Tá lá o corpo estendido no chão… (Resolução da DEAE-RJ)

 

Página 13 divulga resolução da Direção Estadual da Articulação de Esquerda do Rio de Janeiro sobre o sequestro do ônibus ocorrido na ponte Rio-Niterói, o assassinato de Willian Augusto da Silva, sequestrador do ônibus, pela polícia e a comemoração do governador Wilson Witzel.

 

Tá lá o corpo no chão…

 

O dia 20/08/2019 foi um dia triste e de horror na cidade do Rio de Janeiro. Um ônibus foi sequestrado na Ponte Rio Niterói por Willian Augusto da Silva, negro, 20 anos, fazendo 39 reféns por quase 4 horas.

Estabelecendo, de imediato, a irrestrita solidariedade com os reféns e seus familiares, precisamos discutir o que o campo da esquerda tem a dizer sobre esse episódio. Certos de que não haverá unanimidade sobre as avaliações acerca do terrível evento, lançaremos aqui as nossas discussões.

A cena hedionda do Governador Witzel descendo espetacularmente de um helicóptero, celebrando a morte de Willian como se comemorasse um gol de placa e ovacionado pela população diz muito sobre o momento que estamos vivendo. Tal cena revela uma história como seu pano de fundo… Podemos propor como elementos para sua gênese:

1- Jessé Souza, sociólogo, defende que a nação brasileira se funda numa lógica escravocrata jamais elaborada. Uma percepção objetificada e desumanizante do negro alimenta até hoje as relações sociais que geram o ódio racial, um dos pilares marcante da dominação burguesa no Brasil. Um jovem negro abado no chão é lugar comum desde os primórdios da escravidão.

2- O equívoco de uma lógica de segurança pública que ganhou m e n t e s p o p u l a r e s , a o estabelecer que violência se combate com mais violência. O p o v o p o b r e , mo r a d o r d e comunidades, submetido à violência de estado tem sido sistematicamente convencido de que sua segurança só acontecerá com a morte de todos os “bandidos”. Lógica essa que não recebeu de nossa parte, enquanto esquerda, o necessário confronto e discussão. A gênese da violência, para além da concepção de índole e escolha individual, não foi nem tem sido debatida amplamente.

3- A falta de compreensão de como a guerra às drogas alimenta a violência urbana contribui, acreditamos, para o que discutimos aqui. A ausência de amplitude no debate da questão das drogas, sem trazer à baila experiências exitosas na descriminalização que levaram à redução da violência e evidências como dados da Organização Mundial de Saúde que mostram existir cerca de 285 milhões de usuários de drogas no mundo e apenas 85 milhões desses com desenvolvimento de transtornos ligados ao uso abusivo de drogas, revelando que a temática deveria ser responsabilidade do campo da saúde e não da polícia.

4- O avanço de uma visão de mundo negadora da diferença, defensora da rerada de direitos e criminalizadora dos movimentos sociais, fortalecida desde o golpe de 2016 e que se uliza do medo como alimento de sua prática política faz parte da construção da cena tenebrosa vista em 20/08/2019. Essa visão de mundo vem se aproximando cada vez mais de concepções fascistas. Umberto Eco, em seu texto O Fascismo Eterno, discute como para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. O pacifismo é visto como conluio com o inimigo, é mau porque a vida é uma guerra permanente e, sendo assim, o Ur Fascismo defende a lógica da ação pela ação sem reflexão.

Quando analisamos a cena que levou à morte de William Augusto da Silva, podemos perceber a influência dos elementos discutidos acima. Protocolos de segurança pública apontam, como bons métodos para ações de sequestro, o investimento prioritário no dispositivo da negociação, visando o cansaço do sequestrador e sua rendição. Para isso, especialistas em negociação, psicólogos e familiares podem ser utilizados como atores do processo. Essa questão é muito bem desenvolvida por Cid Benjamin no artigo “A Sociedade Está Doente” na Revista Fórum de 21/08/19. Sabemos que houve negociação, mas o investimento nesse dispositivo como prioritário não ficou claro em nenhum momento. William saiu do ônibus várias vezes e foi descrito pelos reféns com portador de discurso de que não desejava feridos. Só que Willian era negro e sua raça lhe trazia as marcas da desumanização. Fosse William branco, acreditamos, o dispositivo da negociação poderia ter sido mais investido.

O clamor popular pelo abatimento do sequestrador aconteceu desde o início do sequestro, revelando que enorme parte do povo brasileiro acredita que a solução para a violência é o extermínio. E, ainda que o abatimento de William fosse necessário, o que pode acontecer em situações limite, isso não significa o sucesso da operação. Os reféns liberados com vida, sem dúvida, apontam um sucesso, mas uma operação como essa só será totalmente b e m -s u c e d i d a q u a n d o a negociação vence, o sequestrador se rende, vai ser julgado e os reféns saem ilesos.

O que leva grande parte da população a defender a operação como um sucesso, a celebrar a morte de Willian é a sensação de que matar William é matar sua insegurança pública. Insegurança pública senda de um ponto de vista individualista e sem compreensão da influência dos elementos coletivos.

A nós de esquerda cabe denunciar o avanço da lógica do fascismo, confrontar essa política de segurança pública movida pelo extermínio e nos voltar para o povo, entendendo que nosso afastamento das comunidades facilitou os crescimento das concepções que falamos aqui. Precisamos debater, ampliar as discussões, disputar mentes e corações e lutar por uma outra lógica que não seja produtora de mais violência. Os tempos são sombrios e exigem muito de nós para enfrentar os avanços fascistas. Como diz Guimarâes Rosa: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

23 de agosto de 2019

Tendência Petista Articulação de Esquerda  – Direção Estadual do Rio de Janeiro

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