O Estadão não falha

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Por Valter Pomar (*)

O companheiro Bruno Elias me chamou a atenção para um excelente editorial publicado no dia 30 de novembro de 2022, pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O texto (ver link e miniatura abaixo) faz algumas afirmações que parecem ter saído da pena de um “petista infiltrado”, fazendo recordar uma história segundo a qual Júlio de Mesquita Filho, um dos donos do Estadão, teria dito durante a ditadura: “Com meus comunistas ninguém mexe, deles cuido eu”.

Mas outras afirmações atestam o verdadeiro pedigree do editorial. Entre elas, destaco duas:

*”o bolsonarismo apostou em uma sociedade quase feudal”;

*”cabe perguntar como Bolsonaro conquistou quase metade dos votos na disputa presidencial, bem como refletir sobre o que isso revela sobre as noções brasileiras de cidadania e coesão social”.

Como se pode ver, a classe dominante não perde o hábito: deu merda, socializemos as responsabilidades e os prejuízos.

Ao contrário do que diz O Estado de São Paulo, as “noções de cidadania e coesão social” que levaram quase metade dos eleitores ativos a votar no cavernícola não são “brasileiras”, são de uma parte dos brasileiros.

Aquela parte que governou o Brasil durante quase toda sua existência como nação.

Aquela parte que foi derrotada em quatro eleições presidenciais, entre 2002 e 2014.

Aquela parte que apelou para o golpe em 2016 e para a fraude em 2018.

Aquela parte que é comandada pela classe dominante, O Estado de São Paulo incluído.

Se os “feudais” perderam a eleição presidencial de 2022, foi graças a tudo que O Estado de São Paulo sempre combateu.

Perderam, graças aos trabalhadores pobres, as mulheres trabalhadoras, os negros e negras com consciência de raça e classe, a intelectualidade democrática, os que lutam contra o fundamentalismo e contra todo tipo de preconceito, os povos indígenas e os quilombolas, a juventude combativa, ao “nordeste” geográfico e ao nordeste político-cultural” que existe em cada canto de nosso Brasil.

Ademais, ao contrário do que O Estado de São Paulo dá a entender, a “sociedade quase feudal” não é defendida apenas por Bolsonaro.

Para começo de conversa, este “país varonil” em que vivemos nunca viveu uma revolução burguesa das boas, daquelas que cortam as cabeças da aristocracia.

Por isso, nossa democracia é constrangida pela oligarquia, nossa soberania é limitada pela dependência, nosso desenvolvimento conserva e amplia a riqueza e o poder de quem já tem muito, por isso a cabeça de nossa classe dominante é feudal, quando muito tecnofeudal.

E o que já era ruim, ficou pior ainda com a onda neoliberal.

Bolsonaro, nesse quesito, surfou na onda inaugurada pela direita gourmet.

Muito antes de Bolsonaro, foi esta direita que, para defender o estado de coisas, se lançou na privataria, na terceirização, na farra da dívida e no desmonte das (poucas) políticas que o Estado oferecia ao povo.

E é exatamente esta direita gourmet que, passada a eleição presidencial, se esforça por limpar algumas das digitais que deixou na cena do crime e, ao mesmo tempo, tenta impor limites às mudanças profundas que o Brasil precisa.

No fundo, no fundo, o editorial do Estadão – ironicamente intitulado “Os inimigos do Estado” – deve ter sido escrito por um descendente do Tancredi de Il Gattopardo: “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi“.

Segue o link e a imagem do editorial citado acima.

https://www.pressreader.com/brazil/o-estado-de-s-paulo/20221130/281608129452363

 

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