Ainda a China, em comparação

Por Wladimir Pomar (*)

Comparando as histórias do Brasil e da China nos últimos 40 anos, pode-se chegar à conclusão que elas caminham em sentidos opostos, principalmente se tomarmos, como referência, os desenvolvimentos científico, tecnológico, industrial e ambiental. Enquanto a China manteve processos crescentes de investimentos e modernizações nessas áreas, com uma crescente elevação da produtividade, que apontam a perspectiva de ultrapassar a capacidade industrial dos Estados Unidos por volta de 2030, o Brasil assiste à queda acentuada da produção industrial na conformação de seu PIB.

No início dos anos 2000, a participação da indústria no PIB brasileiro era de cerca de 25%, mas caiu para menos de 12% em 2018, embora nesse mesmo período não tenha ocorrido qualquer tendência de desindustrialização na economia mundial. Ao contrário, a maior parte dos países desenvolvidos e em desenvolvimento do mundo aumentou seu grau de industrialização.

Em termos gerais, grande parte dos países do mundo possui políticas de fortalecimento industrial, tendo por base seu desenvolvimento científico e tecnológico. O que antes parecia coisa de países comunistas ou socialistas, isto é, planos articulados de desenvolvimento científico e tecnológico, tornou-se paulatinamente parte das políticas econômicas de muitos países capitalistas. Nos relatórios de muitos deles são comuns as referências às “estratégias de desenvolvimento”, tanto nas ciências e tecnologias, quanto na aplicação destas na indústria, na agricultura e nos serviços. O que inclui a crescente participação estatal e a adoção de medidas de investimento e fiscais que intensifiquem tais participações.

A China é, muito provavelmente, o país em que tais políticas ocorrem da forma mais ordenada e intensa. Seu plano geral, científico, tecnológico, industrial, agrícola e ambiental, tem metas gerais para 2050. E inclui metas parciais, decenais, quinquenais e anuais. O décimo quarto plano quinquenal, 2021/2025, em plena execução, tem o projeto “One Belt, One Road”, de conexão terrestre e marítima mundial, como carro chefe. E é um exemplo do papel que o planejamento estatal pode desempenhar no processo de desenvolvimento futuro.

Aliás, se examinarmos a estratégia chinesa de desenvolvimento, a partir de 1978, verificaremos que a participação média da indústria no PIB chinês cresceu cerca de 46%, enquanto no restante do mundo aumentou 29% e, no Brasil, perdeu importância. Por volta de 2020, a China já possuía, consolidadas, em cada setor produtivo, empresas estatais, assim como empresas privadas nacionais e estrangeiras.

As empresas estatais concorrem com as empresas privadas, nacionais e estrangeiras. E, obrigatoriamente, também concorrem entre si, para evitar qualquer tendência de burocratização e para contribuir na realização de inúmeros projetos governamentais e privados de desenvolvimento. O que tem incluído projetos específicos de superação da miséria secular em que viviam os habitantes de algumas regiões chinesas.

Os bancos estatais chineses desempenham um papel importante no financiamento dos projetos de desenvolvimento, tanto produtivos quanto de infraestrutura. O Banco de Desenvolvimento da China, por exemplo, tem um fundo de 40 bilhões de dólares destinados a financiar o projeto da Nova Rota da Seda, enquanto o Novo Banco de Desenvolvimento e o Banco Asiático de Inversão em Infraestrutura, com capitais acima de 100 bilhões de dólares, se destinam a promover investimentos multilaterais de desenvolvimento social e ambiental.

 Em outras palavras, com seus projetos de conexão internacional, a China se tornou em condições de investir no exterior. Por um lado, para reduzir os custos dos transportes através da modernização das instalações de infraestrutura dos países com os quais se relaciona. Por outro, para acrescentar investimentos nos setores industrial e comercial desses países, ampliando sua capacidade produtiva e de geração de empregos e concorrendo com outras empresas multinacionais.

Em vista disso, não são poucos os países, inclusive europeus, que vislumbram saltos tecnológicos em seus transportes, tanto marítimos quanto ferroviários e aéreos, em sua geração energética, e em sua melhoria ambiental, possibilitando a suas empresas nacionais, assim como a sua população, um desenvolvimento e uma geração de empregos de mais longo prazo.

Por outro lado, o desenvolvimento chinês, nacional e internacional, tem contribuído para criar crescentes dificuldades para as antigas coalizões imperialistas, afetando principalmente não só os planos de direção mundial do imperialismo norte-americano, como o próprio desenvolvimento interno do capitalismo estadunidense. Com sua mão de obra muito mais barata e com suas zonas econômicas de desenvolvimento, a China ofereceu amplas oportunidades de investimentos às empresas capitalistas norte-americanas, europeias e asiáticas, criando crescentes dificuldades para ataques à própria China, como ficou evidenciado nos problemas enfrentados por Trump em sua política de confronto anti-chinês.

Em contrapartida, aproveitando a obrigação de transferência de novas ou altas tecnologias nas joint ventures das empresas estrangeiras com empresas chinesas, assim como seus planos internos de desenvolvimento científico e tecnológico, a China tem dado crescente consistência científica e tecnológica à sua indústria e, em geral, à sua economia, tornando-as capazes de competir, de forma crescente, tanto em tecnologia, quanto em custos, com as empresas estrangeiras, no mercado doméstico e no mercado internacional.

Em tais condições, estimulado principalmente pelo desenvolvimento científico e tecnológico, um número considerável de empresas situadas nos territórios norte-americano e chinês se confronta, de forma crescente, com a elevação da produtividade, cuja natureza contraditória consiste, por um lado, no aumento da capacidade produtiva e, por outro, na redução da necessidade de força de trabalho e, portanto, na redução do número de pessoas em condições de adquirir as mercadorias ofertadas.

Nos Estados Unidos, tal situação tem levado a um número crescente de desempregados e, como contraponto, ao renascimento do ideal socialista que, embora considerado por suas classes dominantes um perigo abjeto, é a forma civilizada de resolver tal contradição. Na China, porém, ainda há um campo vasto para o crescente atendimento das necessidades sociais de sua população de 1,4 bilhão.

Além disso, há uma perspectiva real de transição ordenada do mercado para o atendimento organizado das necessidades sociais, que pode ser vislumbrada, desde já, na instituição do seguro-desemprego, com a obrigação de que o desempregado realize cursos de aprimoramento técnico, ou esteja incorporado a trabalhos comunitários.

Ou seja, para analisar a experiência chinesa, chamada por vários estudiosos internacionais de “capitalista”, e compará-la à experiência capitalista real, é necessário buscar detalhes que, em geral, não aparecem no noticiário da imprensa dos países onde o capitalismo é predominante.

Além disso, compará-la à experiência brasileira torna-se ainda mais problemática porque o capitalismo brasileiro está involuindo para a era colonial, em que o Brasil, mesmo “independente”, era um simples fornecedor de matérias primas agrícolas e minerais. Parte considerável da burguesia brasileira dominante não entende nada de economia política e acredita piamente que o “agro é pop”, “é a verdadeira indústria”, e pouco se lixa para a desindustrialização real em curso no país.

Em tais condições, o fosso existente entre a China e o Brasil tende a aumentar, embora o Brasil continue fazendo parte dos BRICS e possa ter acesso privilegiado, tanto à experiência chinesa, quanto às experiências de outros países que descobriram que seu desenvolvimento depende do processo de contínuo crescimento industrial e domínio das ciências e novas tecnologias.

(*) Wladimir Pomar é escritor e jornalista


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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