A hora da verdade

A hora da verdade

A hora da verdade

A hora da verdade

Por Mariuza Guimarães (*)

Leio de tudo que me caia em mãos. O que não suporto é ficar sem leitura. Deve ser resquício de minha infância no interior, onde não tinha nem banca de jornal. O que recebíamos a cada início de ano era o almanaque na farmácia. Ele vinha com previsão do tempo para o ano todo, o tempo de plantio e de colheita. Receitas e orientações, além de alguns quadrinhos. Era leitura para toda a família. Eu devorava, lia e relia o tempo todo. Até que começamos a receber de parentes de São Paulo e de Campo Grande alguns outros materiais de leitura. Que coisa maravilhosa! Eu lia e relia gibis, revistas, literatura. Lembram da Coleção Vagalume da Ática? Livros maravilhosos. Enfim, posta esta nota introdutória, entro no assunto deste texto.

Fiz duas leituras que me tocaram profundamente nestas últimas semanas: Lula, de Fernando Morais e O conto da aia, de Margaret Atwood. Porque me tocaram???

Lula traz a trajetória do homem Lula, com toda a sensibilidade e seriedade do autor. Conta a história nua e crua de um homem que sofreu as agruras da fome, da violência doméstica, do machismo de um pai que tinha duas famílias e achava que tinha razão, de uma mãe que resistiu junto com seus filhos com pulso firme, impondo valores e restrições que os acompanhariam vida afora. Fala dos detalhes de sua vida familiar, viúvo por duas vezes, de sua sensibilidade ímpar com suas companheiras, que a despeito de suas experiências familiares, tratou-as com toda a dignidade que somente a igualdade de gêneros pode permitir.

Trata de sua trajetória enquanto trabalhador, sindicalista, sua resistência à partidarização, o entendimento da relevância do partido para a organização da classe trabalhdora e a consequente fundação do PT. Por fim, aborda a sua prisão, que na verdade é o primeiro capitulo.

O autor consegue descrever nas linhas e nas entrelinhas a dor e a força do homem Lula. Enquanto cercado por seus pares, trabalhadores e trabalhadoras de todo o Brasil, no Sindicato, no ABC paulista, foi sugerido que se asilasse, recebeu propostas de asilo em diversos paises; ele dizia: Eu fico. Vou provar a minha inocência!

Já preso em Curitiba, ainda cercado por seus pares, um acampamento que nunca foi fechado, nem mesmo por uma hora, trabalhadores, trabalhadoras, autoridades brasileiras e estrangeiras, artistas, se revezavam e todos os dias enviavam ao homem Lula, preso: “Bom dia, presidente Lula”; “Boa tarde, presidente Lula”; “Boa noite, presidente Lula”.

Escrevo, me arrepio, lacrimejo e sinto um embargo na voz e na respiração. Impossivel mensurar seus sentimentos, trancado ali. Um homem nascido para ser livre, como evidencia a sua trajetória.

Seus depoimentos foram proféticos e se cumpriram, um a um. E ele resistiu até a vitória final: provou a sua inocência em 26 processos judiciais.

Pensamos: “Agora ele vai para casa”. Não foi, se apresentou mais uma vez para servir ao seu povo, o povo pelo qual ficou quando poderia ter partido com a sensação de dever cumprido. Mas se apresenta, apenas mais uma vez convocado para unir o país e garantir direitos e dignidade a todas, todes e todos.

De outro lado, temos a obra O conto da aia,que retrata uma história de retalhos, mas que tem como pano de fundo um Estado Religioso.

Importante lembrar que religião é uma invenção humana, que apesar de significar crença em um poder superior à condição humana, se reveste de dogmas, usos e costumes criados por seus líderes e que ao longo da história vêm mostrando que em determinadas mãos segrega, mata e escraviza.

É isso que acontece na obra em epígrafe, um grupo se autoelege como redentor e torna-se o poder. O Estado passa a ser gerido por fundamentalismo religioso, que mistura o papel do Estado com o da igreja; e, as leis com valores religiosos.

A fé, genericamente, deveria significar a liberdade de escolha e não a exclusão de quem pensa diferente.

Curiosamente, a religião, o poder em mãos fundamentalistas, oprime as mulheres, escraviza as crianças, define grupos e subgrupos, subjuga, subjetiva e assujeita, levando quem tem poder de mando a acreditar que são detentores de todas as verdades; e levando os subjugados a crerem que estão nessa posição por uma escolha, passando a adotar as ideias de seus dominadores como suas.

Onde estas duas obras se encontram? Na conjuntura que estamos vivendo.

Lula representa a liberdade, ainda que estivesse preso, a luta que ultrapassa a sua individualidade, pois sabia que provar a sua inocência significaria a manutenção da liberdade de manifestação, de organização da classe trabalhadora e da manutenção da luta.

Enquanto que a outra obra mostra o Estado Religioso, que não significa a liberdade, mas a subjugação da igreja cristã, a segregação e a morte de quem professa religiões de matriz africana, indígena, orientais e outras formas de manifestação de fé ou não fé.

A escolha, nesse momento, é individual, mas as consequências serão coletivas, para o bem ou para o mal.

(*) Mariuza Guimarães, docente da educação superior, sindicalista, feminista e evangélica.

 

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