Reflexões decorrentes do encontro de Lula com FHC

Reflexões decorrentes do encontro de Lula com FHC

Reflexões decorrentes do encontro de Lula com FHC

Por Valter Pomar (*)

Os recentes encontros de Lula com Aloysio Nunes e com Fernando Henrique Cardoso não deveriam surpreender ninguém: fazem parte da aposta na “frente ampla”, que por sua vez decorre da opção por insistir na estratégia adotada pelo Partido entre 1995 e 2015.

Aliás, exceto por pudor, a lógica desta política conduz a também incluir no “mutirão para governar” o senhor Michel Temer, por sinal muito mais influente no parlamento do que certos tucanos.

Tampouco deveriam ser motivo de surpresa as seguidas afirmações feitas por Lula, segundo as quais ainda não é candidato e que a palavra final caberá ao Partido.

A “surpresa” manifesta por alguns deve-se, acho eu, às citadas afirmações parecerem desnecessárias e até contraditórias com o amplo apoio que as posições defendidas por Lula parecem receber do eleitorado e da militância da esquerda.

Este apoio resulta, acho, de quatro motivos combinados.

O primeiro deles é Bolsonaro: para muita gente, todo preço é barato se o resultado for tirar o cavernícola. Por isso, atrair desde já setores de centro e direita para ser bônus sem ônus.

O segundo motivo é a incerteza sobre o que fará a extrema-direita: apesar das pesquisas ou por causa delas, todos sabem que a eleição não será um passeio, governar muito menos. Por isso, muita gente acha recomendável a mais ampla aliança.

O terceiro motivo é o tamanho da destruição e a imensidade dos problemas econômicos, sociais, políticos e culturais. Isto conduz grande parte da esquerda a não se preocupar muito com as concessões programáticas: a lógica gradualista recomenda reconstruir primeiro, para depois tentar transformar.

O quarto motivo é que, apesar de todas as alianças e concessões, na cabeça do processo estará o Lula, que dispõe de enorme crédito de confiança em amplos setores da esquerda. Soluções como “Alckmin vice” não estariam sobre a mesa, nem seriam toleradas por muita gente, se o candidato fosse outra pessoa.

Mas se é assim, por qual motivo Lula fala que ainda não é candidato e que a palavra final caberá ao Partido?

Seria um excessivo cuidado com as formas e com a legalidade?

Ou seria um “recado” (palavra adorada por certos jornalistas, Freud explica) do tipo “se me querem, terá que ser nestes termos”?

Na minha opinião, olhando de longe e sem ter nenhuma informação privilegiada, arrisco uma outra interpretação, vinculada ao que vou chamar de calcanhar de Aquiles da coisa toda.

O caso é: a estratégia adotada pelo PT entre 1995 e 2015 demonstrou seus êxitos e debilidades.

Os êxitos nos fizeram vencer 4 eleições presidenciais seguidas.

As debilidades nos impediram de derrotar o golpe de 2016 e o resto da história todos sabemos.

Hoje, a opção de Lula e de parcela majoritária da atual direção nacional do PT é por repetir a estratégia adotada entre 1995 e 2015, mas há três agravantes ou complicadores.

O primeiro deles é a situação objetiva (mundial e nacional), bem pior do que em 2002.

O segundo deles é a crescente aproximação com aqueles contra os quais disputamos entre 1995 e 2005: os tucanos.

Na prática, Lula está assumindo as vestes de Tancredo, que por sinal foi buscar Sarney para ser vice da Aliança Democrática.

O terceiro agravante é a extrema dependência de toda esta estratégia em relação a pessoa física do próprio Lula.

Este terceiro agravante ou complicador não é segredo. Por exemplo, na coletiva de Lula à parte da chamada mídia independente o jornalista Nassif aludiu ao fato: se atentarem contra a vida de Lula, Alckmin assumiria.

Proponho, entretanto, fazer o exercício oposto ao proposto por Nassif: submeter a estratégia a um estresse positivo.

Explico: vamos imaginar que Alckmin vira vice, Lula vence as eleições, o governo toma posse, nomeia um ministério amplo (inclusive com ministros tucanos), a reconstrução segue seu curso, Lula é candidato à reeleição em 2026, vence novamente as eleições etc.

E depois?

Nesta hipótese do “tudo dando certo, o “depois” dependerá de múltiplas variáveis.

Algumas são impossíveis de prever, outras não estão sob nosso controle.

Mas há uma variável que a vida já demonstrou ser previsível, estar sob nosso controle e jogar papel decisivo: o Partido (ou, numa chave mais ampla, a esquerda partidária e social como um todo).

A estratégia adotada entre 1995 e 2015 fortaleceu o Partido até o momento em que viramos governo; depois o Partido se enfraqueceu continuamente, em todos os terrenos.

Não apenas o Partido no sentido estrito, mas o partido no sentido histórico da palavra se enfraqueceu muito a partir de 2003: movimentos populares, sindicatos etc.

Hoje o Partido no sentido estrito está em vias de se recuperar eleitoralmente, mas do ponto de vista mais amplo estamos mais frágeis do que éramos em 2002.

Pois bem: mesmo que tudo “dê certo”, a opção pela estratégia de frente ampla em 2022 vai submeter o Partido, a partir de 2023, a dificuldades e tensões maiores do que as vividas entre 2003 e 2015.

Inclusive porque já sabemos – a partir da experiência pós 2003 – que a vida do povo pode melhorar, mas o Partido e a esquerda podem se enfraquecer.

Minha impressão é que – exatamente por saber disto – o cidadão Lula está deixando claro ao PT que, se aceitar o curso proposto por ele, deve assumir as responsabilidades pelas consequências e riscos derivados.

Noutras palavras: tenham consciência das implicações e riscos de médio prazo mesmo no caso de tudo “dar certo”; e não venham depois dizer que o Lula não “sabe o que faz”.

Se o próximo governo de Lula for bem mais amplo que o PT, se existir uma aliança com setores da direita, se por conta disso o programa de governo for em maior ou menor medida social-liberal, é preciso que o PT preserve sua condição de partido de esquerda, preserve sua capacidade de não apenas defender o governo contra a extrema-direita, mas também sua capacidade de seguir lutando e pressionando em defesa das posições da classe trabalhadora.

Moral da história: mesmo nos marcos da estratégia de frente ampla – com a qual não estou de acordo (por razões eleitorais, programáticas e estratégicas) – acho uma absurda temeridade entregar a vice para Alckmin e acho outra absurda temeridade enfiar o PT numa federação com o PSB.

Estas duas opções são totalmente desnecessárias para a tal “frente ampla” e tornarão muito mais difíceis as coisas para o PT.

Infelizmente, quem entrou na “vibe” de “virar a página do golpe” pode acabar cometendo este tipo de temeridade, Temer inclusive.

Falta moderação na moderação!

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT

 

 

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