Sobre o debate na Globo

Sobre o debate na Globo

Sobre o debate na Globo

Sobre o debate na Globo

Por Valter Pomar (*)

Assim que terminou o debate na Band, no domingo 16 de outubro, começou o debate sobre o debate.

A maior parte deste debate se deu entre apoiadores da campanha Lula.

Além de centenas de milhares de comentários individuais e de milhares de opiniões transmitidas em lives, há centenas de textinhos e textões a respeito.

O simples fato de existir tanto debate revela que o confronto na Band não terminou em nocaute.

Por isso mesmo, vários dos que opinaram a respeito afirmam que Lula teria “vencido por pontos”.

E alguns buscaram confirmar esta opinião recorrendo aos resultados de pesquisas feitas durante e logo após o debate, com grupos focais e com o público que assistiu o debate (público majoritariamente eleitor de Lula, é bom lembrar).

Para complicar a análise, tanto a campanha de Lula quanto a do cavernícola editaram seus “melhores momentos”, o que faz com que muitas pessoas formem sua opinião não a partir do debate propriamente dito, mas a partir destes recortes.

E como se não bastasse tudo isso, há mais um fator a considerar na avaliação do debate, a saber: estamos no meio de uma guerra e, portanto, não se fala tudo o que se pensa.

Isto posto, deixarei para outra hora esta polêmica e vou falar do debate na Globo.

Nele, se não acontecer nada de novo (hipótese muito baixa disto ocorrer), o cavernícola vai entrar mais tranquilo do que entrou no debate da Band. Isso por três motivos fundamentais:

1/ o debate da Band aconteceu logo depois do cavernícola ter contribuído para popularizar outra palavra difícil, além de neofascista, misógino e genocida: pedófilo. Isso lhe custou uma noite mal dormida, pelo menos um dia de campanha perdido, muitos milhões de reais (aliás, quem acha que o empresariado não tem lado nessa eleição deveria explicar de que planeta vem o dinheiro usado pela campanha miliciana) gastos em contrapropaganda e um exitoso trabalho de lobby que lhe rendeu uma decisão favorável do Xandão, aquele que supostamente não teria nada a temer. Aliás, as pessoas que difundiam que o ministro Alexandre de Moraes seria correto nesta eleição deveriam se perguntar como se explica ele passar o pano nesta situação do “pintou um clima”;

2/ o debate na Band demonstrou, para o cavernícola e seus apoiadores, algo que deveria ter sido óbvio para todos nós desde o início: não é nada fácil debater com um canalha. No confronto entre a verdade e a mentira, entre um cidadão e um sociopata, quem tem maior dificuldade é o lado do bem. Pois o lado oposto não tem nenhuma dificuldade em mentir, em caluniar, em difamar, em desviar o assunto, em lançar dados falsos, em usar técnicas de intimidação psicológica (tipo tocar no adversário, deixando o oponente na dúvida sobre o que seria mais adequado: se conter ou dar um chega para lá, acompanhado de um sonoro “tire as mãos de mim, seu imundo”). Aliás, a avaliação da Jovem Pan (sim, eu escuto a cloaca) é a de que o cavernícola entrou nervoso e depois teria dominado a situação e, portanto, poderia fazer o mesmo no debate da Globo;

3/finalmente e na minha opinião o mais importante, o cavernícola saiu do debate na Band seguro de que tem a palavra mágica: “corrupção”. Parece incrível, afinal trata-se de assunto manjado desde 2005. Mas, como nos filmes e séries acerca do sobrenatural, “corrupção” seria a senha para o monstro assumir o controle da situação. Aliás, registre-se que – diferente de certo coronel, que não sei por onde anda – Moro colocou o orgulho no saco e veio dar um little help para seu comparsa. Dizem até que foi posicionado de forma a ser visto por nosso candidato.

Pelos três motivos citados, é possível que cavernícola entre mais tranquilo no debate da Globo. Entretanto, há algumas diferenças importantes entre o debate da Band e o da Vênus Platinada. Uma destas diferenças é o momento: véspera do segundo turno. Se não houver nenhuma alteração daqui até lá, o quadro eleitoral continuará o seguinte: o cavernícola atrás nas pesquisas, por pouco, crescendo, mas ainda atrás.

Se esta for a situação, o cavernícola disporá então de três armas: a capacidade de mobilização de sua tropa; “operações especiais” que dificultem o voto do nosso povo; e produzir algum fato novo que gere impacto na massa de pessoas que se abstiveram no primeiro turno.

Sendo assim, é provável que o cavernícola entre no debate da Globo ainda menos preocupado com o debate em si e ainda mais preocupado em falar para seu povo. Lembrando que na lógica do valentão, se você xinga a mãe do outro e o xingado não fala nada, é porque você ganhou, ou seja, animou sua torcida e deprimiu a do inimigo.

Se as coisas forem assim, o que o nosso lado poderia aprender do debate na Band que possa ser útil no debate da Globo? Como me ensinaram o pai nosso há muito tempo (no primário em Belém do Pará) e como há muitos vigários envolvidos na preparação de Lula, vou me limitar a dar umas sugestões políticas, todas espero que óbvias.

Nosso principal objetivo no debate (nas redes e principalmente nas ruas, onde esta eleição será decidida) deve ser ampliar a diferença entre nós e o cavernícola, de maneira a neutralizar os ganhos que eles possam conseguir na reta final, seja devido às abstenções, seja devido ao crescimento de chegada que eles já demonstraram ter.

Para ampliar a diferença, precisamos buscar votos em todos os lugares, mas principalmente o voto de quem não compareceu no primeiro turno. E neste mister não devemos acreditar em “balas de prata”. Embora possamos e devamos dizer toda a verdade sobre o monstro, não cabe cair no conto (do vigário!!!) de que será isso, muito menos num debate mano-a-mano, que vai decidir o jogo. Até porque nem a Globo, nem o Xandão, são de confiança e não custa nada darem direito de resposta e ganho de causa para o cavernícola.

Assim, o mais garantido é ficar no que alguns chamam de feijão com arroz: a pauta do povo. Por pauta do povo, leia-se o seguinte três-em-um: a comparação de legados, as propostas e o futuro pelo qual lutamos.

Os melhores momentos de Lula, no debate da Band, foram quando ele se concentrou nisto. Às vezes é melhor deixar uma canalhice sem resposta e usar o tempo para falar do que realmente interessa ao povo: desmascarar o governo cavernícola e suas políticas; apresentar mais e melhores propostas; e principalmente disputar o futuro.

Especialmente no debate da Globo, este tema do futuro precisa ter mais destaque.

Quando o cavernícola fala de Deus, Pátria, Família e Liberdade, ele está – do jeito neofascista dele – disputando que tipo de futuro teremos em nosso país e no mundo.

Da mesma forma, quando ele tenta converter o processo eleitoral numa guerra religiosa, o que está em jogo é qual futuro queremos construir, para quem e onde, se na terra ou no céu.

O lado de lá sabe desde sempre da importância da luta ideológica nessas eleições.

Para eles, trata-se de uma batalha “espiritual”. Nas palavras que uma amiga ouviu de uma influencer de direita, o que estaria em jogo não seria a economia, não seria essa ou aquela política, o que estaria em jogo seria nossa “espiritualidade”.

Não se enfrenta este tipo de abordagem apenas com legado e propostas. E não vamos conseguir derrotar a legião dos espíritos de porco com “fake news do bem”, invenção que Janones deve ter customizado a partir dos ensinamentos de Emília, acho que na visita ao país da gramática de Monteiro Lobato.

Contra o futuro passado do lado de lá, precisamos mobilizar a esperança laica e concreta em um futuro radicalmente melhor para o povo brasileiro.

Nosso candidato sabe fazer isso de várias maneiras. Foi, por exemplo, o que ele fez ao falar da picanha e da cerveja, da educação, da saúde.

Mas seu melhor momento – no que diz respeito a falar do futuro – foi quando ele saiu em defesa do povo criminalizado pelo cavernícola.

Ao defender a classe trabalhadora e, principalmente, ao dizer que confia no povo, ele mobilizou uma crença simples, mas sempre inspiradora: a de que o futuro está em nossas mãos, nas mãos de dezenas e dezenas de milhões de pessoas espalhadas por todo este país, que trabalham de Sol a Sol.

Esta é, penso eu, a nossa “palavra mágica”, capaz de despertar em parte dessa massa que se ausentou do primeiro turno um poderoso sentimento de identidade com nosso projeto de futuro.

É com classe, muita classe trabalhadora, que podemos vencer a baixaria.

Boa sorte ao companheiro Lula e a todos e todas nós, no derradeiro debate.

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT

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