Lula e o “crime de responsabilidade”

Por Valter Pomar (*)

O UOL divulgou, no dia 1 de março, uma entrevista concedida pelo presidente Lula ao portal e ao jornal suíço Les Temps.

Não ouvi o áudio da entrevista, portanto não tenho como checar se há diferenças entre o que foi dito e o que foi publicado.

Isto posto, quero comentar dois trechos da entrevista publicada, um que achei extremamente positivo, o outro extremamente equivocado.

O extremamente positivo é o destaque dado à desigualdade. Sobre isso falarei noutro texto.

O extremamente equivocado é a opinião dada acerca do crime de responsabilidade. Sobre isto falarei aqui.

Podemos avaliar que não há mobilização popular em favor do impeachment.

Podemos constatar que não há correlação de forças no Congresso para aprovar o impeachment.

Podemos achar que não basta afastar Bolsonaro, pois há Mourão, Guedes, Moro e toda a corja neofascista e ultraliberal.

Podemos cobrar do Congresso e do STF que tomem a atitude prevista na Constituição.

Podemos deixar que quem pariu Mateus, o embale.

Podemos muitas coisas.

Podemos até achar que é melhor ter paciência por 4 anos. E depois mais 4, quem sabe, restando saber nesta toada que país teremos em 2022 ou em 2026.

O que não podemos é negar (ou colocar na condicional, como uma hipótese futura) algo que até mesmo setores da direita reconhecem: o presidente Bolsonaro é uma fábrica de crimes de responsabilidade.

Dito de outro jeito: o que “acaba com a democracia” não é reconhecer que Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade, para os quais uma solução prevista em lei é o impeachment.

O que “acaba com a democracia” é ter um neofascista e amigo de milicianos na presidência da República.

A entrevista citada está disponível aqui:

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/03/01/a-esquerda-perdeu-o-discurso-e-tera-de-reconstrui-lo-diz-lula.htm

(*) Valter Pomar é professor da UFABC e integrante do Diretório Nacional do PT

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