Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Celso Amorim e a minimização do golpismo entre os militares

Por Marcos Jakoby (*)

Há pessoas que imaginam que escondendo ou negando um problema, somada a uma boa dose de sorte, possa fazer-se com que o mesmo desapareça. Essa sensação que tive ao ler e ver trechos da entrevista concedida por Celso Amorim a um programa da BBC (AQUI).

O problema em questão é o golpismo presente nas Forças Armadas. Quando perguntado pelo âncora do programa se os atos em Brasília de 8 de janeiro foram uma tentativa de golpe, Amorim disse que “sim, mas depende de quem você esteja falando. Eu pessoalmente não acho que os militares (…) estavam planejando um golpe militar, porque se eles tivessem feito isso eles teriam ido muito além.”

Ou seja, se entendi direito o que Amorim quis dizer, todos os militantes e as lideranças civis da extrema-direita envolvidos nas ações faziam parte de uma tentativa de golpe, mas os militares e a cúpula militar envolvidas não. “Depende de quem”! Então me indago, honestamente: a omissão, a conivência e a participação dos militares no movimento golpista ocorreram então com qual propósito? Ou Celso Amorim acredita na versão de que os militares imaginavam tratar-se de ações pacíficas e democráticas?

O assessor do presidente Lula complementa: “No fim das contas, não houve ação militar. Acho que vivemos em uma situação que não é simples, mas acho que vamos conseguir lidar com eles (militares). E eu acho que vamos com o tempo retomar a confiança completa nas nossas Forças Armadas.”

Amorim, a meu ver, equivoca-se. Houveram várias “ações militares” que contribuíram na tentativa de golpe.

Em primeiro lugar, os quartéis abrigaram os acampamentos golpistas desde o final do segundo turno em suas adjacências, área que é considerada de segurança nacional. A propósito, é bom lembrar, no dia 11 de novembro de 2022, a cúpula militar publicou a nota “Ao povo e às instituições”, assinada pelos três comandantes, onde faziam uma defesa dessas manifestações. Essa “ação militar”, de dar retaguarda política e material à extrema-direita, foi fundamental para viabilizar a tentativa de golpe no dia 08.

Em segundo lugar, há evidencias, ou melhor provas, de que o comando do Batalhão da Guarda Presidencial não só ajudou a invasão do Palácio do Planalto como ajudou na fuga de diversos manifestantes golpistas.

Em terceiro lugar, o comandante do Exército confrontou orientação do ministro da Justiça de que o acampamento defronte ao Quartel General em Brasília fosse desfeito na noite do dia 8; ademais, impediram, inclusive com tanques, que a Polícia Militar adentrasse o referido acampamento para efetuar prisões.

Por fim, os militares, por meio do ministro da Defesa, apresentaram a “saída” de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para controlar a situação e, assim, fortalecer o seu comando e a sua autoridade sobre a capital federal em detrimento do comando civil. Lula e o núcleo do governo acertadamente recusaram a alternativa.

Ou bem Amorim admite o envolvimento dos militares na tentativa de golpe, ou bem deixa de caracterizar os atos como um movimento de cunho golpista. Haveria ainda a hipótese de que os militares não tiveram nenhum envolvimento com ocorrido, mas isso seria de um negacionismo impossível de se sustentar frente a tantos fatos e evidências.

Claro, pode-se dizer que quando Amorim fala em “ação golpista” está referindo-se a um tipo de quartelada. Ou seja, eles não foram “muito além”. Bom, aí entramos no terreno das especulações de como o golpe seria operado em suas etapas e das condições e apoios necessários para que a “tentativa” pudesse ter maiores desdobramentos. O fato é de que o objetivo declarado e perseguido – a seu modo – pela extrema direita era de um golpe ou de criar as condições para tal.

Olhando de outra maneira: e se eles não foram “além” porque exatamente não haviam as condições necessárias, como falta de apoio externo e interno? E se foi uma espécie de “ensaio geral” para testar os limites da sociedade e das instituições que hoje não estão alinhadas ao bolsonarismo? Vamos pagar para ver? Ou vamos tratar todos os golpistas da mesma forma sejam eles civis ou militares, especialmente os do alto oficialato.

Amorim diz que acha que com o tempo “vamos com o tempo retomar a confiança completa nas nossas Forças Armadas”. Creio que isso somente será possível se os envolvidos, não importante a patente, como disse o presidente Lula, forem realmente punidos e a tutela militar for superada. E não se conseguirá isso passando pano para o golpismo presente entre os militares.

(*) Marcos Jakoby é professor, militante petista e editor do site  Página 13

 

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