Nem Capital, nem Patriarcado!!

Por Suelen Aires Gonçalves (*)

14º Encontro Nacional de Mulheres do PT, 2026. Foto: Redes da Secretaria Nacional de Mulheres do PT – SNMPT

O balanço político das Mulheres da Articulação de Esquerda (AE) sobre o 14º Encontro Nacional de Mulheres do PT, realizado entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026 em Luziânia (GO), tem elementos advindos da organização para com o encontro e elementos sobre os desafios políticos. O encontro, sediado no Centro Técnico Educacional da CNTI, teve como meta apresentada pelo Coletivo Nacional de Mulheres do PT a participação de 600 delegadas presenciais, ou seja, um quórum mínimo para sua realização, com um esforço de custeio via Fundação Perseu Abramo (FPA) para garantir o transporte aéreo e terrestre das delegações. A representatividade numérica nos estados foi diversa, totalizando 1.147 delegadas inscritas, com destaques para as delegações do Rio de Janeiro (271), São Paulo (142), Ceará (73) e Rio Grande do Sul (72). Este quórum mínimo, em tese, foi selecionado respeitando a diversidade das forças políticas estaduais e critérios de cotas raciais e de juventude, essenciais para a composição de um partido que busca ser um espelho do povo organizado.

Programaticamente, o evento inseriu as mulheres no debate do 8º Congresso Nacional do PT, focando nos desafios da organização partidária e na construção de um programa de governo para 2026 que tenha a identidade feminista como pilar. Os grupos de trabalho debateram eixos cruciais como a formação política que “enraíza”, a comunicação, e a reforma do estatuto para garantir acesso real aos espaços de decisão. Centralizou-se também a discussão sobre o enfrentamento à violência política de gênero e a reeleição de Lula como garantias para a ampliação do poder feminino. Porém, não foi priorizado na programação um debate mais aprofundado.

Neste balanço político das mulheres da Articulação de Esquerda, reafirmamos nossa trajetória de mais de 33 anos na linha de frente das lutas feministas e populares. O cenário de 2025 nos confronta com a necessidade de uma análise crítica profunda: apesar dos avanços do Governo Lula, enfrentamos a persistência do neoliberalismo, do conservadorismo e de uma ofensiva sobre os direitos sociais. A crise dos cuidados, agravada por políticas de austeridade, continua a sobrecarregar as mulheres trabalhadoras, negras e periféricas, que sustentam a vida enquanto o Estado se retira da provisão de serviços públicos essenciais. Nossa luta é, portanto, indissociável de um projeto socialista que coloque a vida no centro da estratégia política nacional.

Apostamos em um feminismo que seja socialista, antirracista e verdadeiramente interseccional. Para as mulheres da AE, a reconstrução do Brasil exige a ruptura com a lógica do capital e do patriarcado, não apenas a conciliação. Defendemos o mínimo de 50% de mulheres nas composições dos espaços do PT como um princípio democrático inegociável e a autonomia das Secretarias de Mulheres na gestão de recursos dos fundos partidário e eleitoral. É fundamental que o partido invista na formação política feminista e no combate rigoroso à violência política de gênero, garantindo que as mulheres não apenas ocupem espaços, mas tenham condições materiais e segurança para liderar. Reafirmamos nosso compromisso com a soberania popular e a solidariedade internacional, marchando sempre em busca de uma sociedade onde a liberdade e a justiça social sejam realidade para todas as companheiras.

O encerramento do 14º Encontro das Mulheres do PT foi marcado pela eleição da Secretaria e a leitura do documento final, tese consolidada em conjunto das forças, que reafirma a necessidade de autonomia política e financeira para as mulheres, consolidando a tese de que não há vitória ou reconstrução do Brasil sem a participação ativa e protegida das companheiras. No âmbito dos temas centrais, observa-se que a inserção das mulheres no debate do 8º Congresso Nacional do PT, pela falta de espaços mais aprofundados de debate ao longo do Encontro, corre o risco de ser meramente acessória, focando excessivamente em desafios de organização partidária e na reeleição de Lula como garantias de poder.

(*) Suelen Aires Gonçalves é feminista negra e militante do PT.

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