população que, em 1990, já contava com 90% da nação alfabetizada. A China também conseguiu tirar da pobreza mais de 800 milhões de pessoas, o equivalente a 57,72% da sua população atual.  No campo militar, a China caminha para ser a maior potência bélica do mundo já em 2025, ano em que também supera a economia dos EUA, completa 76 anos de Revolução e se torna a Revolução Proletária mais duradoura da história.

Apesar de ter colaborado com a vitória do Vietnã e da Coréia do Norte durante a Guerra Fria, no momento a China não tem interesse de exportar sua Revolução, o que paradoxalmente lembra a política encabeçada por Stálin do socialismo num só país. No campo externo, a RPC tem estreita relação com a Rússia de Putin tanto no que diz respeito ao fornecimento russo de equipamento bélico quanto no que se refere às estratégias geopolíticas[3]. Com desenvolvimento cada vez mais palpável, o gigante asiático é hoje o centro das atenções e qualquer alteração da sua dinâmica econômica pode instabilizar o sistema capitalista global. Com mais de um quinto da população mundial, a RPC tem garantido condições dignas de vida para o seu povo com direito à educação, saúde e segurança.

Além da China, outros cinco Estados adotam uma práxis socialista. São eles: Cuba, Coreia do Norte, Vietnã, Laos e Transnístria. Para a América Latina, a Cuba de Fidel representa, até hoje, um símbolo de resistência contra o imperialismo Yankee[4]. O legado da Revolução Cubana de 1959 contempla desde a alfabetização da população à exportação de médicos para causas humanitárias além de apresentar consideráveis taxas de desenvolvimento humano. Mesmo com dificuldades econômicas em grande parte provocadas pelo embargo norte-americano de 1962 sancionado pelo então presidente John Kennedy, Cuba segue resistindo as ofensivas imperialistas. Atualmente, Cuba é presidida por Miguel Díaz-Canel, primeiro presidente nascido após a Revolução de 1959 – mesma singularidade de Xi Jinping na China.

Dadas as considerações supracitadas, apreende-se que a esperança no socialismo não foi de nenhuma maneira ofuscada, o que impele a reflexão sobre uma alternativa econômica para o Brasil que se encontre para além do capital.

Ao contrário do que pensa a ofensiva conservadora oriunda de setores da direita, o Brasil nunca viveu, nem remotamente, uma práxis socialista. Os ensaios revolucionários brasileiros nunca passaram de focos de guerrilha rural, duramente reprimidos pela Ditadura Militar, e de um movimento urbano que pouco ganhou matéria além de alguns sequestros de embaixadores e do Manual de Marighella[5]. Passada a repressão, parte dos revolucionários dos Anos de Chumbo se enfileiraram no Partido dos Trabalhadores (PT) que, no seu estatuto[6], defende um Socialismo Democrático e de massas. Ao eleger dois presidentes – Lula, hoje preso político nos cárceres de Curitiba, e Dilma Roussef, destituída do cargo por um golpe parlamentar, jurídico e midiático – o PT ensaiou a sua proposta que resultou na democratização do ensino superior público, retirada de milhões de famílias da linha de pobreza e crescimento econômico com pleno emprego, o que dá margem para um resgate desse modus operandi nas próximas eleições.

Para todos os efeitos, além de continuar mais vivo do que nunca, o socialismo se apresenta como a única alternativa civilizatória para a humanidade. Enquanto a China cresce e Cuba resiste na América Latina, o horizonte operário se vislumbra num futuro de esperança. Nesse momento, a ordem é lutar contra todo ataque funesto das classes dominantes fascistas e seguir o exemplo dos camaradas do passado sempre lembrando que cada revolução tem sua particularidade e seu tempo de consolidação acompanhado de triunfo humanitário. Destarte, a esperança é vermelha. Hasta la victória siempre!

(*) Jackson Rayron Monteiro é economista, músico e membro do Diretório Municipal do PT, Pau dos Ferros/RN.

[1] Vide SCORPIONS. Wind of Change. Mercury Records, 1991. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=n4RjJKxsamQ

[2] Pseudônimo pelo qual Karl Marx era chamado pelo seu círculo de amigos. Vide KONDER, L. Marx Vida e Obra. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

[3] Vide MARIGONI, G. Um século depois, para onde vamos? Jornal dos Economistas, 2017.

[4] Substantivo que faz referência ao imperialismo dos EUA. Vide TAIBO II, I. Hernesto Guevara, Também Conhecido como CHE. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

[5] Vide MARIGHELLA, C. Manual do Guerrilheiro Urbano. Lisboa: Assírio & Alvim, 1975.

[6]Vide PARTIDO DOS TRABALHADORES ESTATUTO. Disponível em: https://pt.org.br/wp-content/uploads/2016/03/ESTATUTO-PT-2012-VERSAO-FINAL-alterada-outubro-de-2015-2016mar22.pdf

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