Vão-se os homens, ficam as lutas: Zeca, PRESENTE!

Vão-se os homens, ficam as lutas: Zeca, PRESENTE!

Vão-se os homens, ficam as lutas: Zeca, PRESENTE!

Vão-se os homens, ficam as lutas: Zeca, PRESENTE!

Por Mateus Lazzaretti (*)

 “Oh chê”, falava ele pra todo mundo, “vá ler um pouco de Marx”, cobrava de outros. José Mássimo Ilha Noya, o famoso Zeca, foi uma figura ímpar e um companheiro de grande coração que nunca perdeu a capacidade de tremer de indignação frente às injustiças. É difícil encontrar qualquer militante que tendo em algum momento de sua vida passado por Santa Maria/RS, não conheça o Zeca, que não tenha alguma história fantástica, engraçada, inusitada, que não tenha tido que apressar o passo pra chegar ao seu destino porque parou para conversar com ele na praça e quando viu já tinha se passado muito tempo e agora estava atrasado. Assíduo leitor de obras revolucionárias, Zeca lia até mesmo enquanto caminhava, em seus passos lentos e ritmados. Era um frequentador assíduo da CESMA (Cooperativa de Estudantes), onde circulavam livros revolucionários e de questionamento à moral burguesa.

Criado em Santana do Livramento, fronteira com Uruguai no sul do Rio Grande do Sul, Zeca era filho de militar, e cresceu questionando e conversando com seu pai sobre política. Com 20 anos, em 1976, veio para Santa Maria. Estudou Agronomia e depois Engenharia Florestal. Dizendo ser perseguido pelos professores – afinal de contas, era um subversivo vivendo sob a Ditadura Civil-Militar -, não concluiu a graduação. Depois disso, foi servidor público na Escola Agrotécnica Federal de São Vicente do Sul/RS, tendo posteriormente se transferido para a UFSM, onde atuava como Técnico Administrativo em Educação. Como TAE, estava sempre disponível para acompanhar inúmeras viagens do Movimento Estudantil e congressos acadêmicos, cruzando o Brasil e alguns países vizinhos ao lado de amigos e amigas estudantes.

Desde que chegou à UFSM, esteve envolvido nas mais diversas lutas sociais. Vivendo no ambiente efervescente da Casa do Estudante Universitário II, a CEU II da UFSM, estava em todas as rodas de discussão, sempre muito crítico e com espírito provocador. Não há quem não tenha aprendido um pouco sobre alguma coisa com o Zeca. Ainda no início dos anos 1980, com novos reposicionamentos das forças políticas de esquerda, parte dela ainda permanecendo nos Partidos Comunistas, outra parcela construindo o que seria o Partido Revolucionário Comunista (PRC), Zeca foi um dos corajosos fundadores do PT em Santa Maria, sem nunca ter deixado de ter suas justas críticas e lutar por um PT socialista e revolucionário. Também na década de 1980 participou do GAMST, Grupo de Apoio e Luta do MST. Foi grande aliado das lutas dos povos indígenas em Santa Maria e especialmente na UFSM, quando por volta de 2009 ajudou a criar o GAPIN, Grupo de Apoio aos Povos Indígenas. Da mesma forma, sempre foi aliado da luta do Movimento Negro dentro da universidade. Estas pautas sempre foram muito caras para o Zeca, que sabia como ninguém a quem pertencia a América Latina, ou como ele defendia nos últimos anos, Abya Yala, denominação usada por organizações indígenas para se contrapor ao eurocentrismo do nome “América”.

Aliás, a luta internacionalista sempre foi uma das marcas registradas da trajetória do nosso querido José Mássimo. Em duas ocasiões (2010 e 2014) organizou viagens com companheiros ao Uruguai para contribuir de forma militante na campanha de Pepe Mujica (para presidente e depois senador) e do Frente Amplio. Em 2015 e 2016 começou, de forma solitária, a organizar localmente uma rede de solidariedade aos Cinco Heróis Cubanos, presos nos EUA por espionagem. Buscou apoio para esta ação na juventude, já que tinha a habilidade de dialogar com todas as organizações políticas do movimento estudantil na UFSM. Além disso, nos anos em que convivi com ele em Santa Maria, sempre apoiou as iniciativas de solidariedade à Venezuela frente aos ataques da direita brasileira. Zeca compreendia como poucos – e buscava transmitir sempre – a importância da luta dos povos latino-americanos para a emancipação do nosso continente. Certamente contribuiu ricamente com esse debate nos círculos do movimento estudantil, provocando o debate sempre que podia.

(Foto feita pela companheira Thani Prunzel registrando a felicidade do Zeca pela libertação dos Cinco Heróis Cubanos em 2015)

Zeca era também um profundo conhecedor da história – oficial e clandestina – da resistência à Ditadura Civil-Militar. Por isso que, mesmo estando atrasado para comer no RU, ir pra aula ou pegar algum ônibus, sempre parava para conversar e ouvi-lo, porque na condição de estudante de História e militante político, sabia que teria sempre algo a aprender com ele. Seu conhecimento da época foi especialmente importante após a vitória do cavernícola nas eleições de 2018, por saber identificar o fenômeno que se desenrolava diante dos nossos olhos. Foi nessa ocasião também que, despretensiosamente, emprestou a mim e outros camaradas da Juventude da AE uma versão em espanhol do famoso Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de Marighella, uma figura a quem Zeca reputava enorme importância na história do Brasil. Quando fui lhe devolver, sabendo do apreço que ele tinha por seus livros e o tempo em que aquele estava em minha posse, ele foi curto, direto e espontâneo: “chê, esse aí tu repassa pra gurizada, que eles tem que ler”.

Coincidência ou não, no último dia 04 de novembro de 2022, mesmo dia do aniversário do assassinato de Marighella, o grande camarada Zeca nos deixou. Foi encontrado em sua cama já sem vida, vítima provavelmente de um mal súbito. Quando a notícia começou a se espalhar, embora todo mundo temesse que esse dia pudesse chegar, o primeiro sentimento foi de incredulidade. Como assim o Zeca morreu? “Que história é essa chê?”. O Zeca de sempre, de todas as horas e todas as lutas, que conheceu as mais diversas gerações de militantes de Santa Maria, viveu diversas conjunturas, das piores às melhores que tivemos. O camarada que sempre tinha algo a ensinar, uma alfinetada pra dar, uma piada pra contar, uma luta pra tocar. É realmente difícil aceitar a partida de uma entidade tão onipresente como foi José Mássimo Ilha Noya. Teimoso como era, não aceitaria partir antes de ver a vitória de Lula. Particularmente como militante da Juventude da AE, eu tinha o Zeca como um sábio ancião, mas também como uma espécie de herança histórica passada de geração para geração, a qual tinha por tarefa moral cultivar. Tenho orgulho da afinidade que ele sempre teve com nossa linha e prática política, pois pensava “se alguém com a bagagem do Zeca concorda e sempre dialoga com a gente, estamos na linha certa”.

O velório do camarada (e as mensagens nas redes sociais) neste sábado foi uma amostra de como foi sua vida. Lá passaram e prestaram sua homenagem os ex-colegas de CEU II, amigos, familiares, indígenas, assentadas, militantes de diversas gerações do movimento estudantil e outros movimentos da cidade, fora tantos outros que, pegos de surpresa pela notícia, não puderam estar presentes. Todas trajetórias marcadas, de uma forma ou de outra, pela trajetória de lutas pela classe trabalhadora desse valoroso camarada que agora se despede das nossas trincheiras, mas cujas ideias, ensinamentos e exemplo, seguirão sempre vivos nos corações e mentes de cada um e cada uma que não aceita as injustiças e anseia pela construção de um mundo mais justo e fraterno, um mundo socialista, com respeito à diversidade e autodeterminação dos povos. Gracias por tudo, companheiro!

ZECA, PRESENTE!

(*) Mateus Lazzaretti é historiador, mestrando em Ciências Sociais na UFSM e militante da Juventude da Articulação de Esquerda/PT.

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