Xica vive na fumaça!

Por Anselma Garcia de Sales (*)

Texto publicado na edição de abril do Boletim P13 LGBTQIA+

Quem tem medo de Xica Manicongo? é o título do samba enredo da escola carioca Paraíso de Tuiuti, que desfilou este ano fazendo uma bela homenagem à personagem real que afrontou a velha ordem colonial imprimindo, com veemência, sua identidade e vontade.

Xica Manicongo, primeira mulher trans não indígena do Brasil, foi sequestrada na região do Reino do Congo e trazida ao Brasil como escravizada na segunda metade do século XVI. Tendo sido batizada com o nome de Francisco, passou a viver em Salvador, onde era constantemente vista adornando tecidos coloridos amarrados junto a seu corpo.

A atitude de vestir-se com trajes femininos e os boatos que apontavam ser Francisco um “sodomita” causaram a indignação de um cidadão cristão, chamado Matias Moreira, que a denunciou ao Santo Ofício da Inquisição, dando início a um processo de perseguição manifestamente transfóbico.

O teor da acusação, descrito nos documentos de arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, fontes de pesquisa do antropólogo Luiz Mott, revelaram que o incômodo provocado pela presença do corpo negro travesti na cristandade do Brasil colonial era reconhecido como crime de lesa majestade, sendo, por isso, passível de punição com a pena de morte na fogueira.

Assim, Xica, vigiada e perseguida, tentou adequar-se aos padrões religiosos e morais daquela sociedade se vestindo, às vezes, com trajes destinados ao gênero masculino. Entretanto, sendo uma quimbanda, não poderia suprimir seu caráter voluntarioso, não existindo “lei que o condene como não há ação que não lhe seja permitida. Portanto, fica sempre sem castigo, embora abuse sem embaraço de sua impudecência, tão grande é a estima que por ele o demônio inspira!”1

Não obstante, sem temer as ameaças, a personagem audaciosa e livre entoa seu grito de resistência na avenida: “Vim da África Mãe, ê-ô/Mas se a vida é vã, ê-ô, mumunha/Kimbanda me fiz, nganga é raiz/Eu pego o touro na unha (…) Só não venha me julgar/Pela boca que eu beijo/Pela cor da minha blusa/E a fé que eu professar/Não venha me julgar/Eu conheço o meu desejo/Este dedo que acusa/Não vai me fazer parar”.

Esses versos, cuja autoria é do historiador Cláudio Russo, foram elaborados a partir de um processo criativo bastante interessante, que abrange o relato oriundo da pesquisa histórica, ofício do carnavalesco compositor, e a narrativa obtida através da experiência de vida.

Russo, em entrevista ao vivo concedida ao jornalista José Eduardo Bernardes, do Brasil de Fato, em 4 de março deste ano, afirmou ter frequentado um terreiro de catimbó e quimbanda com o objetivo de obter informações que o auxiliassem na composição do samba enredo.

Na gira, encontra a entidade Maria da Praia, que diz que Xica Manicongo correspondia a uma Ideia, não podendo, portanto, ter sua vida meramente relatada como um evento histórico cronológico.

O compositor conversa também no terreiro com Bruna Maia, mulher trans que relata inúmeros episódios de preconceito e violência, atitude cotidiana empreendida por olhares inquisidores, que insistem em enquadrar os corpos trans nos parâmetros binários.

Desse modo, o autor de Quem tem medo de Xica Manicongo? estabelece uma fusão entre o relato espiritual e o relato real, produzindo uma poesia permeada por um ativismo mágico extraordinário: “Eu sou/A bicha, invertida e vulgar/A voz que calou o sistema/A bruxa do conservador/O prazer e a dor/Fui pombogirar na Jurema/Chama a Navalha, a da Praia e a Padilha/As perseguidas na parada popular/E a Mavambo reza na mesma cartilha/Pra quem tem medo o meu povo vai gritar/Eu travesti/Estou no cruzo da esquina/Pra enfrentar a chacina/Que assim se faça/Meu Tuiuti/Que o Brasil da terra plana/Tenha consciência humana/Chica vive na fumaça.”

Por fim, Xica acaba sendo morta na fogueira e, séculos depois, o Brasil continua a matar uma pessoa LGBTQIAPN+ a cada 34 horas, colocando o país na primeira posição do ranking mundial nesse tipo de crime.

Portanto, a mensagem de Xica Manicongo deve sempre ser enfatizada, e trazê-la através da simbologia do carnaval popular inscreve a cultura negra, trans e periférica como elementos inequívocos de resistência. ★

(*) Anselma Garcia de Sales é professora e militante do PT e da AE em Campinas/SP


  1. Luiz Mott, Raízes Históricas da Homossexualidade no Atlântico Lusófono Negro. Afro-Ásia, 33, 2005, p. 9-33

 

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