Por Pedro Estevam da Rocha Pomar (*)
Todo jornalista com alguma experiência no fechamento de publicações impressas sabe como pode ser difícil decidir a hierarquia das principais matérias no arranjo da “capa”, a primeira página, numa edição em que duas, três ou até mais notícias de importância equivalente, e não raramente de editorias diferentes — por exemplo: política nacional, economia, relações internacionais — disputam esse espaço nobre.
Escolher qual das matérias vai se tornar a manchete da edição, e como dispor na capa as demais, igualmente merecedoras de destaque, é um desafio profissional dos mais relevantes para quem estiver incumbido do fechamento. Como agravante, num jornal diário essas decisões, que necessariamente precisam combinar discernimento editorial e técnica jornalística, têm que ser tomadas com rapidez.
Feitas essas considerações preliminares, é preciso observar também que, no jornalismo profissional brasileiro, é muito remota a chance de uma notícia realmente importante não aparecer na capa de um diário, ainda que numa chamada lateral. Se não apareceu, geralmente não foi por erro, mas por uma escolha editorial.
Assim, não custa perguntar: como explicar que a espantosa informação de que, em 2024, o banco Itaú (ou “Itaú Unibanco”) alcançou o maior lucro líquido anual da história dos bancos brasileiros, não tenha aparecido na capa da Folha de S. Paulo, de O Globo ou do Estadão, sequer sob a forma de uma humilde chamadinha de rodapé?
Pois é. O Itaú obteve o formidável lucro líquido de R$ 41,4 bilhões em 2024. Coincidentemente, esse resultado excepcional até para nossos padrões nacionais de acumulação rentista corresponde ao último ano do mandato de Roberto Campos Neto como presidente do Banco Central (BC), período no qual o Brasil experimentou as taxas de juros mais altas do mundo. O anúncio desse notável feito financeiro se deu no dia 5 de fevereiro de 2025. Deveria, portanto, “comparecer” na capa da edição de 6 de fevereiro dos principais jornais brasileiros. Mas não foi o que aconteceu.
Até mesmo o Valor, jornal do Grupo Globo especializado em economia e negócios, deixou de noticiar esse fato na sua capa, o que é surpreendente. “Itaú lucra R$ 41,4 bi em 2024 e vê margem forte este ano”, diz a manchete da página C5, no caderno de Finanças. Acima da manchete, uma linha fina agrega a seguinte explicação: “Em bom momento, banco divulga R$ 18 bilhões em retorno aos acionistas, entre dividendos e recompra de ações”. Frise-se: R$ 18 bilhões apenas em dividendos. Ainda assim, não foi para a capa.
“Lucro do Itaú Unibanco tem alta de 16,2% e soma R$ 41,4 bi em 2024”, publicou o Estadão de 6 de janeiro, na página B10 do caderno “Economia&Negócios”, bem distante da capa do jornal. “Com expansão das operações de crédito e queda na inadimplência, rentabilidade foi de 22,1%; banco vai distribuir R$ 15 bilhões em dividendos aos acionistas em março”, acrescentava a linha fina. Na mesma página citava-se o lucro líquido de R$ 13,87 bilhões do Santander (“avanço de 47,8%”).
A Folha de S. Paulo foi a mais comedida: numa matéria espremida em uma coluna da página A25, tomada por anúncios, noticiou discretamente: “Itaú Unibanco tem lucro de R$ 41,4 bi em 2024 e anuncia dividendos”. Capa, nem pensar.
O Globo, por sua vez, só estampou a notícia no dia 7 de fevereiro, mas na editoria de Economia, na página 13: “Lucro de 41,4 bi do Itaú em 2024 é o maior da história bancária do país”. Na capa desta edição, a única chamada a tratar do sistema financeiro diz o seguinte: “Investimento em alta dos bancos: popstars”. O texto correspondente informa que, após o sucesso de Madonna em show patrocinado pelo Itaú, “Santander entra em cena para trazer Lady Gaga, e BTG investe em prêmio de música”.
Ver capas de jornais:
Vale a pena detalhar essa notícia relegada aos cadernos de economia, negócios e finanças dos grandes jornais. O Valor anotou que o Itaú “divulgou um retorno aos acionistas de R$ 18 bilhões, com dividendo extraordinário e recompra de ações”, e que o banco “surpreendeu ao anunciar um aumento de capital de R$ 33,3 bilhões” (destacado por mim), o que, combinado com a projeção de desempenho “relativamente otimista” para 2025, “indica apetite para crescer ainda mais” (idem). Oba!
A carteira de crédito do banco cresceu 15,5% e alcançou nada menos que R$ 1,36 trilhão, com destaque para as operações que envolvem cartões de crédito e financiamento imobiliário (pessoas físicas). O Estadão de 7 de fevereiro adicionou que, segundo a consultoria Elos Ayta, o Itaú “também se destaca ao deter o maior lucro já registrado tanto em valores nominais quanto em valores ajustados pela inflação medida pelo IPCA”. Ainda conforme a Elos Ayta, oito dos dez maiores lucros da história entre os bancos listados na Bolsa de Valores (“B3”) pertencem ao Itaú. “Os outros dois lugares da lista são ocupados pelo Banco do Brasil — que registrou lucro de R$ 33,8 bilhões, em 2023, e de R$ 31 bilhões em 2022”.
Bancos privados vão muito bem!
A notícia sobre o tremendo sucesso do Itaú em 2024 não foi a única, nessa seara, a deixar de frequentar a capa dos grandes jornais brasileiros. É que, como veremos, toda a fatia mais nobre da “Faria Lima”, cognome do mercado financeiro, obteve excelentes resultados nesse mesmo ano. A atuação de Campos Neto à frente do BC foi exitosa — não para o país, mas para o setor financeiro.
Juntos, os três principais bancos privados do Brasil — Itaú, Santander e Bradesco — amealharam o estonteante lucro líquido de R$ 74,8 bilhões em 2024. Além dos R$ 41,4 bilhões apurados pelo Itaú, o Bradesco obteve R$ 19,55 bilhões e o Santander, como visto, R$ 13,87 bilhões. (O BTG de André Esteves bem que poderia ter entrado nesta lista: afinal de contas, alcançou R$ 12,3 bilhões de lucro líquido em 2024. Com isso, os quatro maiores bancos privados somam lucro líquido de R$ 87 bilhões em apenas um ano!)
Essa notícia estrondosa, apurada pelo repórter Matheus Piovesana, do Estadão Broadcast, em cujo site foi publicada em 7 de janeiro, mal e mal apareceu nas páginas do próprio Estadão na edição do dia seguinte, onde foi confinada na metade inferior da página B7 do caderno “Economia&Negócios” (a metade superior noticiou o lucro líquido do Bradesco em 2024). Nos outros jornais sequer foi citada. Ficou restrita a alguns portais da grande mídia (UOL, Terra e CNN Brasil) e a sites da mídia alternativa, como Brasil 247, Brasil de Fato e outros.
Portanto, pode-se chegar à conclusão de que por algum motivo as direções de redação dos principais diários brasileiros decidiram que os prodigiosos lucros do sistema financeiro privado não devem ser assunto de capa. São notícias que supostamente só interessam à turma da “Faria Lima”, a empresários em geral, a economistas. Não precisariam, assim, fazer parte do noticiário geral. A distribuição do noticiário por editorias estanques, adotada pelos jornais há décadas, facilita essa operação de apagamento ao separar “política” e “economia”.
No entanto, o lucro de R$ 41,4 bilhões do Itaú, bem como o lucro somado de R$ 87 bilhões dos quatro maiores bancos, são informações que não podem ficar segregadas sob o rótulo de “empresas”, ou “finanças”, ou “negócios”. Porque têm tudo a ver com a política nacional, com a hegemonia do sistema financeiro sobre o restante da sociedade, com sucessivos pacotes de “ajuste fiscal”, e com o apartheid social existente em nosso país.
Esse é o verdadeiro pano de fundo da orientação editorial de confinar nas páginas internas os ótimos resultados desse setor da economia. Afinal de contas, a rigor, os jornais deveriam investigar todas as consequências, para a sociedade brasileira, desse notável enriquecimento das casas bancárias e de seus felizes executivos e acionistas.
Os próprios jornais divulgam, aqui e ali, sintomas de ruídos na relação entre o rentismo, de um lado, e o metabolismo social, de outro lado. O Estadão, por exemplo, acaba de divulgar matéria sobre o sumiço das agências bancárias, intitulada “A agência sumiu: bancos aceleram encolhimento da rede física e fecham mais de 800 pontos em 2024”. A reportagem informa que “Itaú, Bradesco e Santander encerraram mais de 5 mil endereços desde 2014”, e que tais fechamentos “aumentaram com migração para o digital e redução da rentabilidade de operações voltadas a clientes de menor renda”. Quantos empregos terão desaparecido com tal encolhimento?
A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT) informou , com base em levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que o setor bancário “eliminou 6.198 postos de trabalho em 2024, em sentido contrário ao resultado apresentado pelo mercado de trabalho geral do país, que criou 1.639.673 postos de trabalho”. O saldo negativo resulta da diferença entre 39.768 contratações e 45.966 demissões.
A maior responsabilidade pelo fechamento de vagas no setor em 2024 cabe aos bancos múltiplos com carteira comercial, “atividade em que estão inseridos os principais bancos privados e o Banco do Brasil, com a extinção de 3.608 vagas”, diz o Dieese. De maneira geral, as ocupações que resultaram na abertura de novos postos de emprego são associadas à Tecnologia da Informação (TI). Ocupações tradicionalmente ligadas às agências físicas foram as que mais sofreram com a eliminação de vagas, como gerente de contas, gerente de agência e escriturário de banco: juntas tiveram mais de 6.500 postos de trabalho encerrados.
Para finalizar, outro exemplo do Estadão: uma chamada de capa, com algum destaque (topo da coluna direita), na capa da edição de 23 de fevereiro: “Inadimplência/Retomada de imóveis por bancos tem maior nível em 4 anos/Instituições financeiras acumularam até novembro estoque de R$ 79 bi em imóveis. A Caixa liga saldo à expansão do mercado de crédito. Encontrar compradores em cenário de juro alto é desafio”. E a retomada recorde de imóveis, será que nada tem a ver com o “cenário de juro alto”?
(*) O autor é jornalista e militante do PT