Congresso do ANDES-SN: lideranças destacam suas expectativas

Por Rita Camacho (*)

Organizar as lutas em meio a tão adversa conjuntura internacional e em pleno ano de eleições gerais no Brasil está entre os desafios do 44º Congresso do ANDES Sindicato Nacional, que será realizado de 2 a 6 de março na UFBA, em Salvador. Esse cenário desafiador é o pano de fundo das teses apresentadas pelas diferentes forças que compõem as seções sindicais. Para conhecer as expectativas que recaem sobre o encontro, o Página 13 ouviu cinco lideranças: Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, professor de Geografia no Colégio Universitário da UFMA e militante do PSOL; Nicole Pontes, vice-presidenta da seção sindical ADUFERP, professora de Sociologia na UFRPE em Serra Talhada e militante da tendência O Trabalho, do PT; Fran Rebelatto, professora de Cinema e Audiovisual da UNILA, integrante da corrente sindical Unidade Classista do PCB; Maria Lídia Bueno Fernandes, presidenta da ADUnB e professora da Faculdade de Educação da UnB; e Maria Carlotto, presidenta da ADUFABC, professora de Economia Política Mundial da UFABC, integrante da Confluência Democrática no ANDES e militante da tendência Articulação de Esquerda, do PT:

Para Claudio Mendonça, a tarefa central é derrotar a extrema-direita em todas as dimensões da luta. “Por isso que o ANDES entende que a tarefa número um que nós temos que ter nessa conjuntura de 2026, eu estou falando pela diretoria, pelo acumulado que a diretoria tem feito, é estar presente em todos os espaços de unidade que nos possibilite fazer o enfrentamento direto ou indireto aos setores reacionários”.

Maria Carlotto considera que temos dois inimigos muito pesados: o neoliberalismo e o conservadorismo. “Mas se, de um lado, estamos pressionados pelo neoliberalismo, de outro, também temos a ameaça da extrema-direita, que, além de neoliberal e elitista, é também negacionista, autoritária, antiuniversidade, de modo que, se a extrema-direita volta para o governo, representa para nós, da educação pública, uma ameaça existencial.” Em vista desse diagnóstico, ela afirma que o ANDES precisa ser um sindicato de massas. “Nós, que hoje nos organizamos como Confluência Democrática, estamos batendo nisso há cerca de dez anos. Ou seja, entendemos que o ANDES, para fazer o enfrentamento que ele precisa fazer, que é muito pesado, tem que mudar e mudar de patamar de organização. Isso, para nós, vai ser feito essencialmente se o ANDES aumentar a filiação. E você não faz isso se você não constrói mediações entre a experiência concreta dos docentes e essas grandes pautas que mencionei. Então é isso que a Confluência Democrática chama de soluções concretas para problemas concretos.”

Para Maria Lídia, uma demanda concreta “é a defesa da democracia, a defesa da universidade pública, a defesa dos docentes, principalmente referente aos ataques da extrema-direita”. Por isso ela defende que devemos “estar antenados com tudo que acontece no mundo, com essas mudanças geopolíticas fundamentais, inclusive para a sobrevivência do planeta. Do planeta não, eu sou geógrafa, eu brinco que não é o planeta. O planeta vai passar incólume. Nós é que não vamos sobreviver.”

Nicole Pontes afirma que a conjuntura mundial nos leva ao princípio internacionalista. “A preocupação com a política internacional reflete uma ideia de que a gente precisa fortalecer também a nossa participação e a nossa discussão num sentido internacionalista pela luta de classes, pela classe trabalhadora. Construir uma classe trabalhadora internacionalmente que tenha pontos fortes de apoio em diversos lugares e se contraponha a essa lógica da extrema-direita e desse capitalismo que avança, daí as discussões internacionais tendo um peso grande”. Nicole também defende que o ANDES debata a questão da imigração. “A gente [do RenvoaANDES] acha que o sindicato tem um papel importante nesse processo, tanto nessa relação internacionalista, da condição da luta pela liberdade de circulação dos trabalhadores, com defesa de soberania, mais livre circulação das pessoas para buscar as suas possibilidades de vida e sobrevivência, onde quer que seja.”

Fran Rebelatto espera que o Congresso traga caminhos em reação à conjuntura internacional: “Que a gente possa sair com bons direcionamentos de luta, nesse sentido de como é que vamos nos organizar enquanto trabalhadores para fazer o enfrentamento de como o imperialismo está se impondo sobre a América Latina, tanto diante do que aconteceu na Venezuela, com o sequestro do presidente e todas as intervenções que estão acontecendo naquele país, mas agora, também, esse aprofundamento do bloqueio criminoso contra Cuba. Nós estamos falando do ano de centenário de Fidel Castro. Então é bem importante que a gente possa ter um debate muito qualificado e sair com um plano de lutas que nos apontem também caminhos para essas possibilidades de articulação nacional e internacional para a gente fazer um enfrentamento ao impacto que significa as políticas do imperialismo, destacando a América Latina, onde nós estamos, mas de uma forma geral no mundo como um todo”.

Seções sindicais

A descentralização é apontada por Maria Carlotto como fator primordial para dar mais mobilidade e autonomia às associações de docentes de maior porte. “Então, no estatuto, está definido até como essas associações docentes vão fazer as suas eleições. Esse é um tema que vai estar na pauta e que nem vai ser levado por nós. Vai ser levado pela ADUSP, a Associação dos Docentes da USP, que organizou todas as associações docentes do estado de São Paulo para pautar o direito de que as bases, ou seja, essas associações docentes decidam como elas vão fazer as suas próprias eleições. Porque o Congresso do ANDES, hegemonizado pela diretoria, decidiu que não pode ter eleição virtual. Então, mesmo que a base queira fazer eleição virtual, o ANDES proíbe. E essa é a razão que leva, por exemplo, a ADUFRJ a querer sair do ANDES. Por quê? Porque a ADUFRJ é gigante. Ela tem 4 mil associados. Enorme. E eles fazem eleição virtual. Eles falam: ‘O que é o ANDES para decidir que eu não posso fazer?’. E a ADUSP está indo pelo mesmo caminho, de reivindicar um pouco mais de autonomia para fazer uma mediação política com a sua base.”

Já as seções sindicais menores ou mais jovens, na opinião de Fran Rebelatto, se ressentem da falta de apoio para que possam se desenvolver e participar de maneira mais ampla das diversas atividades de interesse. “As novas sessões sindicais, muitas vezes, não têm um fluxo mesmo de caixa, de recurso, a gente fica impossibilitado de participar de todas essas instâncias de acúmulo, porque, é isso, por questões materiais mesmo. Então, acho que esse é o debate, por exemplo, como é que a gente consegue ampliar essa participação das sessões sindicais nesses espaços, para além do próprio Congresso e do CONAD, que é o conselho do sindicato. Por exemplo, acho que o ANDES hoje, com a estrutura que tem, no momento que vive, poderia estar ampliando essa possibilidade de apoiar essas novas sessões sindicais, e esse é um pleito, por exemplo, que a minha própria sessão sindical faz”.

Maria Lídia defende que o ANDES reveja o fluxo de recursos justamente para possibilitar melhor funcionamento das ADs. “Nós temos uma sobrecarga de funções e uma sobrecarga de pagamentos, inclusive de rateios, e a gente tem encampado essa luta de que a gente precisaria ter esses recursos mais direcionados às necessidades das ADs e não tanto esse fluxo de recursos para o próprio ANDES. Nós precisamos repensar onde a gente gasta. A mobilização é importante, a mobilização é feita em cada AD, é feita territorialmente, então a gente precisa ter essa possibilidade de destinar recursos para atender às demandas da categoria no chão das nossas universidades, onde a luta acontece no cotidiano, onde a mobilização acontece.”

Acordo de greve e orçamento

Para o presidente do ANDES, Cláudio Mendonça, outro aspecto fundamental de debate no congresso é a garantia o atendimento a todos os pontos do acordo de greve. “Nós entendemos que, em alguns, teve avanço, nós temos plena consciência disso, mas tem alguns, principalmente no que se refere à carreira EBTT, que a Casa Civil segurou as medidas e tem tido dificuldade de nós avançarmos nisso. Então é uma outra tarefa que a gente vai ter, outra tarefa é acumular no primeiro semestre de 2026 com as entidades para construirmos uma campanha salarial muito importante para que a gente sente com o governo, negocie com o governo para que ocorra um processo de reposição do nosso salário”.

A questão do orçamento das universidades é outra prioridade na opinião de Cláudio: “Nós temos consciência da crise econômica mundial do capitalismo, mas nós entendemos que as universidades, institutos federais, os CEFETs não podem ser penalizados pela crise, eles são, na verdade, uma saída política, pedagógica para a saída da crise. É fortalecendo as universidades, institutos federais e CEFETs que a gente faz a disputa, inclusive ideológica, da sociedade com esses setores que não só combatem as universidades, mas que é até destruição da concepção de pluralidade, democracia, de ciência para o desenvolvimento social, de conhecimento para romper com todas as relações de opressão na sociedade brasileira. Então a universidade é, na verdade, um palco fundamental que tem que ser fortalecido, mas para isso a gente precisa de orçamento. E o governo precisa compreender que esse orçamento tem que ser ampliado e que tem que enfrentar esses setores reacionários no Congresso que tenta sufocar cada vez mais as nossas instituições de ensino.”

Nicole Pontes reconhece que os elementos do acordo que foram atendidos são resultado justamente do processo de greve. “Como o último agora, que foi o fim da lista tríplice. A gente acabou de receber essa notícia, uma notícia importante, uma luta histórica do ano do Sindicato Nacional, o fim da lista tríplice. E é importante ressaltar que isso foi justamente o fruto desse esforço coletivo que foi a nossa greve de 2004 e como a gente precisa manter essa organização do nosso sindicato e essa atuação de pressão sobre o governo, não fazendo simplesmente a crítica pela crítica, mas trazendo para uma perspectiva do nosso governo, que é um governo de esquerda importante, fundamental, essencial, o caminho justamente para fora dessa tentativa permanente de golpes da extrema-direita no Brasil também, mas trazer essas pautas populares para dentro da nossa discussão a partir das realidades do nosso professor.”

Fran Rebelatto menciona como ponto de preocupação também a questão da dependência das universidades a emendas parlamentares.  “Que outras articulações políticas no campo da educação, com as entidades da educação, a gente pode estar construindo para defendermos o projeto da educação numa perspectiva que a gente defende, emancipadora, classista, e com isso também com recurso próprio, com recurso apropriado, que a gente não fique refém das emendas parlamentares, como é o que a gente está acontecendo nesse momento? Ou seja, são muitas universidades que a gente sabe que as emendas parlamentares acabam sendo alternativas por justamente não termos um orçamento adequado. Então acho que essa é uma questão importante de como é que a gente coloca no centro da pauta esse debate do projeto da educação que a gente defende.”

Nicole Pontes reforça que as questões orçamentárias passam pelo governo e pelo Congresso, hoje, “inimigo do povo”. “Voltar a bater, por exemplo, na necessidade de retorno do suporte financeiro para as universidades, a gente também teve assinaturas de acordos importantes agora que conseguiram trazer de volta para a universidade um pouco de alívio, porque a gente está sempre trabalhando nesse momento difícil de alerta vermelho o tempo inteiro, as universidades sem recursos, sem dinheiro, mas é justamente fazer essa pressão para puxar o governo para retornar a essa posição de trabalho pelo povo, de trabalho e construção, e para a universidade, na nossa realidade, é voltar a discutir financiamento, voltar a discutir a universidade como esse espaço que necessita efetivamente do financiamento do suporte público, precisa desse financiamento entrando de uma maneira permanente, e acho que isso passa com a luta ainda contra o arcabouço fiscal, acho que esse é um elemento que a gente precisa bater, isso está em diversos nossos textos, é parte da nossa discussão o tempo inteiro dessa lógica do teto, especialmente porque, por exemplo, a gente acaba de ver em diversas situações um Congresso Nacional que acaba de anunciar que vai furar o teto com os salários.”

Maria Carlotto contextualiza essa crise orçamentária: “Nós estamos muito ameaçados por esse neoliberalismo de longo prazo, que começa com os militares na ditadura, assim como estamos ameaçados pelo neoliberalismo de hoje, que repercute até na política econômica do governo Lula, porque a restrição orçamentária das universidades está na ordem do dia. Se a gente olhar os gráficos, e tem um gráfico que eu brinco que é o gráfico da minha tristeza, vamos ver que depois que o orçamento das universidades federais cai, em 2015, o orçamento ele não mais se recupera. O governo Lula faz uma recomposição, é verdade, mas ainda muito tímida. Então nós estamos, desde 2015, em um contexto de restrição orçamentária, operando numa situação de muita escassez de recursos. Então óbvio que o nosso principal alvo é esse: o neoliberalismo – ou, se quisermos, os impactos do capitalismo – na educação.”

Maria Lídia defende que é necessário “qualificar a nossa estadia à frente dos nossos sindicatos, à frente da luta”. Nesse sentido, destaca que uma das TRs com as quais ela corrobora propõe a filiação do ANDES ao DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.). “Nós precisamos influir, sim, nas câmaras legislativas, nós precisamos influir no que está sendo votado, nós precisamos pautar, nós precisamos ajudar a construir esse caminho rumo a essa democracia radical que nós estamos perseguindo, e rumo a esse Brasil que tem seu papel no mundo hoje já, e que nós entendemos que com a história que nós construímos, com as universidades que temos, com as políticas públicas que nós podemos construir e assegurar a implementação, nós podemos continuar pautando e ocupando esse lugar no mundo para também mostrar que caminhos são possíveis nesse cenário de desmonte, de descrença, de ódio.”

 Condições de trabalho

Para Maria Carlotto, a melhor organização das pessoas no sindicato em torno de pautas que dialoguem com o cotidiano da categoria é a chave para ter força de massa e indicidr na conjuntura. “E o que é o cotidiano dos docentes? Uma categoria hiperadoecida, com enorme sobrecarga de trabalho por conta de vários processos que incluem, desde a pandemia, ou até antes, um processo de digitalização que transferiu o trabalho para os docentes. Então a gente está fazendo muito trabalho que antes a gente não fazia, há sobrecarga, desvio de função. Além disso, um aumento do número de alunos por cursos, de demandas novas, porque os alunos que entram hoje são alunos diferentes. Não é mais o perfil que vem “pronto” porque é branco e rico. São alunos que você tem que trabalhar muito mais para a universidade realmente fazer a política de inclusão que se propôs a fazer. Então os docentes estão muito sobrecarregados, adoecidos, endividados, porque a gente teve um rebaixamento de salário da ordem de um quarto nos governos Temer e Bolsonaro. E, mesmo com a greve e considerando a ação nefasta do PROIFES, o governo Lula não recompôs o suficiente.”

Em torno desse aspecto de condições de trabalho, Nicole Pontes considera que o sindicato deve disputar também a pauta contra a escala 6×1. “E saber que a gente ganhou, por exemplo, as discussões sobre o RSC para os colegas com a EBTT, que são das nossas escolas técnicas, colégios técnicos etc. A minha universidade tem um colégio em companheiros e companheiras da EBTT, foi uma vitória grande da nossa greve também. E fazer essa discussão de como planejar para adiante ver uma perspectiva de conjuntura para o próximo período de construção, porque, como eu disse, como a gente tem ano eleitoral no sindicato o ano que vem, é o primeiro ano de um governo no ano eleitoral, então a gente precisa, a partir de agora, construir esse planejamento e ter uma boa análise dessa conjuntura para poder fazer a construção dessas políticas de trabalho.”

Maria Lídia vê a necessidade de suporte nas diferentes dimensões. “Tanto jurídica quanto também de saúde mental. Nós estamos sobrecarregados, nós estamos exercendo funções que não são as nossas. Nós temos esse desvio de função também pela sobrecarga, essas métricas que exigem demais e estão sobrecarregando a nossa saúde mental. Enfim, então eu acho que tem essa pauta concreta que a gente gostaria de ver debatida e ver com encaminhamentos efetivos.” A presidenta da ADUnB também faz a defesa da campanha do software livre. “Nessa perspectiva da democratização mesmo do acesso, de uma soberania digital que não nos aprisione a empresas que têm outros interesses que não sejam nos ajudar a construir um outro mundo possível, um outro mundo com equidade, com justiça social, com universidades públicas abertas à população, enfim. Então essa pauta para a gente também é importante.”

Claudio Mendonça afirma que suas expectativas para o Congresso são positivas. “Por mais que nós tenhamos muito pessimismo diante da gravidade da conjuntura mundial e nacional com a força do bolsonarismo na extrema-direita, seja no âmbito federal, estadual, municipal ou distrital, estamos esperançosos que a gente vá sair com planos de luta unificados e que nos permita, em dezembro de 2026, dizer que valeu a pena cada segundo de luta que a gente construiu.”

Para Maria Carlotto, o ANDES precisa compor as lutas do campo democrático popular. “Existe um campo mais amplo que o ANDES se recusa a compor, porque ele está hegemonizado por uma cultura política muito esquerdista, isolacionista, sectária demais”. Ela considera que o sindicato precisa construir as mediações e politizar a categoria. “Ele não faz isso sendo um sindicato de saída radical. Ele tem que caminhar, existe um processo de radicalização da categoria que é a função do sindicato cumprir. Por isso, as pautas concretas para problemas concretos que não acabam em si mesmas.”

(*) Rita Camacho é jornalista e filiada ao PT.

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